Ramon Vitral

Vitralizado

 

Quer pedir um café? Suco?

Vou de suco. Acerola com laranja.

Moço, vê um café puro e uma acerola com laranja para o Sr. Gripadinho aqui. Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Manda bala. Estou mais acostumado a entrevistar do que ser entrevistado, mas vamos lá.

Bem vindo ao lado de lá. Que diabos aconteceu com você para resolver criar o Vitralizado?

Cara, sempre gostei de quadrinhos e no final das contas tava escrevendo bastante sobre HQs nos meus trabalhos, mas não era o suficiente. O Vitralizado é meu ponto de fuga, meu porto seguro. Ali me sinto realizado profissionalmente.

Humm, tá virando uma graninha então? Não precisa responder. Vamos deixar os agiotas em paz por enquanto. O que te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Talvez o escape, a possibilidade de fuga. O que é engraçado, porque minhas obras preferidas costumam ser as que mais dialogam com o mundo real, por mais fantásticas que sejam. Gibis ainda tem a arte, que potencializam e intensificam ainda mais esse mergulho. Nossa, dá pra ir longe. Mas acho que é isso, quanto mais imersivo o trem, melhor.

“A realidade é mais extraordinária que a ficção.” Não é essa a lei? Prefiro as histórias mais naturais também pelo mesmo motivo. E o que é mais broxante?

Odeio pegar uma dita história em quadrinho que é apenas uma história contada em quadros, sabe? Quando não tem narrativa, os elementos da linguagem não são explorados, e são apenas vários quadros em sequência, cheios de balões e bonequinhos desenhados. Fez sentido?

Totalmente! Uma coisa que me instiga muito no trabalho do Daniel Clowes é que ele não só idealiza cada quadro dentro de uma composição própria como todos os quadrinhos dialogam bem com a página e cada página com o álbum num todo. Parece algo quântico. E deve ser! Bem, atendo-se a entrevista, porque se deixar… Você tocou numa feridinha aí. Daquelas que dá vontade de ficar descascando sempre. Voltando: Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Eita. Queria ver alguma HQ do Adrian Tomine no cinema. Seria no mesmo naipe de Ghost World, sobre a banalidade da vida e tudo mais. Um Seinfeld deprê. Tá tudo pronto, não tem que mexer no texto nem nada, é só filmar.

Isso não é meio complicado? Acho importante haver uma adaptação. Caso contrário a HQ do Tomine seria um cinema impresso. A narrativa das HQs possuem uma forma própria e tão bom quando isso acontece, quando exploram isso. Se quiser você pode falar um pouco mais. Acho que ainda temos tempo, não?

Claro, claro. Tem que adaptar bastante coisa sim, são duas linguagem completamente diferentes. De qualquer forma, não acho que seria tão difícil transpor as HQs do Tomine pro cinema. As histórias dele não são tão intrínsecas à linguagem dos quadrinhos como são os trabalhos do Chris Ware por exemplo. Aliás, outro dia o Lielson Zeni falou um negócio que concordo muito: nada pior do que elogiar uma HQ dizendo que ela é “cinematográfica”, como se o cinema fosse o salto evolucionário seguinte de um gibi. Há bons atributos e conceitos cinematográficos que podem servir de inspiração em um quadrinho, mas se foi feito em formato de HQ não é cinematográfico! É algo possível de ser feito em quadrinho, pô hahaha E outra, acho que nunca vi ninguém dizendo que um filme é “quadrinístico” ou “quadrinesco”, sei lá. Queria muito ler: “O filme novo dos irmãos Coen é extremamente quadrinístico, daria um ótimo gibi de autoria do Charles Burns”. Saca?

Já disse que te amo hoje? (risos) Uma quadrinista foda e porquê?

Uma só?

Infelizmente.

É a Alison Bechdel, cara. Sem dúvida. Não conheço autor nenhum de HQ que chegou perto de escrever algo tão denso quanto Fun Home e Are You My Mother? Sério, são provavelmente os quadrinhos mais bem escritos que já li.

Minha heroína. Fun Home é mesmo um petardo… Ah, você sabe! A gente já conversou sobre isso. Acho que a próxima pergunta vem bem a calhar: Entre uma leitura e outra, finais abertos ou histórias fechadas??

Hummm…complexa essa hein? Ó: sou sempre a favor da dúvida, algo que pode vir tanto num final aberto quanto fechado, né? Mas tendo acreditar que histórias totalmente fechadas não acrescentam muita coisa.

Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo  debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Putz, tem tantas. Tem uma página do Jimmy Corrigan que gosto muito. Uma das mais convencionais do livro. É o Jimmy no médico, depois que ele machuca o nariz, acho. Ele observa o ninho de um pássaro da janela do consultório e voa longe, literalmente, acompanhado do pássaro. Aí o médico entra na sala, volta tudo ao normal e vida que segue. Enfim, essa é uma. Nada demais, mas tem um tremendo simbolismo.

Cara, eu adoro aquilo! E existem vários outros momentos no Jimmy. Realmente, foda. E falando em foda, agora é a hora da pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Complicada também, hein? Meus personagens preferidos são os mais ferrados, não queria estar no lugar deles hehe Talvez eu pudesse ser personagem de alguma HQ curtinha do Adrian Tomine. Uma dessas bem banais, sobre a vida e tudo mais. Acordo, trabalho, almoço, leio uns gibis, mexo no blog, tenho um dia bom e no fim do dia lembro que esqueci de pagar alguma conta ou tomar algum remédio. Fim.

Imagine que você está na pele desse personagem e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Eu, sendo eu, em uma HQ do Adrian Tomine, instantes antes de uma invasão alienígena ou de um meteoro cair na terra, iria provavelmente me trancar no quarto, deitar na minha cama e ler uns gibis enquanto aguardo o fim do mundo.

E qual seria a primeira da lista?

Ia pegar alguma coletânea de Peanuts ou Calvin.

Faz sentido. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Não lembro de nada e não guardo traumas, mas voltei vendo o mundo em 2D. Desde então me sinto vivendo em uma HQ.

Ah, meu… Ainda bem que você falou isso. Porque eu não sabia como dizer… Você, você está 2D, Ramon! Olha isso! Parece um filme do Roger Rabbit. Obrigada pela entrevista, mas acho bom você ir ao médico. Sério! Eu ia sugerir uma sobremesa. Mas 2D?! Vem, eu te dou uma carona. Você tá com carro ou não? Moço quanto deu a conta?

flerte1

 

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