Alcimar Frazão

Me & Devil (Bimbo Groovy), Cazuza por ele mesmo… (Sesc Editora)

 

Quer pedir um café? Suco?
Vou pedir algo só pra beliscar, se não se importa. Sempre trago comigo minha erva mate e minha cuia. Bom pra acordar e bom pra dormir.

Nem um pouco, capitão. Mas o que você quer comer?
Uns biscoitos. Algo assim (tira da mochila uma pequena bolsa térmica).

Eles tem uns cookies ótimos! (ao garçom) Moço, traz uma porção daqueles cookies pra gente? Com aquela generosidade, tá? Não vem com merrequinha, não, por favor. 
(Oferece a cuia) Está servida?

(com os olhos brilhando) Nossa, Alcimar, faz ANOS que eu não bebo um chimarrão. Simbora! O que você vai querer beliscar? Nem me olhe assim que eu não estou disponível, seu safadinho. Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?
Fique à vontade. Mas preciso te alertar que eu falo como um velho num asilo. Só preciso de ouvidos que queriam escutar meu papo e daí vai…

Então vai ser bom de mais da conta! Vamos lá, que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos? 
Pois é, menina, essa é a pergunta de um milhão, né?

Hahahah, antes fosse! Só posso te pagar o (pedido) mesmo e torcer para que a editora reembolse depois.
Diz o folclore familiar que aprendi a falar desenhando (a bem da verdade como toda criança, né?). (Deisy consente) Meu irmão desenhava muito quando eu era moleque e isso me empurrou pra lá, de certa forma. Mais ou menos na mesma época meu pai me deu a minha primeira hq e daí não parei mais.

Você se lembra qual foi?
Estou quase certo que era algo do Batman…Na adolescência conheci um grande amigo que desenhava, e também era muito ligado em quadrinhos. Aquilo foi onde a coisa começou. Nós queríamos fazer quadrinhos, entende? Queríamos contar histórias. Super-herói, futuro distópico, invasão alienígena, a porra clichê toda. Daí a vida aconteceu. Quase prestei vestibular pra jornalismo, mas mudei de opção em cima da hora pra artes visuais. Naquele momento eu já estava decidido a fazer quadrinhos. Entrei numa faculdade de artes visuais, bastante focada em arte contemporânea, para fazer quadrinhos. Era um proscrito. Há quem diga que funcionou. Eu ainda prefiro guardar minhas ressalvas.

Funcionou e bem demais, rapaz. E a propósito, isso aqui tá bom demais da conta. (sobre o chimarrão) O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.
Olha! Que coisa difícil… Eu gosto de coisas bem arquitetadas. Gosto de ver que o artista está olhando pro “Universo das Histórias” e pensando “ok, já entendi o seu jogo. Vamos brincar um pouco”. Isso não é muito comum.

Não mesmo.
Mas é uma questão de olhar por aí. Tenho um interesse especial em histórias que especulam sobre o drama da existência, mas que falam disso de um jeito inteligente, duro, leve, bem humorado ou fantástico. Tem de ser inteligente, não aquela bobagem emo que anda bastante em voga… (desponta um sorriso sarcástico em Deisy) To aqui pensando… difícil apontar questões estruturais que me interessem especialmente. Eu respeito muito a sintaxe da linguagem e gosto de trabalhos que lidam com isso de forma consciente, que entendem os tempos de cena, o papel de cada elemento, calha, página, texto, composição… isso me dá tesão. É uma arte bem matreira essa.

É, nada como ver a coisa toda funcionando. E o que é mais broxante?
Preguiça intelectual é uma coisa que me broxa… Artista não pode ser ingênuo, não pode ser chorão e nem ficar fazendo história de chorão (que é bem diferente de histórias mais sensíveis). Desculpe, não pode.

