Pedro Cobiaco

As Aventuras na Ilha do Tesouro (Editora Mino), Hermatã (Editora Mino)…

 

Quer pedir um café? Suco?

Um toddynho, duplo e sem gelo – caubóói.

Hmm, que másculo! Moço, vê um café puro pra mim e um toddynho pro meu amigo caubói aqui. Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Pedrinho, tudo bem?

Todo baynnn.

Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos?

Olha, um monte de coisa: meu pai, Akira, os malditos trapezistas de estrada, livros do Scott McCloud (deu nome e rosto pras possibilidades!), cheirinho de papel, vontade de um dia pegar um livro que fosse meu na mão, necessidade profunda (e analisável numa terapia) de encantar as pessoas, fazer com que, caso necessário, perdoassem meus crymes pela magnificência das minhas histórias (tou mais perto de virar criminoso do que de fazer as histórias que prestam mas vamosquevamos), Asterios Polyp, e, claro, comecei porque parecia o melhor jeito de aprender a usar régua (ainda não consegui, como bem sabe meu amigo Jopa – o dia que fizer um traço reto e certo, paro tudo e vou-me embora).

E vai morar lá em casa? Sorry, querido. Essa não colou. E o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Hmmm. Gosto de histórias sobre pessoas desreguladas, contadas de maneiras milimetricamente precisas. Gosto de autores e autoras impiedosos, que não se perdoam facilmente – que precisam ir bem longe com as ideias antes de se sentirem redimidos. Como diria meu amigo Célio, gosto de histórias que tem GUUTSS.

Hein?

Gosto de ler e olhar histórias feitas por quem entende as ferramentas que tem – coisas dos mestres/das mestras, gente que já domou as bases do próprio ofício e que agora lida com dificuldades inalcançáveis para nós, mortais. É um prazer né, ver um desenho da Laerte, ficar destrinchando as perspectivas do Chris Ware… Mas, também gosto dos mestres e mestras que parecem ficar cada vez mais perdidos sobre as ferramentas que usam. Gosto de histórias cheias de espaços vazios, quando os poucos espaços preenchidos são o suficiente para deixar interessante o nada ao redor. Gosto de histórias que se fingem de bobas mas são profundas, histórias que tem personalidade. E gosto de histórias que sejam ou soem descompromissadas, porque elas me fazem ver um mundo que não conheço – o dos não obcecados. Também adoro histórias onde você claramente vê que quem criou aquilo estava apaixonado pelos personagens. É meio creepy, muito bonito, e totalmente excitante. E, acima de tudo, amo coisas ambiciosas e esforçadas pra caralho. Gente ambiciosa é gente saudável.

Pois então me diga, doutor saudável, o que é mais broxante? (risos)

Quadrinhos feitos por quem não ama os quadrinhos. Só me interesso pelos autores e autoras que queiram CASAR com os quadrinhos, como fez Simon Hanselmann – https://www.youtube.com/watch?v=oIRUJ6-Frpg

Pedi a mão dele em casamento uma vez. Sabe o que ele me disse? (sussurrando no ouvido de Pedro) Depois você me diz o que eu devo fazer. Agora quero saber de você o seguinte: uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

O Dobro de Cinco, do Mutarelli. Sempre me chateia pra caralho saber que esse filme não rolou.

O mundo inteiro quer ver o Dobro de Cinco! (clamando aos quatro ventos) Fox, HBO, quem quer que seja, filme isso de uma vez por todas!! (para o Pedro) Uma quadrinista foda e porquê?

Rumiko Takahashi! Porque ninguém mais consegue criar aquelas composições lindas de página, com elementos sobrepostos se atravessando, indo daqui pra lá e coexistindo em todos os tempos, todos os quadros, sem atrapalhar a leitura! Porra, é lindo. Sem contar as histórias, que fundem duzentas emoções diferentes, até mesmo drama forte, sem nunca ficar chato, piegas. Sempre muito divertido, até quando cafona. E que desenho perfeito, cara, todo redondinho, todo palpável e bem resolvido.

Uma época da minha vida eu passei a usar os mesmos óculos que ela, achando que isso surtiria algum efeito em mim… Bem, entre uma leitura e outra, idolatrar a dúvida ou elogiar a certeza?

