Guilherme Petreca

Mistho (Edda), Carnaval dos Meus Demônios (Balão Editorial), Galho Seco (independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Café, duas xícaras. Três se não for pedir muito.

Quantos você quiser, querido. A Veneta está pagando a conta. Você sabe como essas coisas funcionam.

Rola brownie? O daqui é uma delícia, tem casquinha em cima.

Claro! Moço, vê dois cafés por enquanto e uma porção desse brownie. Caprichada, hein? Que eu preciso alimentar a criança. (passando a mão em sua barriga) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Gui, tudo bem?

Perguntas nunca são desnecessárias. São?

Ah, existe muita coisa desnecessária neste mundo! Bem, que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos?

Bom, pra ser sincero quadrinhos foi a última opção. Sempre adorei hqs, mas a princípio queria fazer curtas e longa metragens de animação. Quando conheci um pouco da estrutura que se precisa para produzir um filme, percebi que seria impossível. Além do custo altíssimo, são muitas pessoas envolvidas. Então comecei a me envolver com pintura, e achei que seria legal ser artista plástico, mas percebi que o que eu queria produzir não tem a ver com o universo de galerias, exibições, etc. Percebi que o que me encanta é a narrativa, a relação entre personagens, fatos, lugares. Não que as artes plásticas não possibilitem isso, mas não estava funcionando para mim. Era mais frustrante do que prazeroso. Sempre gostei de quadrinhos, mas nunca achei que eu conseguiria produzir um. Sou muito preguiçoso, não tinha paciência para escrever roteiros. Comecei a escrever várias histórias curtas, pois não precisavam de tanto envolvimento com a escrita, e comecei a testar estilos de traço e narrativa. Na época eu e minha namorada…

Namorada?! Ela sabe que você está aqui? Dando esse perdido?? Não quero me complicar, rapaz! Mas continue. Agora que já fez o crime só resta ir até o final.

Na época eu e minha namorada fizemos um curso com o Mutarelli, foi incrível, decisivo. 

O Mutta é um dos homens mais lindos que eu já conheci.

No mesmo ano rolou um FIQ, e eu queria ter algo para levar. Revisitei alguns esboços e nasceu “Galho Seco”. Pra mim foi crucial ter experiências com outras formas de produzir arte, trago muito do que experimentei para as hqs. É uma mídia que permite tudo, sou apaixonado.

Ai gente, os olhinhos dele até brilham. Coma seu brownie, coma. Porque eu quero você bem fortinho para me responder o que te deixa excitado em uma narrativa gráfica. Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

O equilíbrio. Entre traço, roteiro e narrativa. Quando o autor usa a seu favor a sequência de leitura, a virada das páginas, uma edição caprichada. São elementos que trazem um êxtase mental e físico. “Estigmas”, “Isaac o Pirata”, “Wilson“, “Cachalote“, “Maia”, “Hermínia”, “Ardalén”, “O Gosto do Cloro”, “Umbigo sem Fundo” são algumas (entre várias) Hqs que para mim, chegaram nesse equilíbrio.

Temos gostos parecidos, sabia? Acho que uma afinidade assim de outro mundo… Não precisa ficar corado, Gui. É a namorada? (risos satânicos) Tá bem. E o que é mais broxante dentro da narrativa?

Quando uma HQ com potencial é interrompida. Não falo sobre finais abertos, e sim finais mal feitos, antecipados. Quando uma história que deveria ter 200 páginas é contada em 20. Isso é algo que vejo com frequência, e é muito broxante.

Os clichês também são.

Narrativa travada, quando o texto sobrepõe demais a imagem e a leitura se torna massiva.

Cenas desnecessárias, por exemplo cenas de sexo que não tem porquê de existir, não acrescentam nada a história.

Na verdade a lista é longa.

Sexo pra mim sempre acrescenta algo, se é que você me entende… (olhar 43)

O café daqui demora, mas é bom.

Tudo com você é sempre bom… (olhar 54) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Primeiro, “Rafa”? Que intimidade, haha.

