Liber Paz

Dias interessantes (Independente), Kitinete HQ (vlog), Balbúrdia (site)

 

Quer pedir um café? Suco?

Pera. Deixa eu ver. Hm. (olha o cardápio). Essa aqui. Soda italiana de melancia.

Que fino. Acho que vou pedir uma também. (ao garçom) João! (sim, depois de tudo o que aconteceu, Deisy da casa e já é amiga de todos) Vê pra gente duas sodas italianas de melancia, por favor. (ao Liber) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Manda.

Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? 

Assim, eu sempre curti quadrinhos. Lá na minha adolescência, final dos 80 e começo dos 90, enquanto meus amigos piravam com música e montavam suas bandas, eu consumia os quadrinhos da Vertigo.

Preacher?

Preacher eu fui descobrir mais tarde. Não consegui acompanhar por causa da irregularidade das publicações.

Pessoas morriam por causa disso.

Eu consumia o Monstro do Pantano, Hellblazer, Sandman…

A tríade sagrada.

Tinha aquela revista Vertigo da Abril, lembra? que durou 12 edições.

Sim!

E tinha Blood.

O que foi aquilo que Kent Williams fez ali? Na verdade, tudo o que esse monstro faz. Wolverine e Destrutor… Aquilo entrou na minha pele. Juro!

Tinha umas coisas que não eram Vertigo, mas eu considerava Vertigo. V de Vingança, Moonshadow, Skreemer… (Deisy sinaliza com dois dedos que considerava o mesmo) Olhando agora, não parece grande coisa, mas era o que eu tinha: uma relação sincera de amor com os comics. (só de sacanagem, Deisy suspira, apaixonada) Daí cheguei a participar de uns grupos de quadrinhos aqui em Curitiba. Ajudei na produção de coisas como a revista Manticore e O Gralha, mas era sempre trabalho de bastidores, letreiramento, fechamento de arquivos, essas coisas. Daí os anos foram passando e eu meio que brincava de fazer histórias curtas como quem brinca de fazer música com o violão. Daí eu fui no meu primeiro FIQ em 2009, só de visita e vi toda aquela gente fazendo quadrinhos. Em 2011 voltei pro FIQ com um fanzine xerocado. Em 2013 levei minha primeira HQ “álbum”, As Coisas Que Cecília Fez. O impulso que me levou a fazer isso foi a simples noção de que a vida estava passando, eu estava prestes a fazer 40 anos e não custava nada tentar fazer um quadrinho, só pra vida não passar em branco. Eu comecei a fazer porque a opção era não fazer.

Ainda bem que optou por esse caminho. Espero que sejam mesmo os “Dias interessantes”. (sorrindo) E vamos ao que interessa! Liber, o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

É bem pessoal isso, mas acho que as histórias que mais curto são aquelas que me envolvem tanto, me encantam, me seduzem de um jeito, que não as percebo como quadrinhos. Percebo como pensamento, como sensações vívidas. O tempo desaparece e de repente terminei de ler. Pra provocar essa sensação, eu aprecio muito os diálogos, a construção de personagens, o ritmo. Também adoro quando a pessoa se vale das propriedades específicas dos quadrinhos e fazem coisas que só podem ser resolvidas ali. Eu adoro o aspecto físico do livro, do produto, essa coisa tátil. Não curto tanto quando leio no digital. Daí, pra ilustrar essas coisas que eu falo, tem o Sandman, do Gaiman, que tem esse lance dos diálogos e construção dos personagens. Amo. Sobre as propriedades específicas dos quadrinhos, tem o capítulo V de Watchmen (Terrível Simetria), que o Moore faz uma edição de 24 páginas que se espelha do meio pras extremidades em layout e narrativa. Alucinante. E tem ainda o Asterios Polyp, a sequência em que Asterios conhece Hana e os aspectos gráficos se mesclam. Show. Gosto das páginas duplas do J.H.Williams III em qualquer coisa que ele faça. Tem Building Stories, do Chris Ware e Here, do Richard McGuire. Essas coisas são a objetificação do amanhecer de Natal, os presentes ao pé da árvore, aquela alegria pura de criança. É uma alegria libidinosa, extasiante. Jesus.

