Eduardo Nasi

Quer pedir um café? Suco?

Um chá.

Chá do quê?

Earl Grey.

Hm, não sei se aqui vão ter…

Vai ser ruim. 99% dos lugares vende chá e entrega palha neste país.

Moço, tem chá Earl Grey?

GARÇOM – Chá só de cidreira.

EDUARDO NASI – Natural?

GARÇOM – Sim.

EDUARDO NASI – (voltando-se para Deisy) Pode ser. Mas vou dormir.

Pode deixar que eu sei te deixar ligado.

Uh…

(Risos) Então vê duas chás de cidreira pra gente, por favor. Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Edu, tudo bem?

Não espero nada diferente de uma jornalista de quadrinhos.

Rá, você não perdoa nada, não é mesmo? Então me diga que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos? 

Fui obrigado, constrangido, até mesmo chantageado, então acabei tendo que fazer. Não esperava que as pessoas encontrassem ou lessem esses quadrinhos.

Alguma coisa me diz para não sentir dó de você. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Ler, né? Porque fazer é um saco.

E o que é mais broxante?

O leitor. Tudo que eu odeio é o leitor. Porque em quadrinhos tem que ter uma sequência que o maldito leitor entenda. E isso dá um trabalho, sabe? Se o personagem parece o Ulisses Guimarães num quadrinho, ele não pode parecer a Xuxa no quadrinho seguinte. E fazer isso é muito chato. Não tem nada a ver comigo.

Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia.

Mas eu discordo do Rafa. Pra quem faz, me parece que fazer quadrinhos é tão chato quanto fazer cinema, mas cinema incrivelmente paga mais. Mas concordo que na linguagem não tem tanto a ver, não. Só que não foi isso que você perguntou. Você não está nem aí pra minha opinião, né?

Estou pagando pelo seu chá de cidreira, amor. Tudo bem que deve ser mais natural do que a Monsanto e a Nestlé juntas, mas deve ser o suficiente, não? Continuando: Me diga um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Não.

Não?! (cara de cão sem dono)

Ok, eu queria ver um filme do Fábio Zimbres. Uma trilogia em 4D e Imax. 4D é aquela cadeira que mexe, solta água, dá chute nas costas… No filme baseado na obra do Fábio, ia ser só chute nas costas.

Hahahaha, eu também estou precisando de umas massagens. Uma quadrinista foda e porquê?

Não precisamos ir longe: Laerte é a melhor quadrinista do mundo.

Sensacional! A-do-ro a Laerte. Ah, olha o chá aí. Obrigada, moço. Entre uma leitura e outra, finais abertos ou histórias fechadas?

Histórias abertas com finais abertos pra cabeças abertas.

Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Eu adoro uma HQ chamada Kill Your Boyfriend. Inclusive a coisa de que mais me orgulho de ter feito pros quadrinhos foi dar uma tradução decente pra ela em português. Você leu?

Sei qual é. Já passou pela minha mão e…

Não. Ninguém leu, mas é uma puta HQ. É sobre um escocês que perverte essa jovem escocesa que tem um namorado babaca. E tem essa cena em que eles se encontram numa fonte, à noite, e eles conversam sobre a vida, e ele oferece vodka pra ela, e ela diz que não bebe, e ele sorri e faz a pergunta final: “quer começar?”.

Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

A pergunta é uma constrangedora, mas é uma oportunidade de dizer que eu queria ser o Woody Allen.

 

Também trairia a Mia Farrow? Não precisa responder. Imagine que você está na pele desse personagem e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Ir pra minha sessão de análise.

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Gostoso.

Obrigada pela entrevista, querido. Aceita uma sobremesa?

Só outro chá, obrigado.

 

flerte4-eduardo-nasi

 

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