Não peça desculpas que eu também detesto isso. Me incomoda de uma maneira negativa.
Tem que saber onde bota o pé, tem que saber onde quer chegar. Tem que usar os elementos a seu favor. Nada é aleatório. Tu pega um quadrinho pra ler e daí vê o cara perdido, dando truque. Reinventando a roda… me cansa essa coisa de ninguém mais fazer calha, sabe? Hahaha. Tudo é motivo pra um quadro invadir o outro! Fode a leitura sem motivo nenhum. (Deisy quase deixa escapar um “xiiii”. Pensa em dizer algo, mas contem-se por motivos óbvios) Daí você vê cidadão premiado no HQMix como melhor álbum, melhor desenhista, melhor roteiro, melhor o cacete, que não pensa a linguagem como tal, nos seus elementos, sabe? Que só quer contar aquela história ali, mas não sabe usar o ferramental, daí fica patinando, patinando…E tem muito isso. Isso me cansa forte. Quadrinhos é uma linguagem bastante complexa na verdade… É uma ideia de estar pronto, saca? Daí fica tudo igual. Na real o que me broxa mesmo é o quadrinho igual. Tu olha lá e já saca de onde veio aquilo tudo.

Tava conversando com o Luciano Salles ontem mesmo sobre isso. Essa patinação toda (uma luz de algum ponto inferior atinge seu rosto, criando uma atmosfera satânica) TEM QUE ACABAR! (a luz volta ao normal aos poucos porque ela não se aguenta e cai na risada). Ai, gente, cada um faz o que bem entender. Só não me convide pro chá das cinco que eu não vou. Prefiro ficar aqui com o chimarrão do meu amigo. E que chimarrão, hein? (estapeando a coxa do Frazão que tem um sobressalto)  Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.
O Rafa Coutinho?

Hm-hum.
Olha só, eu acho que os quadrinhos e o cinema são irmãos, separados no nascimento. Eles tem uma boa relação, mas vivem mundos diferentes. São linguagens diferentes mesmo. O quadrinho não é o cinema pobre. Quadrinho é quadrinho. Tem coisa que só dá pra fazer em quadrinhos. Pode morrer tentando, não vai mudar nada. Não cabe na tela. Tipo, no quadrinho, a página em si já é um elemento colocado na cara do leitor. Do ponto de vista da história que está sendo contada em que outra linguagem você  tem, ao mesmo tempo, todos os tempos consolidados ali, num único elemento? Uma página sintetiza tudo e o leitor vê tudo ao mesmo tempo, ainda que ele leia na sequência certinha. Cada página entrega pra ele aquele conjunto de elementos temporais. O cinema, por outro lado, tem a coisa do tempo esculpido, o diretor te obriga a olhar pra cena quanto tempo ele quer que tu olhe, e isso é foda! Isso é algo que eu quero muito roubar do cinema… no meu trampo eu sempre tento fazer isso. Tento… Mas eu falo demais e fugi da pergunta.

Pode fugir, querido. Se quiser fugir comigo pra Acapulco também, não acharei nada ruim. Mas, sério, você pegou num ponto interessante. Existe uma maneira de se conduzir o olhar de quem está lendo através da composição das páginas e dos próprios quadros. Gostaria de falar um pouco mais sobre isso? De que forma você tenta segurar a leitura?

Eu penso na construção da página como um todo, basicamente. Cada página é uma composição fechada, com os quadros relacionados. Dai eu penso em onde eu quero quero cara fique mais tempo. E em geral eu vou crescer aquela cena. Dar mais tempo pra ela
Fazer maior, dar mais destaque na composição geral. Tipo isso. Esse lance da composição da página é o centro pra mim, acho.

Pra mim também.
É ali que tá o Nô.

Meu samurai! Mas isso não te isenta da pergunta anterior. Gostaria de ver algum quadrinho nas telona?
Eu queria muito ver várias coisas… Mas de pronto assim digo três: O Don Juan, do Dalton Cara, e aquela viagem toda de diagramação narrativa que ele pensa. O Secret Story of the Foot Clan, do Mateus Santolouco, pras TMNT. Aquilo sim seria um puta filme das Tartarugas Ninjas! Além disso, seria genial ver a Trilogia do Acidente, do Mutarelli, no Cinema, mas com ele dirigindo.

