Laerte

Deus Segundo Laerte (Olho D´água), Histórias Repentinas (Devir), Muchacha (Quadrinhos na Cia), Vizinhos (Narval Comix), Lola (Editora Cachalote), Manual do Minotauro (Web)

 

Estou tão nervosa… Eu cresci, não se sinta ofendida com o que vou dizer agora, Laerte, cresci lendo seu trabalho. Você me influenciou de muitas maneiras. Você é minha heroína de todos os tempos! Não queria começar rasgando essa seda, mas aconteceu… (risos) Você é inevitável. E te-la aqui comigo… Espero não acordar nunca mais! (recompondo-se) Bem, querida, quer pedir um café? Suco?

Café – carioca, tem?

Tem! (ao garçom) João, vê dois cafés pra gente. Um carioca, tá? Obrigada.

Seda rasgada é como leite derramado: agora já foi… Fico meio constrangida, pra falar a verdade.

Ah… (segurando a mão da Laerte) fique não, por favor… Não foi minha intenção. Por outro lado, você fica tão graciosa assim. (piscando) Não sei se tenho a cara de pau de falar isso, mas vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Beleza.

Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos?

Aposto que você pergunta isso pra todas!

Hahaha, você me pegou!

Eu descobri que desenho era uma coisa especial pra mim acho que ainda na infância.De desenhar como toda criança passei para um outro nível, em que o desenho funcionava de modo especial. Quer dizer, deve ter sido assim, não lembro. Esse modo especial envolvia poder manobrar as histórias, que eu lia e via em revistas, livros, televisão, cinema etc. – poder ter algum controle e participação nelas. (o café é servido) E a narrativa gráfica leva sempre pra quadrinhos.

Sempre. E o que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

É poder me entregar para a história, esquecer que ali há trabalho de gente roteirizando e desenhando.

E quando a gente percebe, a estação do metro onde íamos descer já passou faz tempo. Não dá nem pra ficar chateada com isso. É o tipo de contratempo que eu gostaria de ter cada vez mais. E o que é mais broxante?

Acho que é quando quem fez a história se deixa vir para o primeiro plano, liquidando a relação funcional que a parte técnica deve ter. Quando percebo que a pessoa faz questão de exibir músculos, entende? “Veja como eu desenho! Sinta que roteiro genial!”…

Um porre! O autor ou autora tem que morrer para a história ter vida, não é? Morram à vontade. Uma vez o seu filho foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Concordo com o Rafa – quadrinho fazia planos e enquadramentos antes do cinema.
Quadrinho pra ver em cinema? Acho que a série Dykes to Watch Out For, da Alison Bechdel, renderia muito bem. Se já não fizeram. Fizeram?

Não, acho que não. Meu coração não aguentaria…

E O Beijo Adolescente, do já solfejado Rafael Coutinho. Acho que penso mais em série do que em longa-metragem.

Uma quadrinista foda (fora a Bechdel que já foi citada várias vezes) e porquê?

Rutu Modan. Lindo desenho, tão simples, tão forte, tão preciso.
As suas histórias seguem esse caminho: simplicidade, força, precisão.

A Propriedade foi uma das melhores coisas que li ano passado. Todo aquele naturalismo de cena, de gestos… Depois você descobre que ela usou atores reais para isso. Meu sonho de consumo. Sem falar que seria um facilitador. Bem, não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Não li essa história…sim, muitas cenas me impressionaram bastante. Difícil separar por cena, acho que misturo com a história toda. Vou citar um episódio do Ken Parker, onde ele cruza com Ambrose Bierce, ambos caçando, e ambos acham que deram o tiro que matou a caça – um cervo. Na verdade essa é uma “running scene”, porque o episódio se compõe de várias narrativas do Bierce, intercaladas com a conversa deles em torno do fogo e do animal sendo assado e comido. O jogo de versões da realidade, onde entra a dedução, a ficção, o truque etc. – é fascinante. Roteiro de Berardi, desenhos de Millazzo.

Meu deus! Preciso ver isso. Não conhecia essa do Parker. E adoro o Bierce. Curiosamente, conheci um contista que também era de Ohio, uma geração anterior ao Bierce, Sherwood Anderson. Conhece esse? Ele tem uns contos esmagadores! Vou te fazer uma pergunta indecente, meu anjo. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse uma personagem feminina ou masculina dos quadrinhos, quem você seria? Desculpa.

Está desculpadíssima! (um sorriso rasga as bochechas de Deisy) Eu gostaria de ser o Hobbes (Haroldo), o tigre do Calvin. Conta como masculino?

Conta!

Então, feminino, gostaria de ser a Madame Min.

Madama Mim da Disney?! Que sensacional, hahhaah!! Agora imagine que você está na pele dessa personagem, Laerte, e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Ah, era pra escolher masculino ou feminino.

Era.

Então, o Haroldo. Meu futuro ficou desesperador. Não sei, acho que você vai ter que filtrar um pouco mais, pode ser? Desespero pode ser muita coisa, as conseqüências são muito variadas!

Ah, sim, sim! Sabe que você é a primeira a questionar sobre o “futuro desesperador”? Você é foda, Laerte! Danadinha… (risos) Então, segura que a coisa é tensa, meu amor. (uma luz imediatamente dramática recai sobre a mesa onde elas estãoFuturo financeiro em ruínas, distância de todos os amigos, a única coisa que lhe trazia paz de espírito não existe mais, o mundo em colapso social. O que você como Haroldo faria algora?

Como Haroldo, buscaria as selvas, viveria de caça. Um pouco de atavismo deve existir debaixo daquela pelúcia toda.

Sem dúvida alguma. E o que você faria enquanto Laerte? Falei que você era inevitável! (risadinha tímida)
 
Tenho um plano, há muitos anos, que é de sair pelo mundo pintando murais onde pedissem. Faria painéis em bares, incluindo o proprietário em cenas com ninfas ou em gôndolas, faria afrescos em igrejas, em sedes de clubes ou de partidos políticos. Por dinheiro ou em troca de comida.

Hahhahah, “em troca de comida” foi foda! Última pergunta, querida, e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera. Como foi para você ser abduzida?

Está sendo, ainda…

Antes que Deisy possa agradecer a entrevista e sugerir uma sobremesa como é de costume, as duas percebem que a mesa está trepidando. As xícaras começam a se movimentar sozinhas. Há um tremor geral. Algo em torno de quatro ponto zero na escala Richter. Garrafas e copos espatifam no chão. Os olhos de Deisy e de todos ali parecem saltar, menos os da Laerte que apruma os óculos com a maior naturalidade do mundo. A claridade lá fora se intensifica. Um senhor que tentava se equilibrar caminhando para a porta da frente, cai duro. Parece ter quebrado algo dentro dele. Um grito pavoroso oprime o cérebro de todos. Dito e feito! A luminosidade é tão forte que parece apagar os limites do bar. Em meio ao desespero, todos tentam se agarrar a alguma coisa. A geladeira se abre. Algumas garrafas cortam o ar. A sensação é a de que o lugar está saindo do chão. O luminoso com o cardápio despenca. Janelas se quebram. Laerte tenta acalma-la, dizendo que tudo isso vai acabar em instantes. Deisy olha em seus olhos e pela primeira vez em toda sua vida, sente-se segura finalmente.

laerte

 

 

 

 

 

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