Marcello Quintanilha

Hinário (Veneta), Talco de Vidro (Veneta), Tungstênio (Veneta),
Querido, obrigado por vir antes de voltar ao velho continente. Quer pedir um café? Suco?
 Hm… café…
Também vou de cafezinho. (ao garçom) Oi, João. Vê dois cafés puros pra gente? Obrigada. (ao Marcello) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?
Se você prometer não parar…
Me deu até um calor agora… (com malícia) Prometo, meu lindo. Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos?
Não sei se posso dizer que me resolvi por isso em algum momento, porque faço quadrinhos desde que sou capaz de me lembrar; então, pensar uma história, desenhá-la; consequentemente publicá-la, tem feito parte da minha vida de modo cotidiano.
Chegam os cafés. 
Obrigada. (ao Quintanilha)  O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (ambos tomam café sem açúcar)
Há muitas coisas, há muitas coisas… Artistas que sejam capazes de criar uma identidade gráfica, traduzida em um traço pessoal, elevando cada um dos elementos que compõem a narrativa, sejam personagens, objetos, canaletas, balões, etc., à condição de personagem em si mesmo.
Sei que parece relativamente óbvio, mas, na verdade, não é tão simples assim…
Depois de um tempo a gente aprende que não existe trabalho simples.
Compreender que, ao desenhar uma pedra, Jack Kirby a traduzia segundo sua ótica pessoal de conceber uma determinada coisa, aplicando sobre ela o mesmo critério empregado na concepção dos elementos, digamos, “principais” — os personagens, por exemplo — consequentemente elevando-a à condição de personagem em si mesma, seria suficiente para exemplificar, dar forma a essa afirmação; não fosse pelo fato de que, ao elevar uma pedra, ao elevar cada um dos elementos da página à condição de personagem, Kirby ultrapassava esse critério de tradução prescindindo das referências “naturais”, recodificando todo um estado de coisas não meramente sob um estilo pessoal, mas à partir de um entendimento pessoal da concepção da forma propriamente dita. Absolutamente fascinante.
Absolutamente.
Artistas que sejam capazes de colorir sob princípios de “luz” e não meramente de “cor”, como Max Cabanes ou Rubén Pellejero, por exemplo, a ponto de que não possamos distinguir quais são efetivamente as cores próprias de cada um dos elementos que compõem a imagem, uma vez que todos se submetem a condições de luz que lhes impõem tonalidades constantemente mutáveis.
A capacidade de Dino Battaglia de introduzir o espaço não preenchido como elemento da composição da imagem, utilizando-se, assim, e algo que poderíamos definir não por “vazio”, mas, mais corretamente, na minha opinião, como “não desenho”, no qual, a partir deste espaço não preenchido, subentende-se a matéria que o preenche.
A narrativa de Franz Drappier, que submetia a percepção do desenho à condição mesma da leitura da página, numa dinâmica na qual era impossível captar, seduzir-se, interessar-se pelo desenho a não ser através da leitura efetiva de todo o conteúdo da história, só então abrindo campo para o entendimento da intrínseca mecânica através da qual se desenvolve a ação.

 (Boquiaberta, voltando aos poucos)  Acho que vou precisar de um tempo para digerir tudo isso. (risos) Sobre o “não desenho” ao qual você se referiu, acredito que seja o espaço negativo da figura (mostrando uma ilustração de Battaglia onde tudo está pintado, o mar, a embarcaçao, o céu, menos o rabo de uma baleia). Posso estar enganada, mas no Asterios Polyp há uma cena onde a personagem feminina discorre obre isso. Realmente, não vejo sendo algo explorado como poderia. Quanto a página num todo, seria bom entende-la com um veículo que dá corpo ao seu significado. Como você disse, Franz entendeu isso e muito bem. Aidan Kock, Geran Knol também não ficam atrás. 

