Germana Viana

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço (Jambo Editora)

 

Quer pedir um café? Suco?

CAFÉ! Moço, traz um cafezinho preto, puro! Mas se só tiver com leite, coloca duas colheres de açúcar. E se o leite for de soja, só uma colher de açúcar…

E um puro pra mim, querido. Obrigada.

Vixe, será que ele entendeu ou vai confundir tudo?

(rindo) Ele tá acostumado. Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Gê, tudo bem?

São as mais legais!

Então me diga que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos? 

Sei lá… Acho que pode ser porque até os nove anos de idade eu morei numa rua que só tinha adultos e os quadrinhos terminaram virando meus amigos. E ter um pai que tinha a coleção do Fradim, escondida para que eu não estragasse, mas que eu pegava escondido e que lia mesmo assim deve ter ajudado um pouco. Daí, maiorzinha, já morando numa rua que tinha gente da minha idade, passei numa banca de jornal e vi a Elektra e a Jean Grey ali nas capas dos formatinhos. Fui direto na casa do vizinho que colecionava super herói, peguei tudo emprestado e o estrago foi feito!

Imagino! Essas duas não brincam em serviço.

Passei a ter um relacionamento sério com quadrinhos e depois de grande, e de tomar coragem, terminou virando uma das coisas que faço que mais me deixa feliz.

Que bom, Germana. Pegando o gancho da felicidade, ou melhor, (com voz sensualíssima) “o caminho da felicidade”, o que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (nisso o garçom traz as duas xícaras de cafezinho preto, puro)

Um diálogo bem feito (amo os diálogos que Jaime Hernadez coloca nas bocas das Locas). Uma expressão facial cativante (sou apaixonada pelo rosto do Matt Murdock que Mazzucchelli desenhou em Queda de Murdock há mais de vinte anos, cara). Uma luta bonita de tão feia (aquele Hulk comendo os oponentes derrotados nos Supremos, que que é aquilo, mano?). Uma espreguiçada gostosa (ah, Valentina…)

Perfeito! E pra minguar de vez, o que é mais broxante?

“Você faz (coloque aqui algo) como uma menininha”, cara… já larguei de ler gibi de amigo por causa dessa frase. Me dá uma preguiiiiiiça.

Prepotência me incomoda mais que urtiga. Não chego nem perto. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Transmetropolitan, do Warren Ellis. Pode ficar uma mierda, mas se ficar legal… Menina…

Mas não tenha dúvidas! Uma quadrinista foda e porquê?

Duas! Pode?

Sempre.
Ana Luiza Koehler (autora de Beco do Rosário) – Porque a arte dela é deslumbrante e o roteiro sabe balancear a história a ser contada com as pesquisas feitas para retratar a época em que as histórias se passam.
Katzen Minze, também conhecida como Lovelove6 (autora de Garota Siririca) – Porque tudo é delicioso na HQ dela! Roteiro, arte, cores, tema! Delicioso!

As duas são deliciosas! É de ir até o caroço!! (risos maliciosos) Gê, não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Puxa, tantas. E me parece tão injusto destacar apenas uma, mas bora lá, e vou ser pop, tá? Aquela página dupla com Matt Murdock caminhando pela cidade com o Foggy, acho que do Paolo Rivera, no Demolidor de Mark Waid.

Tem um baita clima, aquilo ali. Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse uma personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Eu queria ser a Death, mas todos os quizzes do mundo dizem que sou a Delirium.

Acho que tá rolando um dejà vù aqui… Imagine que você está na pele da Death então, e o futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Dançar ao som de violinos imaginários.

Tá certo. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera. Como foi para você ser abduzida? 

Péra… não era só um café?

É o que sempre dizem. Minha cara, obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Antes que pudesse responder, um grupo de violinistas ciganos entra no bar, tocando alucinadamente a música de outro mundo. Quando conseguiram dissipar a extensa cortina de fumaça que se formou no lugar, como aquelas fumaças provocadas pelo gelo seco, era tarde demais.

germana-viana

 

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