Mazô

Ateneu (Independente), DDN (Independente), Restinga (Independente),

várias publicações no Jornal Altamira.

 

Quer pedir um café? Suco?

Água e Rivotril, por favor.

Será que eles tem Rivotril aqui? Acho difícil, Má… João, (ao garçom) vocês tem Rivotril aqui? 

Temos.

Ah, que bom! Vê uma água, um Rivotril e pra mim… um macchiato, por favor. Obrigada. (à Mazô) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Mazô assente com a cabeça e massageia as têmporas distraidamente.

Que diabos aconteceu com você para resolver vender quadrinhos? 

Foi um chamado do coração de Kandrakar.

Vixe!

Na época eu não tinha consciência da roubada, né? (risos)

Põe roubada nisso.

Inclusive eu já quase parei, cheguei a apostar com o Pedro Cobiaco de que não lançava mais quadrinho não… Então o Gabo apareceu na minha vida e foi tanta pilha que rolou até o jornal Altamira.

Que beleza! Ainda bem, pô.

Mas sério, comecei a desenhar quadrinhos porque fui me apaixonando por graphic novels e a princípio eu não tinha muitas ideias do que desenhar – coisa que sempre fiz desesperadamente – até que percebi que seria uma boa forma de determinar o que eu ia desenhar.

Massa. E o que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade, querida.

Excitada? Hmm.. tenho que admitir que a primeira coisa que me faz desistir de um quadrinho é a parte visual. Se não for propositalmente cagado, se for aquela falta de sofisticação por incapacidade, aí eu não tenho saco. (Deisy risca a pergunta sobre a broxada) Em oposição, ver um quadrinho que apele pra mim fora do meu gosto óbvio é algo que me atiça… especialmente se tiver algum elemento de visualidade e conceito que eu possa desligar do cânone. Quanto mais ousado, mais me excita. … com coesão, é claro.

Coesão e camisinha não podem faltar NUNCA!

João traz os pedidos. O Rivotril vem em um pires. Vai saber se aquilo é Rivotril mesmo. Mazô não quer nem saber, atira goela abaixo. 

Obrigada, João. (à Mazô) Acho que na próxima vou pedir um “Rivo” pra mim também. (bebendo o macchiato) Hmm, eu comecei a pedir isso aqui depois do Lielson. Bem bom. Quer provar? Se bem que cafeína com Rivotril não deve fazer muito bem, não, né?

Olha, cafeína com dor de cabeça vai muito bem, mas eu não gosto de café, pra contrariar.

Então deixa quieto. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Nenhum. Quero ver um quadrinho ser feito em formatos inusitados. Eu diria que não, não ousem então, e deixem toda a diversão e reconhecimento pra mim (risos).  Adaptação é uma coisa que eu não entendo… pra que adaptar coisas que já estão perfeitas na mídia que o autor escolheu? Já de saída você pode ver que não sou uma pessoa que pensa no comercial.

Não mesmo. Ainda acho que é a situação onde realmente se ganha uma grana com quadrinhos. Fora isso é amor demais para tanta página! (risos)

Já disse e vou continuar repetindo: o quadrinho tem potencial não aproveitado formalmente infinito. Sempre terá, mas a caretice tá tanta que tem um milhão de coisas que qualquer um poderia pensar e começar a fazer. Não, esqueçam a narrativa que já foi esgotada – isso é como tentar inventar uma melodia nunca tocada antes. Vejo uma necessidade de atualização na mentalidade das pessoas, quer dizer, esse é meu desejo, porque acho tudo muito chato, inócuo.

Nisso o livros infantis ganham de lavada. Eu vejo muito mais experimentalismo e ousadias editoriais nos infantis do que nos quadrinhos. Uma coisa que ultrapassa a ilustração e atinge a parte física do livro. Até a textura é explorada. E tem cada coisa incrível, meu… Um dos livros que mais me emocionaram está classificado na literatura infantil. E essas editoras costumam pagar adiantamento. (golinho no café) UmA quadrinista foda (fora a Brechdel) e porquê? 

Vi na sua conversa com a Puiupo que ela falou de mim.. fiquei feliz, até fui falar com ela.

Olha! Não sabia que alguém que tava lendo essas coisas. A Paulinha, ela é um amor. Dá vontade de morder o narizinho dela.

Não é retorno de favor, eu realmente considero dela o melhor trabalho, com mais potencial nos quadrinhos. Fora ela, tenho muito carinho pelo que a Kita tá inaugurando nos trabalhos dela, mas é muito multidisciplinar ainda, e também não desejo quadrinhos pra ninguém. (risos)

TOVE JANSON!

Sim!

Descobri recentemente com o Moomin da Bolha, nossa, é hilário! Gosto de ler antes de dormir.

Que meigo…. Eu também faço o mesmo.

A Nacha Vollenweider foi uma puta descoberta ano passado também. Ai, tem tantas, né? Aidan Koch, Jillian Tamaki

Aidan! Meu, amo essa mulher! Ninguém tinha citado ela ainda. Tava entrando em depressão já.

O próximo Altamira vai tar recheado das melhores minas, a Tais Koshino,

Oh!

Aline Lemos…

OH!

Tem muita coisa boa vindo, confio.

Cegamente.

E a Tais tem dessa pegada que eu falei, de abusar da opacidade.

Conheço nada dela. Mea culpa. Mas vou fuçar.

