Fernanda Chiella

Supersynch (Webcomic), Guia Culinário do Falido (Balão Editorial)

 

Quer pedir um café? Suco?

Eu pediria o sangue dos meus inimigos, mas é meio cedo pra isso. Traz a IPA mais violenta que tiver e uma pizza de inhames vivos.

Seu desejo é uma ordem! (ao garçom) João, trás duas Juan Caloto pra gente e uma pizza de inhames vivos, que hoje é dia! (à Fernanda) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

As melhores e as piores coisas da vida são as desnecessárias gatan, manda ver.

Sempre! Que diabos, Fê, que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

HAHHA! Essa é uma ÓTIMA pergunta. Bom, não vou citar todos os traumas de infância que me fizeram surtar porque é mal com meus pais, eles fizeram o melhor que podiam, mas eu acho que todo artista é uma pessoa carente de atenção. Principalmente os de HQ, porque o custo/benefício dessa parada é brutal.

Nem me fale.

Um certo nível de inaptidão social vai bem no caldo também.

João traz as cervejas trincando e diz que em seguida trará a pizza. Deisy propõe o brinde:

À inaptidão social! (tim-tim)

(Depois de um longo gole) Foi basicamente assim, quando a gente ,  eu e meu irmão,  chegou na adolescência, ele começou a tocar baixo e fez uma banda. Nosso lance era a música, a gente descobriu Iron Maiden e se achava muito do mal aos 13 anos, só que eu na época achei que não levava jeito pra tocar nenhum instrumento, e meu irmão ficou muito foda no baixo, muito rápido. Como a concorrência com ele era opressora, comecei a desenhar, era a minha forma de chamar atenção.

Aí, quadrinhos, foi porque… foi por causa da Becky Cloonan. Assim, quase tudo que eu gostava vinha de ambientes muito dominados por homens – Metal, videogames, mangá e quadrinhos de super herói… não preciso nem listar a quantidade de problemas nessas coisas aí. O fato foi que eu li DEMO e pirei no traço dela, era meio mangá jogado solto com uma arte final em nanquim que gritava punk rock, e não deu outra, fui atrás de saber como ela era e vi que ela também curtia metal, se influenciava muito pela música e cena underground. Alguém com quem eu pude me identificar tanto que me caiu a ficha do “ei, se ela é como eu, e tá fazendo quadrinhos, talvez eu pudesse fazer esse negócio também”. DEMO também me fez ver que eu não ia precisar desenhar algo totalmente mangá ou totalmente comics super-herói. Meu traço na época era aquele amálgama brega das duas coisas, enquanto que o da Becky era a mesma coisa só que bem mais COOL… Haha, eu tento ser menos brega hoje em dia.

Ah, pára, não vejo nada brega no seu trabalho. (o garçom traz a pizza que parece incrivelmente boa) Sabe, pensei que você fosse pedir uma Mad Coxinha Road Fury(risos) O que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica, mulher? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Bah, muita coisa. Eu gosto de coisa feita por gente maluca, basicamente. Isso se aplica a quase tudo, não só quadrinhos, mas música, cinema, literatura, moda, etc..  Eu prefiro ouvir a opinião de quem tá constantemente puto/a e a fim de botar fogo em alguma coisa, não de quem tem a vida fácil e acha que tudo são borboletas.

Tô contigo nessa.

Odeio ler coisas que eu já sei como vão acabar. Gosto que me mostrem beleza na feiura. Gosto de coisas bonitinhas e fofinhas também, mas elas têm que ser honestas, não gosto de gente fingida.

Mas eu acho que eu confundi essa pergunta…você quis dizer em termos de técnica de narrativa?

Não, de uma maneira geral mesmo. Mas, meu, pode mandar sobre a técnica também.

Acho que a técnica em si é meio secundária pra mim… O principal mesmo é a ideia. É claro que quanto mais domínio de técnicas o autor tiver, melhor, mas às vezes o exagero em inventar firula de linguagem pode matar a história – eu cansei de Promethea por conta disso, mas ainda vou tentar ler outra hora… Eu gosto das histórias focadas em personagens, então gosto de técnicas de câmera que te põe dentro do cenário junto, closes e etc. No fundo no fundo eu gosto de novela. Só que eu gosto das boas.

Ainda não tive tempo de ler Promethea. Vai por essa linha, é? Que coisa… Já que é assim, o que te broxa mais? Perguntinha, hein? (rindo enquanto leva o copo a boca)

Mais do mesmo. Cagação de regra. Preconceito. Bundamolismo. Machismo. Capitão América. E sapatos marrons.

