Felipe Nunes

Dodô (Independente), Klaus (Balão Editorial)

 

Quer pedir um café? Suco?

Putz, quero um café. Médio. Sem açúcar. Desses que no primeiro gole a gente quase morre e na terceira xícara tem vontade de morrer, hahahaha.

Só bebo desses! (risos) Moço, vê dois cafés PUROS pra gente.  Obrigada. Lipe, vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Olha, não me responsabilizo. Sou treteiro de nascença, às vezes até sem querer. Malditos arianos. Maldito horóscopo. Mas vá em frente!

Hmmm, ariano então… Isso explica muito! Então me diga, Sr. Ariano, que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos? 

Cara, desde moleque (ainda sou, eu sei) minha mãe sempre me estimulou muito a desenhar. Ela é professora de artes e acabava sendo um contato direto pra caramba com livros de pintura, quadrinhos, livro ilustrado. Achava o máximo. Depois de velho, percebi que existia uma conspiração cósmica pra fazer quadrinhos. Meu pai se chama Laerte, meu tio mais velho fez veterinária com o Fernando Gonsales na USP e o pai do Angeli era funileiro, assim como meu pai. Ok, forcei a barra. (Deisy ri fortuitamente) Vou dizer que o Nunes do futuro apareceu pra mim no parque de diversões quando tava na pré-escola e me obrigou. Desde então esse é meu fardo.

Se o encontrar de novo, fala pra esse Nunes do futuro mandar nudes (risada sardônica) e agradeça a violência por mim. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade, meu rapaz (dando um tapa cordial no ombro de Nunes).

Cara, eu fico absurdamente envolvido com narrativa de um modo geral. A sequência. Sou muito preocupado com a sequência convencional, em um quadro inteirar o outro, uma cena que não deixa buraco, uma diagramação e a virada de página que favoreço. Mesmo assim, meu trabalho ainda tem uma estrutura mais convencional. Sempre que vejo uns caras que quebram totalmente o ritmo, seja pra lados diferentes (Mike Mignola de um, Christophe Blain de outro) eu costumo amar caras que adicionam algo a mais, como uma experiência sensorial. A construção do clímax e o modo que se coloca emoção na história. É o que me deixa realmente desnorteado.

É o mesmo pra mim, “cara”. E é disso que se trata, não é? Sequência. E o que é mais broxante?

Puxa, nada me broxa.

WOW, quanta virilidade, meu filho! Muito Biotônico Fontoura na infância? (risos)

Tem coisa que me broxa de um jeito bom, como não conseguir desenhar uma cena, uma perspectiva, um ângulo. Me deixa com vontade de largar tudo, de morrer. Mas é isso: passa na primeira olhada num Munoz, num Toppi, uma edição do Hellboy ou páginas soltas de um Blutch. Esses deuses sagrados que fazem a gente se movimentar pelo oceano da ignorância humana.

Um vasto oceano por sinal. (o segundo café é servido) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Cara, gostaria bastante de ver o Castelo de Areia, do Pierre Oscar Levy e do Frederik Peeters, num cinema. Talvez reestruturado, mas é o tipo de filme que acontece o tempo todo no mesmo lugar, sem recurso nenhum, quase como uma peça de teatro. Ia ser um sci-fi foda pra caramba. Baita gibi (tô falando de bobo e já deve ter filme rolando por aí)

Será? Não vi nada a respeito. É uma obra interessante mesmo. Tem uma quê de Anjo Exterminador do Buñuel. Já viu esse? 

Não vi esse, não, cara. Vi pouquíssima coisa do Buñuel e me culpo muito.

Acontece, meu filho. Como diria Clark: para o alto e avante. Uma quadrinista foda e porquê?

Alison Bechdel, sem dúvida. Ler o Funhome me desestruturou por uns dias e dialoga demais com a temática que tento explorar (família). Acabei me identificando em pontos demais e ela tem um trabalho minuciosamente ridículo de tão bem contado. Consegue dar sentimento e profundidade na sequência mais simples possível e manipular tuas emoções a favor ou contra dos personagens. E é tudo baseado na história dela mesma!!! Aula de auto biografia. Na cara de todo mundo. Girl power, porra!

