Mariana Waechter

Medeia (Independente), É Favor Manter a Calma (Projeto Bill)…

 

Quer pedir um café? Suco?

Prefiro chá mate com leite e chocolate.

Nossa, que combinação! Moço, traz um chá mate com leite e um café pra mim, por favor. Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Vai fundo.

Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos? 

Bom, sempre gostei de desenhar. E também de escrever diários, fazer desenhos nas margens dos papéis enquanto falava ao telefone, anotar sonhos, ler quadrinhos, pintar camisetas pra ter uma grana na adolescência, fazer pequenas charges pessoais e despretensiosas do cotidiano, ler e contar histórias. Enfim, pareceu um caminho natural depois de ver ilustração como praticamente única perspectiva profissional quando não entrei na faculdade pública na época em que todos estavam nessa “transição natural”, saindo do ensino médio. (o café e o chá são servidos) Logo tive uma filha, também, o que teve um belo impacto.

Impacto de beleza. A Íris é linda.

Sim! Uma gracinha libriana. A dinâmica da criação em casa foi bem aproveitada – ela dormia, eu desenhava e o Luiz (Luiz Falcão, companheiro) me dava todo o suporte e incentivo. Fui conhecendo o trabalho de mais gente, exercitando histórias curtas, ministrando oficinas de quadrinhos, intensificando o interesse, até o ponto sem retorno. Ou ao menos acredito nisso agora.

O caminho sem volta. Sabe que eu gosto disso. De ir até o final, custe o que custar. Acho que isso é a grande doutrina da arte, já dizia Van Gogh. E o que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. Vou até pedir um pão de queijo. Você quer? 

Acho incrível quando a narrativa provoca aquela imersão empolgante e você começa a engolir os quadros e virar as páginas vorazmente. Demonstra um puta domínio da linguagem.

Total! E o que é mais broxante?

Hm, quadrinhos com pinto, buceta, vômito, cocô e outras fixações escatológicas ou herdadas da fase anal gratuitas, (Deisy ri) sem contexto, só pela “contravenção” ou “rebeldia bem humorada” – me dão uma preguiça grande.

“Herdadas da fase anal…” Vou roubar essa pra mim. Também não aguento isso, Má. Soa infantil.

Pois é. Ganham até da potência a chatice dos super-heróis. E também os textões em quadrinhos, outra característica um pouco desestimulante se não bem empregada na cadência da narrativa.

É um porre! Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Qual dos Rafas?

O Coutinho.

Ah sim! São tantos. Campos, Sica… Acho que os quadrinhos são meio que o primo eremita, individualista e sem investimento do cinema. Mas, como estava conversando com o Luiz dia desses, fazer essa comparação seria como dizer que literatura é o primo pobre do teatro, não faria muito sentido – cada linguagem carrega sua potência. É claro que o mercado dos quadrinhos podia nos dar a mais ínfima possibilidade em pensar nisso como uma carreira profissional, mas acredito que ninguém está pagando aluguel ainda publicando no tumblr. Mas, de adaptações… acho que seria louco ver o Incal! Certamente seria melhor do que o pretenso Duna do Jodorowsky teria sido (e já teria sido melhor que o do Lynch).

Pareceu pretensioso, foi? Ainda não assisti ao documentário. Tanta gente me falando sobre. Mas concordo com você, Incal seria algo de encher os olhos no cinema! Uma quadrinista foda e porquê?

Bechdel. Porque é foda. Ela sabe organizar as memórias, análises e reflexões em um encadeamento narrativo instigante. E o processo de auto-conhecimento criativo dela ricocheteia em quem lê. Acho lindo.

Bechdel já tem uma cadeira cativa aqui. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Não li ainda. (Deisy solta uma interjeição) A primeira coisa que me vem à cabeça – e isso vez ou outra vem na minha cabeça sem muito motivo – é aquele diálogo entre Morte e Sonho, quando ele tá alimentando os pombos meio deprimido e ela brinca: “You do that too much, you know what you get? FAT PIGEONS!”. Célebre.

Hahahah, demais! Pois muito bem, Mariana, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse uma personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

O Dr. Manhattan – por motivos óbvios.

Ui. Imagine que você está na pele do Dr. Manhattan e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

QUALQUER COISA QUE EU QUISER. Gata, eu sou o poder. (Deisy chora de rir) Ou ir pacificamente fazer um castelo de vidro em Marte vasculhando recordações mesmo, pra deixar a poeira baixar.

Que lindo isso… Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera. Como foi para você ser abduzida? 

Depois do clarão, perdi nove minutos, mas não senti nada. Só o Mulder viu tudo.

Sempre ele… Obrigada pela entrevista, amore. Aceita uma sobremesa?

Mais açúcar do que tem nesse mate, não precisa, obrigada!

 

mariana

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