(Cospe a breja numa risada que explode) Desculpa, hahahhaa, não necessariamente nessa ordem! Você é foda, Fê.  Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

A minha ideia é que na esmagadora maioria das vezes é desnecessário. É coisa pra vender pipoca e boneco. A história já foi contada, a mensagem já foi passada, se bobear ainda acabam cagando com as personagens ou passando por cima da ideia e da vontade do autor, vide V de Vingança/Watchmen… Vide aquela cena perturbadora no Azul é a Cor Mais Quente. Vide Robocop, Homem-formiga, Juiz Dredd, quem é que precisava ver essas histórias de novo, que saco…

Essa onda de filme de super herói mesmo… olha, eu gosto de X-Men, existe a fangirl em mim que gostou de ver a Kitty Pride e o Wolverine se mexendo na tela, mas eu não aguento mais… Eu quis bater em todos os meus amigos com essa onda de Deadpool, você não pode falar que não gosta porque de repente ele virou a coisa mais genial do universo desde a batata frita.

Tô cagando pro Dead. Vontade zero de ver.

Como disse essa pessoa –  http://womenwriteaboutcomics.com/2016/03/11/tank-girl-still-girl-want/ – aqui,  a Tank Girl Já era o Deadpool antes do Deadpool existir.

E, pelo visto, bem melhor.

E convenhamos, é tudo meio tolo demais. Foi divertido no começo, mas agora eu já vi os super-heróis pulando pra lá e pra cá, Hollywood não tem mais o que fazer com eles além de rinha de galo, e as pessoas ficam arrancando cabelo porque o olho do Homem-Aranha pisca ou não pisca! Porra!! (Deisy se racha de rir) Chega, por favor. Que vergonha. Eu vejo os filmes se anunciando em termos de qualidade técnica e número de pelos de CG e isso me cansa. Pra mim o ato de transferir a história pra tela devia me proporcionar uma experiência completamente nova, e não ficar discutindo brilho do collant de marmanjo.

Mas isso é o que o Hayao Miyazaki disse uma vez sobre os animes. Parece que os novos roteiristas nasceram dos animes e o que produzem só tem referencial dentro deles. Não possuem vida real. O Miyazaki é o que é por se basear em pessoas reais, situações reais. A mais vida nele do que em toda essa linha de filmes da Marvel que se faz na punheta. Vamos ser queimadas em praça pública agora? (risos. As duas enxugam suas cervejas.) João, traz mais duas que essa aqui não deu nem pro cheiro. “Plis”! (à Chiella) Mas Fê, essa questão de citar uma HQ para virar filme, é mais um ensejo financeiro do que qualquer outra coisa. A venda da cessão dos direitos autorais para o cinema é a única forma de se ganhar uma grana com quadrinhos. Caso contrário, é viver à deriva. Salvo alguma venda para o mercado gringo. As editoras lá de fora pagam adiantamento, não? Ainda assim não chega perto do que é vender uma HQ pro cinema.

Eu sei, eu sei, mas eu queria reclamar, você fez eu acreditar que sou uma pessoa importante aqui. Mas OK, vendendo o peixe do colega então: eu acabei de ler Aventuras na Ilha do Tesouro do Cobiaco. Eu ia gostar pra caralho de ver a arte desse bicho se mexendo de alguma forma, porque o negócio é TENSO de tão bonito. Uma adaptação animada disso com certeza seria uma experiência e tanto.

João traz as brejas trincando novamente.

AH, e ELRIC. Sou muito fangirl do Elric. (Elric de Melniboné, do Michael Moorcock, tem várias adaptações em quadrinho ) Ele é tipo o Conan ao contrário. O universo é parecido, tanto que eles até coexistem no gibi do Conan. Mas ao invés de ser um brutão que não gosta de magia, ele é um ex-nobre, bruxo, maldito, emo… *suspira* como não amar. Tem elementos do universo do Elric por todo lugar no meio metal e muita gente não sabe (Stormbringer, Hawkwind, Tanelorn, etc.. ) Esse é o filme que eu muito queria que fosse feito e ao mesmo tempo morro de medo de ficar ruim…

Concordo. É um tipo de filme que a chance de ficar ruim é imensa. Já a HQ do Pedrinho, se fosse feita pelo pessoal que produziu o Menino e Mundo, ia ser lindo. Vai, Fê, mete aí na mesa uma quadrinista foda (fora a extremamente citada Brechdel) e porquê?

Realmente A Brechdel é foda. Vou falar de várias, dane-se.

Deisy pisca enquanto bebe a Juan no gargalo.

Eu gosto da Kelly Sue Deconnick. Tenho uma tatuagem de non-compliant, a única que eu fiz até hoje, e vários dinheiros gastos em dólar (que dor no peito) pra comprar o Bitch Planet pela Comixology… tá difícil comprar agora.