GIRL POWER, porra! (Deisy percebe que o café sem açúcar está fazendo efeito, mas não diz nada sobre isso) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Cara, eu amo o Gosto do Cloro. Talvez tenha sido uma influência gigante pra entrar nessa onda do quadrinho francês que não me ligava muito e principalmente em como construir histórias abertas. Meus dois livros, tanto Dodô quanto Klaus, tem finais abertos e acho que esse recurso é pouquíssimo explorado em quadrinhos. O leitor se envolve e tem tanta propriedade quanto você, autor, pra tomar decisões sobre o rumo da história a partir de determinado momento. O modo como ele manipula essa construção da relação deles, a ilusão, é foda. Bem foda. Não consigo me lembrar de uma cena específica, se tu lembrar de mais algumas me avise! Vamos inventar uns finais também!

Sou suspeita pra falar. Amo finais abertos. É um vício enquanto leitora de especular o que vem a seguir. Deve ser assim com você também, não é, Lipe, como leitor? Mas vejo que é algo difícil de se convencer. A maioria quer um desfecho. De pontas soltas basta a vida. Acho que exige uma certa maturidade permitir-se finais abertos. Às vezes me pego perguntando: o que será que aconteceu com a Enid? Do Ghost World.

Não lembro do final do Ghost World. Ela não sai da cidade, né?

Não… (pausa) que eu me lembre(Felipe ri desavergonhadamente) Por algum motivo pousa um sentimento de tristeza em mim. Acho que eu preciso de mais um café. Moço! (ela apenas aponta para a xícara e o garçom entende o pedido. Nunes também se pronuncia) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso, Mr. Virilidade? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Hahahahaha, tranquilo. Cara, não sei. Adoro o Calvin (deve ser o favorito de todo mundo) e por ser filho único, sempre tive aquela vibe dele, inventando mil amigos imaginários de um só dia, milhões de histórias de quinze minutos. Era menos pirraçeira. Menos louco. Mais contido. Aleluia, né?

E como! Você já viu aquela animação que fizeram do Calvin do Robot Chicken? Meu, é muito foda. (risos) Quem daria um bom Hobbes pra você? Agora tente imaginar que você está na pele do Calvin e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Eu com certeza sairia de casa e assaltaria uma farmácia. Vestido de Haroldo. Com uma bengala. Completamente insano. Desmontando todas as prateleiras e vivendo um último dia de ludismo. Ou o primeiro dia. BOOM!

HAHAHHA, se eu fosse o Calvin, faria exatamente o mesmo! Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais, meu santinho. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Tenho um nódulo nas costas até hoje.

Sério?! Deixa eu ver? (ela não se contém e pula sobre as costas de Nunes, levantando sua camisa)

Minha mãe me fez ir ao dermatologista e todo aquele questionário…

Dói? (cutucando o estranho nódulo que afunda enquanto aperta) Desculpa. Interrompi você (sem tirar os olhos do nódulo).

Felipe continua aos goles de café como se já houvesse superado sua experiência por completo.

Todo aquele sim, não, sim, não, sim, foi encenado com uma destreza que só pode ter sido herdada dos astros.Velhos amigos como marinheiros de um oceano turbulento que, assim como uma onda, me engoliram, mexeram minhas entranhas e cuspiram de volta pra esse mundo horrendo.

A essa altura, Deisy estava com o palito de dentes tentando vazar o nódulo. Ela consegue. Uma excreção verde fosforescente e incrivelmente fedida escorre pelas costas do quadrinista. O fedor empesta o local com algo alcalino como pilhas estragadas. Um odor tão forte capaz de sufocar. Instintivamente, todos os clientes e funcionários correm para fora. Inclusive Nunes.

Ninguém o viu desde então. 

felipe-nunes

 

 

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7 comentários sobre “Felipe Nunes

  1. Meu neto é um gênio, ainda bem que contribuí com uns poucos genes e posso me sentir orgulhoso disso. (Já estou reencarnado nas próximas gerações)

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