Fernanda Nia

Como eu realmente… (Editora Nemo)

 

Quer pedir um café? Suco?

​Eu aceito um Iced Tea de pêssego, se tiver.​

Menina, isso aqui é quase tão bom quanto a Feira de Caruaru, tem de tudo e mais um pouco. Moço, vê um Iced Tea de… pêssego? (Fernanda responde que sim) De pêssego para minha amiga aqui e eu quero um mocaccino. Obrigada. Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?
A maioria das perguntas não são necessárias, mas sempre as fazemos mesmo assim.​

É o elogio ao desnecessário. Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos? 

​Não sei ao certo. Deve ter sido algum acidente no Destino. A vida foi indo, e quando dei por mim eu já estava lá, postando tirinhas na internet.​
​Parece que elas sempre estiveram dentro de mim, e uma hora foi inevitável que começassem a escapar pro mundo. ​Coitado dele, hahaha.

Nia, você não sabe o quanto ele agradece. (os lábios de Deisy parecem mais molhados ao dizer isso) O que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

​As melhores pra mim são as que contam a história pelas entrelinhas. As que te fazem ler além das letras ou da imagem óbvia. Esse tipo de narrativa em um quadrinho é a que mais me fascina.​

E o que é mais broxante?

​Uma arte ruim é algo bem desanimador. E por “ruim” não quero dizer especificamente de uma estética que não me agrada – alguns quadrinhos conseguem resultados sensacionais mesmo com traços simples, quando casa com a sua proposta. Mas nem sempre dá certo. Às vezes pego um quadrinho com uma arte que simplesmente não me desce e cuja história não parece compensar. Dá até pra ser legal mesmo, mas as chances de eu largar o material antes de perceber isso são grandes demais.​

Entendo perfeitamente. Acho que tudo tem que funcionar bem. Não dá pra fazer uma em detrimento da outra. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

​Primeiro, deixa eu apoiar o Rafa nisso. Cada tipo de ferramenta para contar uma história gera uma experiência completamente diferente para o seu leitor ou telespectador. Um quadrinho impresso, cujas páginas você pode gastar minutos e minutos parado no mesmo quadro, examinando cada detalhe, conta uma história de uma forma completamente diferente da de​ um filme, cujo tempo segue o do diretor, por exemplo.​
​Um não é pior do que o outro. São só diferentes. Quanto à sugestão. Essa é difícil, hein? São tantos títulos que eu queria ver em filme também! Mas vou sugerir um que li recentemente. Rat Queens.

Rat Queens?? Fuçando já! (dando uma leve sondada no google enquanto Fernanda continua)

Tem bastante ação e acho que ficaria bem na linguagem em movimento do cinema.​

Não conhecia. Parece bemmm bom. Vou marcar aqui para ver depois. Uma quadrinista foda e porquê? 

Sou fã entusiasmada da Allie Brosh.

Meu deus, Allie, como não?! Ela é phoda com ph.

Autora de Hyperbole and a Half.

Sim! Foi meu livro de cabeceira por um tempo. Mas continue, por que a Allie?

Seus quadrinhos são misturas de imagens com blocos de texto na narrativa, em geral, então é um quadrinho meio híbrido e diferente. Mas a forma como ela conta suas histórias é absolutamente fascinante pra mim. Ela consegue pegar qualquer situação da vida, mesmo quando fala de temas como depressão e autoestima, e transformar em algo belo, importante, engraçado e digno da nossa atenção, até qualquer um se identificar.

Isso é o foda nela. A maneira como ela cria essa identificação. Bem, não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

​Inúmeras, mas é difícil lembrar de uma assim, na ponta da língua. Vou citar uma que gostei muito quando li no ano passado, no quadrinho Quando Tudo Começou, por Lu Caffagi e Bruna Vieira. A cena em que a personagem toma banho e o chuveiro vai enchendo de água conforme ela se enche de dúvidas sobre si mesma foi quase uma poesia visual pra mim.​

 Perfeito! Vou te fazer uma pergunta indecente agora. Posso? (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse uma personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

​Hahahahah, bom, eu mesmo que já sou a Niazinha, de certa forma, do meu próprio trabalho. Mas se tivesse que escolher alguém de fora dele… Puts, aí fica difícil. Minha vida é parada demais pra ser uma heroína clássica das histórias. Acho que vou ter que ficar com a Magali. Pelo menos o nosso gosto por comida boa é bastante parecido até hoje.​

Comer sem sentir culpa e não engordar uma vírgula sequer. Sonho. Ultimamente estou cagando pras vírgulas. (risos) De todos personagens do Maurício, eu também seria a Magali fácil, fácil. Tá, talvez alguns dias eu desse umas voltas como a Tina porque, né? É a Tina! Se bem que eu ia preferir casar com a Tina. Ela é tão… (percebendo que a conversa está ficando estranha, retoma a entrevista) Deixemos a Tina em paz, não é mesmo? Imagine que você está na pele da Magali e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

​Se eu fosse ela mesmo, eu comeria um banquete pra compensar a angústia, hahahahah.​

(Risos estratosféricos de Deisy) Bota angústia nisso! (mais risos) Ai, ai… Última pergunta, Nia, e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto, gata. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera. Como foi para você ser abduzida? 

​Nunca fui abduzida. (aproximando-se sobre a mesa) Eu estava apenas voltando pra casa.​

Deisy gela do fio de cabelo ao esmalte da unha encravada do dedão do pé. Completamente atônita, não sabe o que dizer ou fazer. Fernanda tenta reanima-la. O garçom procura ajudar, trazendo um copo d´água com açúcar como se a garapa fosse resolver alguma coisa. Não, nunca ninguém havia visto Deisy Mantovani naquele estado. Talvez um vez, sim, no estacionamento. Uma situação realmente constrangedora. Deisy baba toda a garapa. Pelo visto a entrevista está encerrada infelizmente antes da pergunta principal: “Aceita uma sobremesa?” Ao qual Fernanda, de boca cheia, responderia: “Ainda tá pra chegar o dia em que vou negar sobremesa. Manda a ver!” O que me deixa pensando, realmente deve existir uma Magali dentro dela.

Cerveja. (alguém no bar, sugere). Ela só funciona com cerveja. Antes que qualquer pergunta seja feita, o garçom traz um chope derramando espuma.

O resto todos nós sabemos.

fernanda-nia

 

 

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3 comentários sobre “Fernanda Nia

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