Hm… Não exatamente… Há, pelo menos, dois pontos de discordância aqui. O primeiro diz respeito à noção de espaço negativo… Embora haja uma natural indução a esse entendimento, é preciso primeiro estabelecer uma diferença entre “espaço negativo” e imagem “em” negativo, que são coisas radicalmente distintas.
Na imagem de Battaglia que você mostrou, o “espaço negativo” é o espaço em volta da figura que permite conceber a forma da baleia como tal. Portanto, justamente o espaço preenchido; enquanto a forma da baleia propriamente dita poderia ser entendido como um espaço “em” negativo, embora essa definição, neste caso específico, possa suscitar discussões.
É um exemplo interessante, mas minha perspectiva sobre o “não desenho” vai um pouco além disso…
Entendo por “não desenho” a propriedade de um determinado campo não preenchido ou definido pelas delimitações de quadro se constituir em matéria complementar à imagem, delimitando, eles mesmos, o espaço a que determinadas cenas estão circunscritas, constituindo-se em um elemento que consolida a ideia de construção da página como unidade narrativa, ou seja, que todos os quadros estão agregados de forma interdependente na página, de modo que sua leitura se condiciona ao entendimento da página como um todo.
Quanto ao segundo ponto — e conquanto não seja uma característica que tenha perpassado toda sua obra —, é importante ressaltar que o trabalho de Franz, na etapa que mais me interessa; ou seja, em sua época madura; na verdade, seguia um caminho diametralmente oposto ao sugerido por você, e também à forma proposta por Aidan Kock e Geran Knol, justamente por retirar da página o caráter de unidade narrativa, transferindo esse caráter ao quadro propriamente dito; o que significa dizer que a construção ou sucessão das páginas não interfere na dinâmica da leitura.

Meu amor, concordo em gênero e grau. Confesso que havia entendido errado. (sentindo-se abençoada) Bem, continuando – e confesso que tenho até medo de fazer essa pergunta  e levar um dano. (sorrindo) O que é mais… (escolhendo melhor a palavra) insípido na narrativa gráfica?

Artistas que subvertem a HQ àquilo que querem impor como uma proposta pessoal, no sentido de que trabalham para que seu suposto “estilo” — gráfico ou narrativo — se sobreponha à história que aparentemente querem contar, colocando-a a serviço daquilo que pretendem estabelecer como “pessoalidade”.
Autores que se considerem mais inteligentes que seus leitores, a ponto de rebaixar as premissas através das quais narram suas histórias, estabelecendo um patamar que tem por objetivo tornar o trabalho mais “palatável”, mais acessível, a um suposto maior número de leitores.
Uhhh, estou completamente frígida aqui, Marcello…  (fazendo biquinho antes de soltar o riso) Tem um pessoal que não saiu do Eclesiastes. “Vaidade das vaidades, era tudo vaidade…Vamos sair da vaidade e ir para o onde o calo aperta. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.
“Bodinho vai ao paraíso”, de Flávio Braga e Juska.
Tá certo. (sorrindo) Uma quadrinista foda e porquê?
Rutu Modan, pela coesão na construção dos personagens e situações, lançando mão do desdobramento mecânico na forma de narrar, herdeiro da linha clara.
Deus abençoe a linha clara. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?
Existem muitas… a sequência da tentativa malograda de fuga de Bruce Banner na história “Psicose do medo”, de Bill Mantlo e Sal Buscema.
Vou tentar uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.
Lester Cockney.
Imagine que você está na pele do Lester e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?
Rumar para Kabul, ora.
Mas é claro! (sorrindo) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Marcellão. Como foi para você ser abduzido? 
Hm… Bom, foi um pouco incômodo porque dificilmente me sinto confortável quando percebo que sou parte dos planos de outras pessoas… Quer dizer, não sei exatamente o espaço tenho pra me expressar e sempre penso que posso ter sido indelicado ou desrespeitoso em algum momento… Mesmo que estas não tenham sido minhas intenções… Às vezes é difícil medir isso… E sim, já ocorreu em outras ocasiões e até hoje me penitencio pelo meu comportamento…
Você tem alguma ligação com a Opus Dei? Brincadeira! (ri nervosamente) Obrigada pela entrevista, meu caro. Aceita uma sobremesa?
 Hm… mais café seria legal.
João!
marcello-quintanilha
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