Laura Athayde

Arquipélago (Editora Tribo), Delirium (Independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Assim, tão rápido? Não posso ficar meia hora conferindo o cardápio numa indecisão cruel pra finalmente pedir só um copo d’água? (Decisões são difíceis.)

Hahhaha, claro que pode, querida. Contrariando o mundo, não estamos com pressa.

Passado alguns minutos parte da clientela havia mudado. Laura finalmente escolheu um gelado copo d´água. Deisy preferiu continuar no seu café sem açúcar.

Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Vamo que vamo.

Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos? 

Cara… outro dia a minha vó me mostrou um quadrinho que eu fiz quando tinha uns sete anos. Era sobre dois detetives investigando o roubo de uma padaria famosa (?). Enfim, eu sempre li quadrinhos (especialmente Turma da Mônica e Tintin) e isso me levou ao interesse por desenhar e fazer as minhas próprias histórias. Eu parei por um bom tempo, entre o ensino médio e o fim da faculdade, por não ver muita utilidade prática na coisa (formei em Direito). Mas quando descobri o quadrinho independente nacional, por volta de 2013, não teve mais salvação.

Aleluia!

Eu fui sugada pelo buraco negro das narrativas intimistas e cotidianas e nunca mais consegui sair.

Oh glória…

Na época, eu mandei uns quadrinhos pra uma página que eu acompanhava, que era administrada pelo Diego Sanchez, e ele curtiu e publicou. A recepção legal do público e de um quadrinista que eu admirava me fizeram pegar gosto pela coisa. Tinham alguns zines com chamadas abertas pra quadrinhos curtos e tiras, mais especificamente a revista MÊS e o Zine XXX, e comecei a entrar mais e mais em contato com a galera que fazia HQ. Atualmente, larguei o Direito.

Aleluia! (ainda mais convincente)

Vivo de freelas de ilustração e quadrinhos e tô cursando design (esboçando um lindo sorriso).

Amem (com sotaque inglês). Diego  é realmente um príncipe. Agora, “sete anos”?! Que precoce, menina! Ainda mais uma investigação… Qual era o título você se lembra? Se não quiser dizer, tudo bem.

Era algo do tipo “O roubo do pão de ouro”, hahahah.

Esse pão devia ser uó! (rindo também) Aproveita e me diz o que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica. Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Tenho que admitir: o desenho tem que ser bonito. Mas os meus critérios pra isso são bem amplos: antes eu pagava pau pra realismo e detalhes, mas agora tô curtindo muito uma arte mais expressiva e caricata. Mas é claro que aparências não são o bastante – a história tem que me fazer chorar. Ou me deixar intrigada. Ou falar de temas inusitados. Atualmente, tenho comprado muita coisa pra usar como referência, e uma colorização foda tem sido o meu principal critério, porque quero estudar um pouco disso.

Acho que foi a Mitie da Itiban que disse uma vez que a cor funciona como a trilha sonora. Não parei para pensar nisso, mas achei tão bonito… Já que você está indo atrás disso, qual a função da cor dentro da narrativa?

O quadrinho tem essas inúmeras possibilidades gráficas de expressão. A cor é mais uma delas. Ela pode passar o sentimento desejado pelo artista em um determinado momento, pode dar a atmosfera certa pra uma cena…

Beleza, Laura. E sem dó, o que é mais broxante?

Pretensão! (risos) Não tem nada pior do que a galera falar muito da parada e, quando tu lê, é raso e pretensioso.

Broxa mesmo. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Na real eu tô aprendendo isso na marra! Eu tenho o (mau) hábito de pensar nas cenas de forma cinematográfica e depois desenhar, mas o desenho tem infinitas possibilidades além do filme. Tenho tentado fugir dessa mania misturando ângulos e elementos gráficos mais inusitados. Enfim, um quadrinho que eu queria que virasse filme… eu li Cumbe recentemente e gostei bastante. Acho que nem todo quadrinho se traduz bem para a linguagem do cinema, mas esse em particular poderia ficar lindo com uma trilha sonora que remetesse às cantigas quilombolas. Além disso, é um quadrinho muito silencioso e com muitos cenários, então a gente vê as imagens e quase escuta o barulho dos grilos, (Deisy fecha os olhos e começa a imaginar) o murmúrio das folhas, os passos dissimulados, o crepitar do fogo.

Nossa, consigo ouvir também e as cantigas lá no fundo… Dá até pra sentir o clima úmido. Marcelo tem feito um trabalho incrível mesmo. E esse último que lançar, vai por mim, vai quebrar a banca! Uma quadrinista foda e porquê?

Amruta Patil! É uma artista indiana que comecei a ler recentemente (ela tem algumas publicações online em inglês em http://marsam.graphics/author/amrutapatil/ e eu traduzi uma HQ dela para o português em http://minasnerds.com.br/2016/03/01/album-de-familia-de-amruta-patil-hq-completa/ ). Cara, não tem como descrever o trabalho dessa mulher. É uma mistura visceral de hinduísmo com vivência ocidental, e ela aborda temas que me fascinam, como família, sexualidade, gênero. Ela trabalha com um contraste forte entre misticismo e honestidade brutal, quase cínica.

Uau! Que bom que estão traduzindo material desse naipe. Obrigada por isso, Laura. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Ainda não li esse quadrinho! Mas amo esse tipo de cena. Amo a dúvida e o espaço pra interpretar, que é uma coisa que a gente vê muito mais em cinema e HQ europeus do que americanos. Uma cena que eu gosto muito tá no zine Ética do Tesão na Pós Modernidade vol. 2 (https://issuu.com/katzenminze/docs/eticadotesao2). São duas mãos unidas, e embaixo delas tá escrito “nós, que nos achávamos tão fortes juntos”. Aí, na página seguinte, a cena se amplia e revela que, na verdade, as duas pessoas estão se empurrando, e aquelas mãos unidas são o ponto de colisão entre elas. Tá escrito: “destruímos tudo”. Eu acho que foi uma sequência construída com muita habilidade e consciência das possibilidades da linguagem do quadrinho, além de ser muito emotiva, e me marcou bastante. E olha que eu li esse zine há uns dois anos.

Lovelove6, não é? Tem várias ali. “O tamanho do amor é proporcional à quantidade de sexo oral.” A-do-ro! Já que entramos de sola neste meio, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse uma personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Hahahah! Vixe, sei nem responder isso.

Depois de vinte minutos. (Sério, demorei 20 minutos pra responder essa pergunta)

Posso ser a Ramona Flowers?

Imagine que você está na pele da Ramona Flowers e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Martelar tudo. (Laura e Deisy riem como duas personagens de Scott Pilgrim) E depois ir embora de patins. Ou mudar de país. Ramona. (sorrindo)

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera. Como foi para você ser abduzida? 

Fiz sinal de carona num milharal? (desculpa, não entendi a pergunta. Hahahah)

Não se preocupe. É uma reação absolutamente normal. Obrigada pela entrevista, querida. Aceita uma sobremesa?

Sempre!

O garçom traz umas fatias do delicioso bolo de mandioca que Deisy havia pedido. Na primeira mordida, o cenário em volta delas, muda completamente. Estão inseridas em um dos cenários de Cumbe com uma grande mangueira farfalhando sobre elas. Mágica, simplesmente. Só estão as duas ali. Mas conseguem ouvir os atabaques e uma leve cantiga ao fundo. Não pensam duas vezes. Abrindo espaço na vegetação cerrada, vão em direção a música de peito aberto e alma lavada, sorrindo.

laura

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