Excelente! O Don Juan ainda não vi. Mea culpa. Está na lista, Dalton! Não me esconjure, por favor… O Mateus tem feito um trabalho realmente foda. E o Muta, seria interessante vê-lo na direção. Acho que acabou (o chimarrão). Quer que eu peça pro garçom esquentar uma água pra gente? Enquanto isso, diz aí uma quadrinista foda (fora a Brechdel que já está na boca do povo) e porquê?
Marjane Satrapi. Pra dizer uma muito foda. Acho a narrativa dela uma coisa simples e inteligentíssima e aquele desenho é impecável. Em geral tenho dificuldade com esse quadrinho histórico, quase jornalístico. Acho Maus, do Spielgman, uma HQ bastante regular, do ponto de vista da linguagem (o que não quer dizer que ela seja ruim, veja bem)

Não, eu entendo você.
Mas o Persépolis, tem umas sutilezas que me encantam e o Frango Com Ameixas é igualmente bom. Tenho visto umas outras coisas dela em francês mas é jogo duro pra ler… parece ser bom. Vamos torcer pra aparecer por aqui logo. Agora tenho olhado bastante pras coisas que estão sendo produzidas aqui. Temos uma boa leva de quadrinistas foda, com um trampo massa. Me amarro no trampo de cor da Chris Peter, acho a Mariana Waechter uma contadora de histórias como poucos. O desenho dela simplesmente flui. A história vai lá e acontece. Julia Bax é acima de crítica. Desenho lindo, narrativa linda. Fico ansioso pra ver cada coisa nova dela. É sem dúvida uma das maiores artistas em atividade hoje. Acabei de conhecer o trabalho da Bianca Pinheiro e achei bem legal. Conheci no FIQ e fui atrás do Bear. Gostei bem. Quero ver mais.

Essas meninas, viu? Como não amar? Não vamos deixar elas saberem disso, mas se pudesse, eu… (inclinando-se sobre o Frazão, sussurra algo em seu ouvido. Ele cora um pouco) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès… Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?
De pronto assim, penso na história do Spirit “Vida e morte de Gerhard Shnobble”. Spoiler alert. (luzes vermelhas são acionadas.) A história é conduzida magistralmente, fazendo o leitor perceber a trama do roubo que o Spirit está investigando e a vida do Gerhard, que sempre escondeu dos outros que sabia voar. Na sequência final o leitor acompanha a luta de Spirit com os bandidos e o Gerhard voando. Os desenhos, os textos e a composição da página fazem o leitor seguir a luta, ver os tiros, descer o olhar para o cadáver de Gerhard e subir para o topo da página novamente, para ver a alma do personagem, voando. Isso é o que eu falava. Domínio da linguagem! Inteligência.

Sim. Sim! SIM! (as luzes ganham uma tonalidade violeta) Ah. meu deus, vou te fazer uma pergunta indecente quer você queira ou não! Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem você seria?
Hahaha. Nessas eu sou bem bobo… Mas vamos lá: Eu queria ser o Ozymandias, do Watchmen. Aquilo é a radicalidade do conceito de super-herói.

Pois bem, Mister Radicalidade, imagine que você está na pele do Ozy e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?
Eu vou simplesmente consertar as coisas. É isso que o homem mais inteligente do mundo faz, não? Vou fazer um plano e consertar as coisas… talvez tenha um saldo a ser avaliado pelo caminho.

Nada como agir racionalmente. Às vezes fico me perguntando: razão, sua desgraçada, por que me abandonastes? Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?
Achei muito bom. Mas talvez você tenha se arrependido de minha tagarelice.

Ô, querido… (levantand0-se) Vem cá. Dá um abraço. (abraçando-o sentado, pelas costas) Eu adorei, cara. Obrigada pela entrevista, viu? Aceita uma sobremesa?
Vou passar. Obrigado pelo bom papo. Te cuida aí.

Posso te soltar agora? Mas quem disse que eu vou? Pssss… Calma. Fica quietinho. (Alcimar tem uma enorme interrogação na cara) Isso vai acabar logo. (lentamente, as luzes começam a se apagar) Pssss… Tudo bem… Tudo bem… Eu sei. Eu sei…

alcimar

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