Eu e ele somos assim, tá?

Tá ficando vermelha, Deisy. Pára de me chutar , porra!

Você me ama mesmo, não é? Não se preocupe, a namorada não vai saber.

Enfim. É difícil, porque os quadrinhos que vou citar são perfeitos como estão, mas seria interessante ver na telona, 

Em animação:

– Ardalén (na mesma linha que o Miguelanxo dirigiu “De Profundis”, ficaria incrível)

3 Sombras

– Hellboy (fiel ao quadrinho, não aquela versão horrível que fizeram)

Olha, o primeiro até que não me incomodou tanto. E eu adoro o Ron Perlman desde a Bela e a Fera. Você já assistiu ao Ladrão de Sonhos? É incrível, cara.

– Perpetuum Mobile (às vezes o Diego solta uns gifs incríveis, seria demais um longa com aquele tipo de animação).

Tenho visto também. Seria demais mesmo!

Live Action:

A vida de Jonas (imagina dirigido pelo Wes Anderson?)

Acabei de imaginar… Se bem que ficaria melhor nas mãos do Jim Jarmusch.

Diomedes (Já viu aquele teaser? Parece que ia rolar uma série, mas não foi pra frente. Uma pena)

Eu vi, cara!! Uma obra-prima!! Não sei o que aconteceu. Vai ver o Diomedes descobriu algo sujo por trás da grande cortina. Agora me diga: uma quadrinista foda e porquê?

A Cristina Eiko. Além de adorar seu trabalho, é uma pessoa que me influenciou muito a fazer hq.

Vou burlar a regra e citar mais uma: A Ana Luiza Koehler, que tem um  traço e narrativa absurdos.

 Entre uma leitura e outra, finais abertos ou histórias fechadas??

Tanto faz.

Perguntinha idiota, né? Não a perguntarei mais. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo  debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

É legal né? O que você acha que ela disse?

Vem cá. (Deisy sussura no ouvido do Guilherme que fica vermelhinho da Silva)

No… no Hermínia tem um diálogo em que o personagem, em meio a um diálogo, repete o que o Charlie Brown acabou de dizer na televisão, (risos). Queria ter feito isso.

Eu também.

Também tem a cena das baleias, no Ardalén. Lembro e sinto um nó na garganta.

Agora é a hora da PERGUNTA INDECENTE! Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Estou entre o Hellboy e o Pequeno Nemo. Meio extremo né?

Imagine que você está na pele desse personagem e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Se fosse o Hellboy, acenderia um charuto e esperaria.

Se fosse o Pequeno Nemo, cairia da cama e ficaria tudo bem.

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Você acha seguro publicar? Eu adoro seu blog, não quero que tirem do ar.

Não se preocupe, não temos audiência. Ninguém vai ler isso.

Bom, segundo meu psiquiatra o episódio não passa de um surto de fuga da realidade, com doses de Síndrome de Estocolmo e um pouquinho de falcatrua. É óbvio que ele não acredita. Na verdade não confio nele, mas sou obrigado a comparecer uma vez por semana, é uma norma da condicional. Para mim foi incrível, tive muito trabalho para conseguir contato. Algumas leis foram quebradas, algumas pessoas feridas, mas em prol de um bem maior. Eu poderia descrever o encontro com detalhes, porém como você sabe, a mensagem só é inteligível para nós, que atravessamos os limites da realidade.

É triste, pois todas as provas foram destruídas. 14 horas de filmagem e 347 fotos que comprovariam a experiência totalmente incinerados pela CIA. Felizmente alguns companheiros foram mais sortudos, provas realmente concretas foram vinculadas na mídia. Quem aí não assistiu o vídeo do E.T Bilu? As pessoas ridicularizam pois são limitadas, não entendem. A ironia é o triunfo do tolo.

Busquem conhecimento.

Antes que Deisy pudesse colocar seu queixo no lugar e como de costume, convida-lo para a sobremesa, homens de preto invadem a cafeteria. Não temos mais qualquer registro do que aconteceu ali durante as duas horas seguintes. 

petreca

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