Graças a Deus, Jesus não tem nada a ver com isso! (risos) Você tocou num ponto interessante. Também prefiro o livro impresso. Sentir o peso, a ação de folhear, essas coisas táteis parecem criar uma relação mais afetiva. Acho que pra você é o mesmo. Mas tem uma coisa nos web comics que me agrada e muito. Não sei você conhece uma, a  Thunderpaw. Eu acho lindo, cara.

Não…. passa um link?

Eu mostro pra você. (aproximando sua cadeira da dele, procura no celular a página em questão) Tudo bem que se aproxima bastante da animação. E daí? Gostaria de saber o que você acha sobre isso, sobre quadrinhos animados. 

Quero ler com calma. Achei o desenho, o estilo muito maneiro. Mas te confesso que os “tremeliques” de animação não me parecem assim imprescindíveis. Tinha uma animação chamada dr Katz. Você assistiu?

Não… (procura no youtube)

Eu adorava. Era um desenho sobre um psiquiatra. E era todo “vibrante”, “trêmulo”.

Nossa, que reboladeira.

Eu achava muito bacana. Tipo, eu tenho que ler esse dog pra ver qualé a do “tremelique” Acho legal também usar o lance dos hiperlinks. Tipo, colocar hiperlinks dentro da página. Que a pessoa clique numa gaveta e veja o que tem lá dentro… Acho essas coisas legais. Eu gosto do trabalho da Bianca em Bear. E, Deisy, pera, quero ver se eu acho aqui. (fuçando no celular) Tenho uma coisa pra te mostrar.

Mostre-me tudo, amor.

Olha que tetéia. (mostrando uma página virtual)

Uau!

Né?

Demais! E alguma coisa aqui me soa estranhamente familiar… (risos) Liber, Liber, Liber… Deixa eu seguir o script. (exagera na dramaticidade) O que, meu deus, o que é mais broxante? Dentro da narrativa gráfica, claro.

Perceber que o gibi foi feito só pra cumprir o prazo da gráfica e o contrato com a editora. Só pra receber um trocado a mais, só pra ganhar joinhas nas redes sociais. Seguindo tosca e burocraticamente o passo-a-passo da cartilha básica do entretenimento de massa. Repetindo tudo o que já foi feito e refeito à exaustão, de forma mecânica, falsa, sem alma e com pretensões de ser “épica”. Tipo um orgasmo fingido. Isso mata manadas e manadas de pandas nas planícies mais profundas da minha alma.

Trocado? QUE TROCADO?! Alguém está tirando um troco fazendo quadrinhos e eu não tô sabendo?? (risos) E já que você tocou no assunto do grana rolando solta: uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Watchmen. Eu queria muito ver um filme de Watchmen. O Snyder fez um videoclipe longo e até quase interessante em alguns momentos (e totalmente equivocado e constrangedor em outros), mas eu queria um filme de verdade.

Pelo visto o filme do Zack Snyder, não te agradou muito, né?

O pior é que gostei, mas é aquele “guilty pleasure”. Acho que o filme tem umas coisas legais, mas os equívocos são de lascar. Tipo a cena que toca Halleluia na transa do Coruja e da Spectre ou o surto do Rorschach com a machadinha na cabeça do assassino infantil.
A orientação e o desenvolvimento do personagem do Ozymandias é outra coisa que me incomoda muito.

A única coisa que eu realmente gostei ali foi a atuação do Rorschach. Aquele ator é foda.

Sim. Pra mim, Corpo Fechado é um dos melhores filmes de quadrinhos. E nem é adaptação.

Aquele com o Samuel, né? Concordo.

Aquele filme é mais Watchmen do que o filme do Snyder. (risos)

Tem um outro que é no clima de HQ com o Laurence Fishburne. O filme é dog alguma coisa…

Ghost Dog? do Jim Jarmush?

Esse!

Pou, esse é massa!

Bateu vontade de rever. Agora, diz aí uma quadrinista foda (fora a Brechdel que já foi citada várias vezes aqui) e porquê? 

Uma só?

Cê que manda.