Idolatrar a dúvida, ficar puto com a dúvida, sair na porrada com a dúvida. Mas só porque ela é quem importa. As certezas pra mim são raras, vejo elas entrando às vezes e só fico quietinho, de boa, não aviso nada, porque sei que as coitadas vão durar pouco, kakaka, melhor aproveitar enquanto dura.

Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo  debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Essa cena é lindíssima! Adoro o Gosto do Cloro. Hm, meu primeiro pensamento é a cena do meteoro no Asterios Polyp. Ou então a da bolha no pé, a da casinha na árvore. Mas tem muitas, cara. A do Batman no Piratas do Tietê é uma que não esqueço nunca.

Essa lascou toda uma geração. (risos)

Tem também tantas de mangás que eu amo e que ficaram gravadas em mim – de Akira, Slam Dunk… até Naruto! HAHAH. Mas se for pra escolher uma, vou ser previsível – escolho uma do Corto Maltese. Do livro Mu. É um diálogo que ele tem com os Moais da Ilha de Páscoa (mais especificamente os de Ahu Akivi, que são os sete moais que ficam virados pro mar). Os Moais contam a história deles, sobre como as estrelas desceram e destruíram tudo que os cercava. Desde então, eles vivem ali, pensando e olhando pras estrelas. O Corto então diz alguma coisa do tipo “Isso é muito bonito, mas é uma Fábula. Vocês são uma belíssima fábula, mas uma fábula” algo assim (um típico comentário do Corto, pé no chão e cínico mesmo numa trip mágica de cogumelo). Aí um Moai, de frente pra ele, diz “Fábulas, você diz… mas mesmo que fossemos…”, então tem um quadro de pausa e ele conclui “Olhamos as estrelas”. Quase chorei a primeira vez que li isso. Pra mim resume tudo o que o Pratt trata na obra dele, principalmente ali pros últimos livros, e é o tipo de pensamento que pode ser uma porta de entrada pra uma maneira diferente de enxergar a vida. Essa cena eu não vou esquecer nunca.

Alcança o guardanapo pra mim. Acho que entrou um cisco no meu olho… (Pedro passa o guardanapo) Obrigada. (suspirando) Pronto! Saiu. Agora é a hora da pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Olhaí, vou me repetir. Cara, sem dúvidas, Corto Maltese. Digo, isso é quem eu QUERIA ser. Ou então, talvez, a menina que protagoniza Children of the Sea. Ou então a Nausicaa. Queria MUITO ser a Nausicaa. Mas quem eu realmente seria? Hm… Sei lá, provavelmente algum neurótico extravagante em algum quadrinho sobre gente ordinária. Com sorte, pelo menos um quadrinho desenhado por alguém incrível, kakaka. Ok, vai: eu acabaria sendo o Batman. Certamente seria o Batman. Não é que eu queria, deus me livre. Mas acabou que é assim. Você não acha que eu tenho um perfil assim, de Batman?

 

Você é o Batman pra mim. Sério! Alto, soturno, com esse chapéu de caubói, estudando todos os movimentos ao redor. Isso é muito Batman. Eu poderia ser o Robin. Assim, sem segundas intenções. Tá. Imagine que você está na pele do Batman e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Nossa, Bruce Wayne é RICAÇOO. (Deisy se mija de dar risada) Certamente pegar um troco sinistro e zarpar pro Havaí com várias galeras. Isso dava um arco no Batman, hein. Uma fase que ele se descobre como um cara paz e amor, fumando um e bebendo drinks nas cachoeiras havaianas. A galera ia curtir. Tem alguém da DC lendo? Vamos negociar essa ideia.

ALOHA, BATMAN! Está registrado! DC, você já sabe: Pedro Cobiaco para a próxima graphic novel do morcego. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais, querido. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Não lembro de muita coisa – só de um monte de cores cafonas e uns traços soltos. Até hoje tento reproduzir isso no meu trabalho… No final só fiquei triste porque Scully e Mulder não apareceram. Na gringa deve ser mais chique, vou casar com o Mark Manson.

Acho que você estaria melhor com o Charles. Obrigada pela entrevista, querido. Aceita uma sobremesa? Pedro? Ei. Tudo bem? (estalando os dedos sobre os olhos de Pedro que parece estar em um estado de transe profundo). Só me faltava essa! PEDRO! (chacoalhando-o)

Está tudo bem por aqui? (pergunta, o garçom)

Ele ficou tempo demais naquela Ilha do Tesouro. Isso mexeu com ele..cobiaco

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