Diego Sanchez

Pigmaleão (Independente), Perpetuum Mobile (Editora Mino), Hermínia (Editora Mino)

 

Quer pedir um café? Suco?
Suco…De laranja com morango, mas se o morando for de polpa pode ser só laranja.

O de laranja eles preparam na hora. Já o morango deve ser, viu. (ao garçom) Moço, o suco de vocês de morango é polpa?
Sim.

Tá, então só vê um suco natural de laranja. Dois, na verdade. Obrigada. (voltando-se para o Diego) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?
Tranquilo.

Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos?
Hummm… Eu curtia quadrinhos e tal e eu, tipo, sempre fiz meio que pra mim mesmo, mas daí eu comecei a fazer quadrinhos, tipo, meeesmo foi quando eu fiquei afim de uma menina que era quadrinista e tipo ela era FODA. Daí eu acho que eu queria chamar atenção dela e tal, hahaha… Aí quando eu fui ver já era tarde demais pra parar.
Hahhaha, e deu certo? Com a menina?
Hahahh, deu sim. Por um tempo pelo menos.

É, até que essa história de quadrinhos serve pra alguma coisa. E já que tocamos no assunto: o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.
Mentalmente acho que quando pessoa consegue encontrar o desenho certo e os recursos narrativos certos pra contar aquela história, sem que isso pareça um truque, sabe? Tipo Jimmy Corrigan, é um trabalho que se encontra todo em paleta, estilo de desenho, tempo da narrativa, pra contar uma história.

E fisicamente, bondage.

Sério?!

Não, brincadeira. Mas sério. Mas brincadeira. Mas falando em sexo, eu posso opinar numa coisa?

Tudo o que você quiser. (mordiscando os lábios ironicamente)
Eu acho que no quadrinho de maneira geral é um dos temas mais porcamente trabalhados, tipo, com exceção dos quadrinistas estritamente eróticos, parece que a galera tem uma preguiça forte.Tem exceções é claro, mas saca? É um momento tão narrativamente rico mas que em geral vira aquele – corta para os dois deitados de manhã.

É, cara, é algo broxante. Uma das coisas que gosto no seu trabalho é justamente isso. Você desenvolve essa cena e a faz da maneira mais natural possível. Fico até imaginando…
O quê?

Err… é melhor não imaginar nada. (levanta uma perna e depois a outra, puxando a saia para cima dos joelhos) Ainda no tema da brochada, o que é mais broxante pra você?
Posso escolher duas coisas?

Vá em frente.
Uma é quando você percebe que a pessoa se furta de tomar todas essas decisões tipo…Usar o formato de página padrão e um desenho que poderia servir a qualquer coisa e uma diagramação em que o peso dos quadros não tem nada a ver com o que eles contam, e uma paleta que só me diz que o telhado é vermelho e a grama é verde e o céu é azul… E não me entenda mal, é muito muito possível contar quadrinhos sem que nenhum desses elementos seja extravagante. O que me incomoda é quando parece que a pessoa não levou em consideração mesmo essas decisões.

A outra é quando eu não me sinto enganado por aquela história tipo…é uma historia de terror psicológico mas eu simplesmente não mergulho naquilo, eu leio como se estivesse lendo Turma da Mônica, (Deisy não segura o riso) aquilo não me incomoda , não me deixa com medo porque eu simplesmente tenho consciência o tempo inteiro que é uma história feita para me deixar com medo…

Você quer mais um suco? Vou pedir mais um suco pra gente. (ao garçom) Moço, repete a dose? Valeu! (de volta ao Diego, enquanto tenta tirar um palito de dente para nada) Cara, isso que você falou é muito foda. É auferir legitimidade a história. Dá pra sacar quando o autor quer colocar sua voz ali, na boca de uma personagem. Isso mata. Quem deve morrer é a autoria. A coisa vai muito melhor quando o autor, autora não existe. (consegue tirar o palito) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.
Ah, em vários aspectos são, sim, o primo pobre do cinema, vai, hahaha. Não tem muitos quadrinhos aí que custam milhões, ou lucram milhões e nós não temos tipo tapetes vermelhos e tipo ninguém leria revistas de fofocas sobre a vida dos quadrinistas …quer dizer, eu acompanharia… imagina? “Pedro Cobiaco é visto de novo alcoolizado e beijando uma moradora de rua.”

E ele tem dessas também, é?
SIM! Haahahahah, ele tem as melhores histórias.