Bom, eu sou apaixonado pelo traço da Alejandra Lunik, uma argentina que faz charges e tiras. Ela tem uma personagem chamada Lola e gosto muito desse material, do texto, da maneira leve e inteligente como ela aborda os temas. Não posso deixar de mencionar a Bianca Pinheiro e a Samanta Flôor. Adoro como elas transitam entre o fofo e o sinistro, gosto como elas dominam a linguagem, como elas desenvolvem, cada uma, seu estilo único. Esses dias eu li A Propriedade, da Rutu Modan e Hoje é o último dia do resto de sua vida, da Ulli Lust. A primeira trabalha diálogos e construção de personagens de um jeito maravilhoso. A segunda me perturbou pra caralho de um jeito muito bom. Parando pra pensar, essa pergunta que você faz é muito importante, porque tem muita mulher fazendo coisas extraordinárias e a gente nunca vai falar o suficiente sobre elas.

Nunca. Por isso a jogada na parede. Sabe que ainda hoje escuto carinha dizer: “mulher não devia fazer quadrinhos”… Isso é tão… tão idiota. A merda é ouvir isso de caras importantes no meio. É triste, cara. Me emputece num grau que você não faz ideia… E depois vem dizer que a mulherada tá “exagerando”. Ahhh, meu poupe!  PORRA! (batendo na mesa, ficando roxa como o velho urso – personagem da turma do Pica-Pau) Voltando ao normal em 5, 4, 3, 2… (suspira profundamente) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Olha, justo hoje eu li as primeiras histórias da Patrulha do Destino, com roteiro do Grant Morrison.

Vi! Você postou um detalhe da página, não foi?

Isso. É assim: o Cliff, o Homem-Robô, está num hospício, está fudido, consumido por todas as mutilações que sofreu. Daí apresentam ele pra Crazy Jane, que tem umas 70 personalidades diferentes. E tem essa página, que os dois conversam entre si. Olha só. (mostrando a página no celular).

Que bonito.

Eu acho muito foda essa cena, esse diálogo. São dois fudidos, duas pessoas defeituosas e lascadas, sem conserto. E elas conversam e se encontram na chuva. E continuam fudidas e sem conserto. E uma delas é um homem de lata. Acho essa cena deliciosa. E tem outras. Tem uma página no Cavaleiro das Trevas, do Frank Miller, na qual uma mulher volta pra casa de metrô e é assaltada por dois membros da Gangue Mutante. Caralho, naquela página o Miller mostra a mulher, a vida dela, as dificuldades, o orgulho, o amor pelos filhos, a crueldade do mundo e termina com aquele sensacional “Mulher explode no metrô”. Foda. Tem muitas cenas que me marcaram. Posso falar horas sobre isso. É prazeroso.

Poxa, deixei uns freelas em casa… Se não fosse isso a gente ficava até… Porque tô adorando, cara.  Sério. Acho que tem alguma coisa que se mexe quando você fala, nessa sua barba… (risos) Mas a gente volta aqui. Se você quiser, claro. Agora, em cima desse seu “prazeroso” vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir o roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Se eu pudesse escolher, eu seria o Super-Homem, naquele gibi A Foice e o Martelo. Eu já cheguei a fantasiar sobre isso. Usaria os extraordinários poderes pra fazer coisas tipo impedir desocupações como a que aconteceu em Pinheirinho em 2012, estaria ao lado dos professores e alunos contra a PM nos protestos de São Paulo e do Paraná, destruiria armas e equipamentos dos grandes latifundiários, tornaria a vida do mega-empresariado um inferno. Tudo isso com aquela foice e martelo no peito. Super-Comunistinha. Seria maravilhoso.

(com um riso largo) Genial! Isso seria lindo, Liber. Mas nós dois sabemos que a Justiça é a coisa mais fictícia que existe por aqui. Então imagine que você está na pele desse Super-Homem e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Voar.

Segue-se um silêncio estarrecedor. Dá até para vê-lo voando, atravessando as nuvens, cada vez mais alto.

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

Não foi legal. Ser levado contra a sua vontade e privado de sua liberdade nunca é legal.

Condução coercitiva. Tá na moda! (risos) Liber, obrigada pela entrevista, amore. Aceita uma sobremesa?

Oras, eu é que agradeço sua atenção. Foi um prazer inenarrável. Um cafezinho agora ia bem. (sorrindo)

João, desce dois cafés pra gente? (o garçom dá um jóia lá do outro lado do balcão) Valeu!

liber

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