Lielson Zeni

Roteirista e editor de Quadrinhos, Balbúrdia (site),

Um corpo estendido no chão (Café Espacial)

 

Quer pedir um café? Suco?

Café espresso, sem açúcar. Tu já viu Limites do controle, do Jarmusch? O protagonista sempre pede dois cafés ao mesmo tempo. Não sei porque falei disso, acho que tô meio nervoso…

Calma, lindo, prometo ser a mais dolorosa possível. (risos) Adoro o Jarmusch! Mas esse filme…. Tirando os cafés, e a cena com o Bill Murray porque, né? Bill Murray porra! O resto não me desceu. Você gostou do filme?

Gosto bastante, aliás não tem nada do Jarmusch que eu não goste. Mas o Limites do Controle tem um lance de criar uma puta expectativa pra invasão e ele quebra o sistema do gênero fazendo uma elipse ali. Achei demais!

Não o culpo por isso. (ajeitando os óculos que estavam levemente abaixados) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Todas as perguntas são desnecessárias e ainda assim mais interessantes que as respostas. Isso não é um ensinamento zen, isso é uma promessa que vou responder besteira.

Suas besteiras valem ouro! Que diabos aconteceu com você para se interessar por quadrinhos? 

Falha de caráter, provavelmente. Esquece, piada tosca… desde pequeno eu leio quadrinhos. Na real, eu leio meio que qualquer coisa desde que me alfabetizei e qualquer coisa inclui HQ.

(Para uma escrivã imaginária) Que conste nos autos “falha de caráter”, sim? (de volta ao Zeni) Pois muito bem, Sr. Lielson, neste clima protocolar, o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Mas a excitação é física e mental, não? Tem separação?

Não, não tem. Estava sondando você para imaginar sua reação (debruçando-se sobre a mesa, com os cotovelos apoiados, diz com todas as letras) quando vir o orgasmo.

Pego de surpresa mas sem de deixar abalar, Lielson prossegue.

Respondendo… sem dúvida nenhuma, o que mais me interessa são situações que não podem ser reproduzidas em outra mídia, sacadas que envolvem transformar espaço em tempo com linhas estáticas e palavras.

Deixe-me cortar essa excitação toda. O que é mais broxante?

Texto em recordatório que conta o que o desenho mostra e que é reforçado pelo balão de fala. Tipo, Stan Lee.

Eu perco um óvulo quando vejo isso. Sério. Pra usar de uma frase redundante: uma redundância idiota. Ok. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Quadrinhos são quadrinhos, né? Pra bem e pra mal. Não piro muito com isso de ver gibi no cinema, sabe? Mas pra não tucanar e escolher alguma coisa, diria que o filme da Trilogia do Acidente do Mutarelli, com posterior seriado no mesmo universo. Ia ser bacana.

Concordando em gênero e grau. Uma quadrinista foda (fora a Brechdel) e porquê?

Laerte! Ela é a maior!

Deusa suprema!

Mas acho ela tão óbvia que nem precisa explicar o porquê. Vou citar outra pro papo render, pode ser?

“Craro”, meu filho, senta o pau!

Opa, é nóis! (ao garçom) Moço, me desce um macchiato?

Boa. Dois, por favor. Valeu!

Acho o trampo que a Mazô fez no Ateneu qualquer coisa de brilhante, aqueles recortes, muito fino mesmo. A Satrapi é um clichê citar, mas ela é fodona e gosto muito da Kate Beaton também. A Posy Simmonds também é genia.

Simplesmente. Todas as três. (o garçom traz os macchiatos com alguma tentativa de desenho na espuma. Ela agradece e retoma a entrevista) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Li e adoro. Acho o Vivès um puta quadrinista. Essa cena é gloriosa mesmo. Gosto também de uma página do Concreto do Paul Chadwick que tem CENTO E CINQUENTA PAINÉIS com o Concreto nadando; tem também toda a parte final do Incal, as últimas páginas mesmo, aquilo me emociona, cara.

Correu uma lágrima aqui. Mas não vou dizer onde. (risos de ambos) Aproveitando que você está todo ouriçado, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Eu já fui um personagem. Escrevi uma história em que um personagem revoltado mata o autor. Mas se você está falando de um personagem que as pessoas conhecem, seria o Calvin do Bill Waterson.

Vou ficar com o matador. Fale mais sobre, meu rapaz!

É uma HQ que se chama “Um corpo estendido no chão”. Saiu na café espacial, com arte do Francis Ortolan. Três amigos acordam um dia e encontram um cadáver na sala e precisam dar um jeito nele, eu interpreto o cadáver, que mais pra frente ganha a vida numa pira metalinguística

11-1

Sensacional! Imagine que você está na pele desse personagem e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. Se bem que para um cadáver, convenhamos, né? O que você gostaria de fazer exatamente agora? (saboreando seu delicioso macchiato) 

Nesse caso, eu já estaria morto. Então, tudo bem. Mas se o fim do mundo fosse, tipo, cristão e os mortos voltassem à vida pra ser julgados, enquanto espero minha vez, eu ia arranjar uma cadeira de praia, um terraço e um som portátil e ia olhar pro dia passar ouvindo alternadamente Beatles e Radiohead.

Espero que você tenha um péssimo julgamento. (risos) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Esses ETS eram bacanas, não tinha aquele papo de operação e mexerem em órgãos e tal. Demos um rolê pelos céus da Terra e um deles disse pra buscar conhecimento e continuar estudando.

Pelo visto funcionou. Obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Tem pudim?

Tem! (com os olhos brilhando) Eles fazem um pudim de leite daqueles lisinhos, saca? A coisa desmancha na boca… Nem é mais pudim, é uma profanação. (ao garçom) Moço!

lielson

 

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