Ah, meus vinte anos… Vou ter que conversar com ele novamente. Mas e sobre uma adaptação pro cineminha?
Curtiria ver o Beijo Adolescente -falando no Rafa.
É, seria algo incrível de ver. Não sei não se ele já não vendeu a cessão de direitos pro cinema, viu?  Uma quadrinista foda (fora a Brechdel que já está na boca do povo) e porquê?
Pode ser mais de uma? (ela consente) Eu ia dizer Kate Beaton que é foda mas é meio óbvio. Sei lá, acho que nessas perguntas é sempre legal mandar nomes mais desconhecidos e tal.

Concordo plenamente.
Tem duas quadrinistas que ainda não estão em foco, mas foram das coisas que mais me chamaram atenção. Uma é a Amanda Paschoal que produz basicamente zines, só. São, tipo, tiragens muito pequenas. Então de partida você já se sente parte de algo muito precioso. As histórias dela geralmente tem essa atmosfera estranha e parece falar sobre assuntos intangíveis. É tudo muito único e diferente e a sensação é de ler um daqueles sonhos estranhos e incompreensíveis que você tem quase certeza sobre o que é mas não arrisca dizer.

A outra é a Paula Puiupo. Os quadrinhos dela parece que vieram de outro universo e meio que atendem a regras próprias e ela não cai na armadilha de ser didática, então é sempre incrível você ir pouco a pouco, decifrando o que está acontecendo ali, que porra de universo acidado é aquele… E o desenho dela – que é daqueles que você quer roubar para você mesmo – dialoga com isso e é uouuu. (fazendo um gesto muito interessante)

Da Amanda eu vi pouca coisa. É um trabalho meio nervoso, né? Gosto quando o trabalho mostra os nervos. A Paula, confesso que desconhecia. Mas irei trabalhar nisso já! Enquanto isso, bora pra próxima: Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?
Pô, eu amo essa cena… cara eu não consigo pensar em algo assim tão marcante e especifico da linguagem de quadrinhos.Me vieram à cabeça as duas cenas de suicídio do Lucille e aqueles negócios de decifrar do umbigo sem fundo. Mas na real as cenas que me vem a cabeça imediatamente quando eu penso numa cena marcante são na real algo tão simples em termos de quadrinhos, mas tão, tão lindo e possante… aquela cena da tempestade do Estigmas e depois a cena dele em cima da tumba.

Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.
Wolverine, ou Capitão Hadock- eu sempre associo eles porque o mesmo cara dublava nos desenhos quando passava na tv.

Imagine que você está na pele dessa personagem e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?
Se eu fosse o Wolverine, eu ia pegar minha motoca e ir encontrar alguma gatinha e parecer não me importar com o futuro desesperador… (eu amava o Wolverine mais pela motoca e pelas gatinhas do que pelos poderes e tal.)

O Hugh Jacman ainda não chegou lá.

Se eu fosse o capitão Haddock eu ia lançar um enfático “com mil raios e trovões” … nossa… ia ser muito legal.

Hahaha. Tá certo… Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?
Cara, eu tenho uma pira REAL de que rolou um contato de terceiro grau que é tipo… eu tinha muita paralisia do sono… daí uma vez eu tava paralisado e apareceu essa criatura com uma cara tipo emoticon e ela dizia que, tipo, era um alien e que essa era a forma que ele se apresentava porque ele ocupava outro plano da realidade não material e que essa era a forma mais simples de eu ver ele. Ele falava mil coisas DOIDAS e daí, quando acordei, eu não lembrava quase nada e, tipo…

(Com seriedade) Diego, não importa o que aconteça, por favor, não se vire. Fique comigo, está bem?
Por quê? O que tá rolando?

Acabava de entrar um sujeito com uma enorme cabeça de emoticon malfeita sobre o pescoço, de papel machê, provavelmenteSem um encaixe adequado, a cabeça está pendendo para um lado. Basta um pouco de sensibilidade para perceber que sem uma preparação psicológica adequada, reviver uma experiência traumática desse porte produzirá um efeito catártico perigosíssimo. 

Nada. Não precisa se preocupar. (segurando-o de frente) Só quero olhar bem pra você…

O cabeção ambulante aproxima-se da mesa onde estão.

Meu, muito obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa? (empurrando o cardápio)
Sim. Várias. Eu amo sobremesa.

A sombra daquela cabeça começa a engolir a mesa deles. Deisy não consegue disfarçar a agitação.

Olha quantas tem aqui no cardápio! Pode pedir quantas você quiser. Você tá muito magrinho e…

Negligentemente, Diego olha para trás como um simples impulso instintivo e…

 

diego

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