Daniel Lopes

Editor e apresentador do Pipoca e Nanquim

 

Quer pedir um café? Suco?

Pega mal se eu pedir uma cerveja? É sábado e tá calor demais.

Mal é não pedir!! João (ao garçom) manda duas Juan Caloto, per favore. Obrigada. (ao Daniel) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

São as que mais me interessam, manda bala.

Ótemo! Então me diga que diabos aconteceu com você para se interessar por quadrinhos?

Um bidê quebrado. Hahah. (Deisy ri junto) Você deve estar pensando: “nossa, que cara bizarro”.

Na verdade, não consigo nem imaginar o que…

Explico: quando eu era criança, a casa onde minha família morava tinha um bidê que não funcionava, e era nele que meu pai guardava as edições de Conan e de Homem-Aranha que ele estava lendo.

Ahhhhh!

Eu sempre pegava uma pra dar uma espiada e fiquei completamente louco por aquelas revistinhas.

Como não enlouquecer? E que deus abençoe o bidê. (risos) 

João traz as cervejas esquema canela de pedreiro. Copos devidamente enchidos. Deisy, em um ato politico, propõe o brinde:

Ao Pipoca e Nanquim

Tim-tim.

(Enxugando a boca) Essa eu quero saber: O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica, tigrão? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Não ser subestimado. É uma delícia pegar uma HQ e notar que os artistas deram tudo que podiam e contaram a história da maneira mais minuciosa, pensada e estudada possível. Acho que meu tesão com uma obra é total reflexo do tesão de quem a fez.

Tesudo. Você sabe que eu adoro quebrar o clima, né, Dani? O que é mais broxante?

O contrário da resposta anterior. Odeio quando o narrador acha que o leitor é burro e precisa dar respostas óbvias, explicações desnecessárias ou tenta dar aquela envernizada pseudointelectual numa parada que você sabe que tem a profundidade de um pires.

Esse mundo me cansa. (mandando ver na breja) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorais ou morrer tentando.

Deixar eu pensar…

Vai fundo!

Queria ver uma adaptação foda de Incal, de Jodorowsky e Moebius. Os dois são gênios e tiveram grandes momentos no cinema. Acredito que se o Jodorowsky estivesse envolvido na produção (se fosse o diretor, melhor ainda!) a HQ podia render um puta filme. Ela até tem um ritmo bem cinematográfica, né? (bebendo)

Sim, cara! Um filme do Incal está no imaginário de quem sabe o que é bom.

É isso, um dos meus gibis favoritos, de dois monstros e que têm tudo a ver com a sétima arte.

Aqui no Brasil eu queria ver uma adaptação de Diomedes, do gigante Lourenço Mutarelli. Muito já se falou sobre esse filme, até gravaram uma prévia em 2007 pra captação de recursos. Lembro que tinha dedo do Dennison Ramalho (diretor) e o Grampá também tava envolvido no design e tal… mas nunca foi pra frente. Uma pena.

É foda. Deve ser um dos mistérios mutarellianos. Uma quadrinista foda e porquê?

Uma que não me saí da cabeça é a Deisy Mantovani… Hahahah…

Hahhaahah, você quer me seduzir na cara dura? Deixa só eu tomar mais uma cinco dessas pra você ver o que te acontece.

(Desconversa) Mas eu também sou vidrado na Marjane Satrapi. Persépolis é uma obra-prima. Além de ser narrada perfeitamente, tem um contexto histórico impressionante. A jornada da garota que se vê no início da revolução islâmica no Irã e as consequentes mudanças em sua vida a partir dali tem tanta camada de discussões que me faz querer reler a HQ sempre. Além dessa, a Marjane tem pelo menos mais duas HQs belíssimas: Bordados e Frango com Ameixas. Três pepitas de ouro. Muita já gente já deve ter falado dela aqui nas suas entrevistas, né? Mas é isso aí…

Marjane é uma que em breve terei de pedir para não ser citada. É ela, Laerte e a Bechdel reinando absolutas. Um monopólio de ouro, meu amigo! Essa hora eu fazia uma pergunta onde as respostas estavam ficando meio parecidas. Mas no teu caso, vou reativa-la. Já faz um tempinho também. Bom, entre uma leitura e outra, finais abertos ou histórias fechadas?

