Adriano Lima

Tiberius Wolf’s Mystery Theater (Facebook)

 

Quer pedir um café? Suco?

Me manda uma cerveja bem gelada.

Dos meus! (ao garçom) João, você ouviu meu amigo aqui. Uma serra bem gelada! Faz favor. Valeu. (ao Adriano) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Manda, sem problemas.

Que diabos aconteceu com você para se interessar por quadrinhos? 

Aprendi a amar a leitura graças aos quadrinhos, Deisy, comecei a ler com gibis. É isso. Até inglês aprendi com gibis. Gibi é cultura, pôrra!

Porra, se é! (batendo na mesa também) Vou te fazer uma pergunta agora e estou meio ressabiada. Manja o sensor do Aranha? (pequenos raios de alerta sobrevoam sua cabeça) Pois é… Seja o que deus quiser! O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Tente não ficar tão à vontade…

Bom, sou mesmo viciado em bom roteiro, tem de estar bem escrito, ter uma boa estória.

O garçom abre uma cerveja vestindo véu de noiva.  Enche os dois copos.

Uopa, isso é que é gelada! Valeu, João. 

Adriano levanta o copo para o brinde.

Saúde e alegria!

Bora! (ambos estalam a boca depois do primeiro e longo gole)

Continuando: O visual conta muito quando o artista sabe trabalhar as páginas, sabe distribuir o tempo de uma virada a outra da página, sabe construir climas às vezes sem depender de texto, é muito interessante.

Muito interessante. E o que é mais broxante?

Broxante é o mais do mesmo, a falta de experimentalismo e ousadia, o mainstream comercial. A coisa nivelada numa idade mental estática e babona.

Adorei o “babona”. (risos) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Para mim HQs são uma nova forma de Literatura, sempre achei isso. Bom, já que falei disso acho que aquela adaptação do Em Busca do Tempo Perdido do Proust para os quadrinhos dariam uma boa animação, e aquele do Nietzsche do Michel Onfray também. Acho que ficariam bastante boas. Mas sou suspeito.

Põe suspeito nisso! Fiquei sabendo da pilantragem que você estava aprontando com a HQ do bigodudo. Que coisa feia, hein, Adriano… É, você mesmo! (risos) Vai, diz aí uma quadrinista foda e porquê? 

A única que eu conheço é a Laerte, mas aí eu fico confuso, porque eu gostava dela antes dela ser mulher, mas agora ela é mulher e eu gosto mais…ahn…tudo bem?

Tudo “bem”, não, diria maravilhoso. Melhor: maravilhosa! E meu copo está cheio. (bebendo com gosto) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Bom, sempre gostei daquela cena do Manara, H.P. e Giuseppe Bergman, saca?

Opa! Eu tenho. Ediçãozinha linda. Um petardo!

O Giuseppe corre atrás do H.P, ele tá subindo uma escada e grita o nome dele. Então H.P. se vira para responder e a cena mostra por trás dele um monte de sombras demoníacas e angelicais, cheia de fadas e monstros e coisas assim e nada mais é dito. Sempre gostei desta sacada do Manara, tá na minha retina mental.

Na minha opinião uma das melhores HQs dele. Foi meu primeiro contato com Manara. Cara… Ao Manara! (propondo o segundo brinde) 

Ao Manara! (tim-tim)

Surpreendentemente, a cerveja desce ainda melhor.

(Limpando a boca com o dorso da mão que segura o copo) Hm, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Pôrra…se eu fosse um personagem dos quadrinhos? Pôrra, acho que eu seria o Torpedo do Bennett. Detetive filho da puta…

Imagine que você está na pele desse personagem e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Ia dar um jeito de foder quem me fodeu e ainda ganhar um troco com isso, tomar uma breja e o resto não te interessa.

Ahhahahha! O engraçado é que na pele do Torpedo ou do Adriano, o resultado ia ser o mesmo. (mais risos) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Tá, tava demorando para você perguntar isso. (Deisy levanta seu copo como se dissesse “ao seus dispor”) Olha, foi uma bosta. A gente fica pensando naqueles lances todos tipo Contatos Imediatos do Terceiro Grau, tudo muito brilhante e luminoso. Não foi assim comigo. Eles entraram na minha mente e viraram tudo do avesso. Eu saquei que meu cérebro tá num aquário recebendo choques e tudo, absolutamente tudo ao meu redor não é real. Nada disso é real. Então dá para a gente dizer que qualquer coisa pode ser real, não é? Não gostei da abdução. Engoli mais pílulas vermelhas que todo elenco de Matrix. Me convenceram. Nada é Real. Nada. Inclusive essa cerveja. E você.

A prestação do meu apartamento, que vence amanhã, não é real? É isso que você está me dizendo?

Sim.

Podemos beber a grana da prestação aqui, agora, que não terei problemas futuros quanto a isso?

Não.

Obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Não, me manda outra breja, não é real mas eu gosto assim mesmo.

adriano

 

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3 comentários sobre “Adriano Lima

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