Deixa eu ver? (esticando a blusa da Fernanda, um gesto quase sexy) Que massa!

Eu gosto porque ela é assim bruta, vamos combinar que pra intitular seu trabalho com ‘bitch’ qualquer coisa você já tem que ter a pele grossa, tem que se preparar pra todo tipo de reação boçal.  Eu bem sei, já tive momentos tensos explicando a tatuagem pra uns incautos por aí. Pretty Deadly é lindo, ela deu uma ressuscitada na capitã Marvel , isso eu não li ainda, mas o Jeito como a Kelly reúne as fãs dela em grupos e movimentos é uma coisa linda de se ver… eu acompanho aqui meio de longe, mas já cansei de chorar (de verdade) lendo a seção de cartas de Bitch Planet. Não é publicado aqui ainda, acho, mas devo dizer que quem faz as cores disso é a Cris Peter. (sorrindo)

A Lovelove6. Eu queria ter a coragem de falar dos assuntos que ela fala, e a perspicácia também. A arte dela é violenta e sensual e séria e fofa ao mesmo tempo, e eu tenho certeza que ela incomoda, confunde e horroriza muita gente. Por isso ela é foda.

E sem essa de ph. Ela é foda mesmo!

Eu falei da Becky, hoje em dia eu não acompanho tanto o trampo dela… Mas ela sempre vai ser importante pra mim por causa daquele sentimento de identificação absurdo que eu senti. Eu trocava mensagens com ela pelo Deviantart, perguntei se ela ainda tinha zines pra me vender, em vez de me vender ela me enviou alguns pelo correio, de graça… coisas de xerox e grampo mesmo, nanquim sujando tudo nas páginas, era lindo de se ver. Eu gostava muito de um quadrinho que ela publicou pela TokyoPop, o East Coast Rising, que não sei se ela chegou a terminar. Era uma ideia de waterworld com piratas punks, na costa leste dos EUA. Tinha tartarugas gigantes e um kraken com cabeça de caveira… pô, isso sim era a coisa mais legal do mundo. Só faltava o Bobby Blitz de capitão de navio. https://rullerusk.files.wordpress.com/2010/08/eastcoast2.gif 

http://www.boltcity.com/blog/eastcoastrising_spread.jpg 

Porra, deixa eu respirar aqui. (trabalhando os copos) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Não li esse quadrinho não, mas fiquei interessada.

Puta narrativa.

Quanto a cena, acho que a coisa que mais me impressionou em junção de ideia com narrativa gráfica de HQ até hoje foi o ‘Coyote Gospel’  do Animal Man. Já faz tempo que eu li, só lembro que aquilo me pegou de surpresa que nem um tiro de canhão. Maldito Morrison.

A cena do pescador no lixo em Habibi, do Craig Thompson. Esse livro todo é uma paulada, tanto no tema quanto na execução, passei uma semana em posição fetal depois de ler.

E ainda mais recentemente.. as Aventuras na Ilha do Tesouro, de novo, várias cenas me deixaram tocada e eu ainda nem entendi o porquê direito. Eu devo ter algum problema com tartarugas gigantes. Só sei que esse guri é foda.

Qualquer dia a gente marca uma breja juntos. Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse uma personagem feminina ou masculina dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

FÁCIL, muito fácil, eu queria ser a Jenny Sparks, comandar o Authority, tripular a balsa com gatos, cachorros e todas as pessoas que eu gosto, explodir essa merda toda e dar o fora daqui.

Hahahaha, imagino que a próxima pergunta não será problema. E extremamente desnecessária. Do jeito que a gente gosta! Você tá na pele da Jenny e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora? Até sei a resposta… 

Bitch, I’m Jenny Sparks. Eu tenho o Apollo e o Midnighter. Eu tenho a Engenheira, eu tenho o Doctor. Eu tenho gatinhos! Não tenho que me preocupar com porra nenhuma.

Arregaça com tudo, Jenny! Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera. Como foi para você ser abduzida?

Achei supimpa e divertido. Só que da próxima vez podia ter mais batata frita. E tartarugas gigantes.

E quem disse que não tem tartarugas gigantes? Olha só aquilo!

Lá fora, um monte de tartarugas gigantes atravessa a avenida calmamente sem pisotear nenhum dos carros. Esbarram em um ou outro mas nada grave. Dá pra sentir o impacto no chão. Tum! Tum! Tum! Todos vão lá pra fora assistir ao espetáculo. Elas são lindas. Imensas. Devem ter uns seis metros de altura. Caminham em direção ao mar.

Ao lado da Fernanda, admirando tudo aquilo, diz:

Fê, obrigada pela entrevista, gata. Bora pedir mais uma?

Mas é craro!

fernanda-chiella

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