Ah, tanto faz. A história toda tem que ser boa e bem contada, se o final casa com a proposta, fico satisfeito.  Tem muita gente que critica finais abertos, acham que é safadeza/falta de criatividade/preguiça do roteirista ou ficam com a sensação de não completude, mas eu acho que na nossa vida mesmo, é praticamente impossível existir finais satisfatórios, ou a pessoa morre e você vai ao enterro ou você não tem mais notícia sobre ela e pronto. Da maior parte das pessoas com quem convivo, só conheço trechos de suas vidas, o que elas escolhem me contar e o que eu tô presenciando, e não tenho dúvida de que os finais dessas histórias dificilmente terão um lirismo poético ou serão bem contados como se fossem um filme, uma novela… sei lá, tô divagando…

Não, eu penso o mesmo que você. (levantando a cerveja tristemente vazia) Vai mais uma rodada?

Opa! Claro.

João, (ao garçom) manda mais duas pra gente. (ao Daniel) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro, do Bastien Vivès… Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Essa cena de Gosto do Cloro é linda mesmo, adoro essa HQ. Uma das cenas que mais guardo comigo é um quadro do último número de Watchmen em que Adrian Veidt (Ozymandias) e Dr. Manhattan estão tendo uma última conversa, logo depois do plano insano de Adrian ter sido concretizado, do ataque da criatura ter destruído Nova York, e do Manhattan matar o Rorschach. Ozymandias pergunta: “Eu Agi corretamente, não? Deu certo no fim.” E o Dr. Manhattan antes de desaparecer para sempre: “No fim? Nada chega ao fim, Adrian, nada.”

Arrepia só de lembrar.

E eu então? Olha só. (esticando o braço) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? 

“Pergunta indecente”? Deve!

Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa. (a essa altura as cervejas já foram servidas)

Putz, tá longe de ser indecente isso. Já que você não queria perguntar, não vou responder, tá? Hahah. E não precisa pedir desculpa por nada, nunca.

Hhahahah. Você é mesmo um danadinho…

Tô brincando. Eu gostaria de ser o Flash Gordon.

“Flash, A-ahh!” (risos) Imagine que você está na pele do Flash do Alex Raymond e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Tirar um ano sabático com a Dale Arden num planeta tropical pouco habitado.

Ia roubar a Dale de você. Sorry. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Foi bem diferente do que eu imaginava, viu? Achei que seria uma mesa de cirurgia num laboratório asséptico com estranhos seres cabeçudos verdes com aqueles puta olhões pretos e um lance todo sinistro envolto em alucinações, para fazer jus ao clichê. Mas acabou sendo uma entrevista chatíssima, parecida com aquelas de processo seletivo, comandada por uma alienígena insuportável daquelas bem típicas de RH. Levou horas, não me serviu pra nada e agora eles têm todos os meus dados e da minha família. Falaram que quando dominarem o mundo, terei um desconto no imposto, mas eu duvido.

Faz bem em duvidar, Dani. Esses caras não são nem um pouco confiáveis. Querido, obrigada pela entrevista. Vai mais uma rodada, meu querido Flash Gordon?

Mas já a saidera?

Amore, só saio daqui quando você quiser. Por mim podem vir várias, seu safadinho. (apertando-lhe a bochecha como em um episódio do Pica-Pau e Leôncio)

Enquanto isso, um grupo de engravatados, cara pálida, entra no bar, bem próximos um dos outros, mesma altura, mesmo porte. Agrupam-se na lateral do bar, esperando o garçom juntar as mesas. Espantosamente, todos eles fixam os olhares em Danielzinho.

daniel-lopes

 

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