Queria aproveitar o momento e o contexto pra dizer o quanto foi importante todo o movimento feminista dentro do cenário dos quadrinhos para eu começar a trabalhar com isso.

Estamos aqui pra isso!

Meu primeiro quadrinho foi no Zine xxx, quem meteu pilha foi a Bea, sempre vou ser grata a ela por isso e por toda a iniciativa. Nunca fui tão bem recebida dentro do circuito como pelas minas e não qualifico meu trabalho como “sobre o universo feminino”, mas não posso deixar de considerar o quanto ser mulher influencia no meu trabalho, primeiro por até hoje existir desigualdade entre gêneros (não é mimimi, não é ficção, não se confundam quadrinistas), (risos) segundo porque por eu ser feminista, este aspecto da minha existência atravessa meu trabalho, como milhares de outros.

Não precisamos esconder quem somos, Má. E isso não significa reducionismo, pelo contrário, é ampliar a gama de possibilidades literárias, trazendo mais legitimidade ao que se escreve. Tudo bem que a mentira é o osso da literatura, mas a carne tem que parecer real, tem que sangrar! E tem essa outra questão também. Esse cara que acha que se um quadrinho é feito por uma autora só vai ter menstruação e romancezinho é de fudê. O que você tem é quadrinhos. Não importa se foi  mulher, homem ou Alfie, o ETeimoso que fez. É a porra de uma história em quadrinhos! Ela é boa ou não. “Nuossa, mas vocês tão exagerando. Não rola essa desigualdade, não.” Faça o teste: Cubra o nome da autoria de alguns quadrinhos e dê pra vários marmanjos lerem. Os que são foda, ele vão dizer que são foda. Retire o lacre. Dentre os bons quadrinhos, os que eram de uma autora, correm o risco deles voltarem atrás. Sempre tem os que dizem “é, é bom, mas vendo bem agora não é tão bom assim” e apontam mil defeitos que antes não existiam ali. Se fosse um qualquer, a gente relevava. Se você é formador de opinião, você deveria fomentar o acesso a diversidade, gerar o debate, propor novos caminhos. E não ser algo do tipo “você tem que gostar do que eu gosto”. Isso não é formar opinião. Pelo menos pra mim. Como se posicionar contra desigualdade de gêneros também não é vitimismo, é bom senso. (virando-se para a câmera imaginária) Só pra citar uma obra que tem um dos melhores desenhos dentro da narrativa – que é onde o bicho pega muitas vezes. Coração das Trevas. Vai lá. Dá uma olhada no desenho da Catherine Anyango e chore, meu bem. Mulher, negra e FODA! E que se foda o macchiato. João! (pescoçando o garçom) Traz uma breja bem gelada que agora eu engrenei aqui! (risos. À Mazô novamente) Vai de breja também? Quer pedir outra água?

(Ri) Álcool mais Rivotril dá muito ruim. Quanto em relação a dor de cabeça (gatilho), eu tô proibida.

Sei lá. (rindo) Eu já misturei cerveja com remédio para Mal de Parkinson, e vigemaria… Bem, vamos continuar nossa entrevista, né, Má? Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Vou escolher uma não cena, pelo menos na minha concepção. Adventures on a Desert Island, do Maciej, quando um dos personagens fala e aparece um balão de fala com um novo panorama da história, inaugurando uma nova sequência. Esse livro me bota nos nervos certos.

Uauu!!! Como não conhecia isso? Que foda! Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse uma personagem feminina ou masculina dos quadrinhos, quem seria? Desculpa. (João traz o pedido)

Um rico e sem dores de cabeça. Pronto. Se fosse um super-herói não ia adiantar nada também, porque eu (ainda) ia querer me matar.

Mata não, bichinha… Mata não… A dor de cabeça é tão intensa assim?

O ruim não é a intensidade e sim a constância. Parece que eu vou enlouquecer a qualquer momento…

Caceta. Sofri de otite aguda um bom tempo. Sei o que é enlouquecer por causa disso. Não sei como te perguntar isso, mas imagine que você está na pele dessa personagem e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Pular de página. (risos)

Eu pulo com você. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera, Mazô. Como foi para você ser abduzida? 

Molhado. Fui abduzida por um tubarão nos meus sonhos. Renasci. Queria ser abduzida de novo e que minha dor de cabeça passasse.

Oh meu deus… Linda, obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Não quero sobremesa, não, obrigada.

Nesse instante, entra um grupo invertebrado de melacuecas, carregando tochas à luz da tarde, rugindo feito um bugio. Partem com tudo pra cima das duas que são pegas de surpresa.

Ei, me solta, PORRA! (sacudindo-se com violência)

Mazô acerta uma joalhada triunfante em um deles. Com o susto à reação implacável, Deisy consegue se desvencilhar. Aproveita para quebrar a garrafa na cabeça do imbecil. Um golpe de caratê preciso da Mazô e outro vai ao chão. Alcança uma das tochas e soca entre as nádegas fartas! Por essa não esperavam. 

Não é a mamãe, não, seus putos! Querem sangue? VOU FAZER SANGRAR!!! (com a garrafa quebrada, voa pra cima do pescoço de um, abrindo um corte feio na jugular com vários golpes)

Mazô fura os olhos de outro com dedos mortais. A música começa. O grupo está disperso. As duas, emparedas. Eles são muitos. Mas elas dão conta.

mazo

 

 

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