Wilson Vieira

Piccolo Ranger (Editora Bonelli), Tarzan (Editora Cenisio), Diabolik (Editora Astorina), Homem Aranha (Editora Mondadori). No Brasil publicou como argumentista e roteirista – Gringo, o Escolhido (Editora Nomade) e Cangaceiros Homens de Couro (Editora CLUQ).

 

Quer pedir um café? Suco?

Café com leite, sem açúcar, por favor. Só adoçante e se não for abusar, um pão integral na chapa com manteiga.

Pode abusar o quanto quiser, querido. (ao garçom) Moço, traz o que ele pediu e pra mim só o cafezinho de sempre mesmo. Obrigada. (ao Wilson) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Tudo bem, talvez receberá respostas nonsense também, vamos em frente. Mas, ainda estou intrigado, como me descobriu; maldita era digital!

Nada escapa dessas lentes. E algo tão bonito quanto o que você faz, fatalmente, vem a tona. Tietagens à parte, vamos lá: Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? 

Pergunta sem uma resposta exata; mas, lembro-me do meu pai desenhar. Talvez tudo começou daquela imagem, que ficou marcada para sempre em minhas entranhas, mais profundas. Fui atraído e dali, comecei a me interessar pela Arte Desenhada. Isso há anos e anos atrás, mas continuo até hoje, nesse mundo fantástico.

Põe fantástico nisso. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Bem acho que um bonito desenho seja qual forma ele seja ofertado, juntamente com um roteiro inteligente, deixam qualquer Quadrinista excitado e o impulsiona a fazer melhor do que vê ou lê. Buscamos sempre o perfeito, e essa busca inatingível é a mola propulsora para sempre estarmos sonhando e produzindo.

Perdoe o gelo que eu vou dar agora, Wilson, mas me diga: o que é mais broxante?

É tentar colocar em prática, ou aqui entre nós; colocar no papel algo que não conseguimos, seja em desenho tanto como em roteiro. É uma luta infernal, mas quando conseguimos, é um eterno prazer.

Não foi mencionado mas o garçom já servira a mesa. E o pão do Wilson parece tão macio com uma casca tão crocante que ela se sente impelida a pedir o mesmo.

Sei como é. Vivo dando uma emperrada… Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Certamente. Eu sou fanático pelo personagem western Cavaleiro Negro (Black Rider), penso que com um roteiro bem escrito, com pitadas de efeitos especiais, daria um bom caldo ainda, para o Doutor Robledo. Mas aviso; se isso for realizado, exijo a minha participação pela ideia. Já estou avisando o meu advogado.

(risos) Acho justo. Costumo perguntar sobre las mujeres nesta hora mas abrirei uma exceção aqui. Um quadrinista foda e porquê?

Joe Kubert (pai), claro. Simples, ele foi realmente um gênio ao desenhar Tarzan e o Sargento Rock, sem falarmos do seu Tex; sensacional. Dominava a anatomia como poucos.

Não sei porquê, mas algo me dizia que ia dizer Joe Kubert mesmo. (sorrindo) Um monstro sagrado. Apenas isso. Não conte para ninguém mas às vezes acendo uma vela pra ele. Vai que ele dá uma luz no meu trabalho, sei lá… Bem, não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

O pão da Deisy é servido.

O quadrinho citado por você não li, mas gosto muito de quadrinhos sem nenhuma fala, texto narrativo ou onomatopeias; e puxando a sardinha pro meu lado, escrevi um roteiro assim, com 20 páginas que está sendo desenhado por um grande artista brasileiro radicado na Itália. Logo, logo teremos mais notícias. E vou dizer que é realmente muito difícil desenvolver algo assim, pois tem que reduzir as palavras somente em desenhos. Resumindo, é um desafio para qualquer Quadrinista.

Estou me coçando toda para perguntar quem é o brasileiro que irá desenhar, mas acredito que faça parte de um processo sigiloso e não vou insistir. Poderia! Mas não vou. (sorrindo maliciosamente) Quadrinhos mudos são o cremè de la cremè. Rafael Sica tem mandado bem nesse quesito ao lado do Gustavo Duarte… O Pinóquio de Winshluss! Que coisa mais linda… Estou ensaiando fazer algo assim, mas só no ensaio já deu pra sacar que é um desafio ENORME. E já que o assunto é “enorme”. (piscadinha desleal) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa. (molhando o pão no café)

Claro. Agora você chutou literalmente o balde, hein?

Tá no pacote. (mordendo o pão realmente crocante)

Vejamos, qualquer personagem de Quadrinhos Western; sem falta modéstia o criado por mim – Gringo, que no fundo é um anti-herói, e dos bons. Desculpa aceita, pois acabei vendendo o meu peixe…rs…rs…rs…não é cobrado, é?!

Meu amor, aqui você é o xerife. Ou melhor, el Gringo! O que seria do mundo sem os anti-heróis? Imagine que você está na pele del Gringo! e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Em meu caso específico, atiraria até acabar as balas, do revólver e da Winchester. Depois usaria a minha navalha e lutaria até o fim.

Épico! Sabia que eu quase comprei uma Winchester? Quando juntei a grana já era tarde demais. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

Continue, continue, estou adorando esse pão na chapa.

Hmm… é bom mesmo! (com a boca cheia)

Sabe, não me recordo muito bem de tudo, mas vi por um lapso de tempo, um ser verde horrendo sobre mim, segurando um bisturi ensanguentado, desmaiei em seguida sob uma intensa luz. 

Implante. Colocaram um implante em você. É batata! Posso ver atrás de sua orelha? (antes de ouvir sua resposta, ela se debruça sobre ele, puxando sua orelha e analisa friamente o que quer que exista ali. Volta lentamente ao seu lugar, dizendo com todas as letras) Wilson, você é um caso clássico. Obrigada pela entrevista, mestre. Aceita uma sobremesa?

Sou eu quem agradece, Deisy, ao ser despertado e ainda mais; com um café farto grátis com tudo de direito. Sobremesa? Não obrigado, o açúcar branco não faz mais parte da minha vida.

DESGRAÇADO! (alguém no bar, grita enquanto ouvimos um copo sendo estilhaçado. Deisy e Wilson não haviam se dado conta de que ali perto deles, no balcão do bar, estava um velho forasteiro, trajando jaleco de couro, botas empoeiradas, o surrado chapéu de caubói – e estava armado) Ninguém sacaneia com o velho Bill, seu puto!

O garçom, visivelmente nervoso, não sabe como reagir a não ser torcer o inseparável pano de prato. Um dos clientes, o mais encorpado deles, levanta-se ajeitando as calças. Tenta acalmar os ânimos. 

Calma, amigo, o que está acontecendo aqui?

O velho Bill o encara lentamente. Cospe o fumo mascado. Mão sobre a coronha do Colt.

Você não gostaria de…

Antes que o pacífico cliente pudesse peidar, o velho Bill senta o dedo no cospe fogo. Três tiros. Todos correm pr´algum lugar. Reviram cadeiras e mesas. Um verdadeiro CAOS em um sallon do velho oeste! Consegue acertar um outro qualquer que passava pela porta da frente. Gira nos calcanhares. O garçom havia picado a mula antes do segundo tiro. Deisy conteve Wilson, com todas as forças e o puxou para os fundos do bar, entrando na cozinha. Wilson ainda não havia se transformado no el Gringo. Que falta faz uma Winchester nessas horas! Quando viu o cutelo sobre a mesa, ele não pensou duas vezes. Estava pronto para atacar a qualquer momento. Tex, Gringo, Piccolo Ranger, estavam todos com ele. Deisy ficou bem atrás, segurando sua jaqueta jeans e dali não sairia por nada. E atrás dela estava o cozinheiro engordurado em pânico. A correntinha da Santa Maria em seu pescoço aquela hora não tinha a menor serventia. No grande salão, Velho Bill recuperara a calma. Dá uma boa avaliada na situação. Há um covarde escondido em baixo da mesa. Ignora. Alcança um ovo cozido no compartimento dos salgados. Quebra a casa, deslizando-o sobre o balcão para frente e para trás, com toda calma do mundo. Guarda o revolver no coldre. Descasca. Salpica o bicho e desliza pra fora, comendo o maldito ovo. Fechem as pernas, Velho Bill está de volta à cidade.

Lá fora, por mais difícil que seja acreditar em tamanho clichê, uma bola de feno atravessa a rua.

wilson

 

 

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2 comentários sobre “Wilson Vieira

  1. O talento surge como o vento… E quando o vento sopra do oeste, a coisa “pega” surge a paixão e o amor ao trabalho. Admiro artistas com talento, eles sopram o imaginário das pessoas, levando nossa imaginação a lugares incríveis e muito distantes. Nossos pensamentos são como as folhas que o vento derruba, e também como o feno enrolado, atravessando as ruas de vilarejos distantes, situados nas profundezas da mente humana. Adorei essa citação na entrevista, adorei a entrevista, entrevistadora e entrevistado. Hoje, vou dormir lembrando personagens de quadrinhos que ocuparam minha infância e adolescência. Sempre que lia um quadrinho, ficada “digerindo” a história por muito tempo, dias até.
    O primeiro livro que li na vida, presente de meu pai, era todo ilustrado, a obra literária de Monteiro Lobato, O Saci. Tenho o livro até hoje comigo. Para mim, na época, um “gibi” fantástico com ilustrações “bico de pena”, clássicas, muito bonitas, não esqueço um detalhe sequer da história… a peneira de feijão, com uma cruz na malha, única arma para prender “o diabete de uma perna só”” numa garrafa, entre outras passagens fantásticas é um mero exemplo. Parabéns a todos, nessa entrevista, principalmente a você primo que cria, escreve e desenha a nossa imaginação.

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