Magno Costa

A vida de Jonas (Zarabatana), Oeste Vermelho (Devir), Mary (Balão Editorial), Matinê (Independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Café, preto!

Sou viciada! (ao garçom) João, manda dois cafezinhos pra gente? Por favor. Obrigada. (ao Magno) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Tudo bem… manda bala!

Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos, meu amigo?! 

Então Deisy … Eu sempre fui apaixonado por quadrinhos.. desde criança na verdade. Não fazia quadrinhos nem fanzine, mas desenhava super heróis e criava historias o tempo todo… Tenho histórias de quando eu era adolescente que ainda hoje poderia trabalhar em cima. Mas foi em 2008 que decidimos (Eu e Marcelo Costa) fazer algo de verdade. Lembro que o Marcelo chegou e me disse… “Mano, agora é sério. Quero algo pra desenhar. Pensa ai num roteiro bacana pra eu fazer”. Eu respondi todo entusiasmado. “Cara, tenho uma história de faroeste, mas é com ratos contra gatos”. Contei todas as minhas ideias pra ele. Aí ele disse “Odiei”… Mas uma hora depois já estava me mostrando concepts dos personagens. (Deisy ri às pencas) Assim nasceu Oeste Vermelho. Depois da recepção linda que esse trabalho teve não conseguimos parar mais.

O mundo agradece. (o café é servido) Obrigada, João. (ao Magno) O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

O desafio de explicar uma coisa na folha que não consigo explicar com palavras. Quando começo o processo de criação e as ideias começam a aparecer, eu já começo a elaborar cenas importantes. Nessas cenas geralmente eu imagino como um filme… Então quero passar o som seco do disparo do revolver, o cheiro da grama molhada, a pressão no cérebro do personagem em um momento de angústia… Não tenho pena dos meus personagens e quero levá-los até as últimas conseqüências, mas isso é difícil e leva tempo. Esse é um processo longo, mas que pra mim não faria sentido se não fosse assim. (bebendo um gole do café)

Não mesmo.

Gosto também de explorar a narrativa… Fazer os quadros conversarem, o leitor pensar, mas sem deixá-lo perdido. Adoro quando mencionam alguma cena que eu fiz… Se o leitor pegou o gancho é porque fiz meu trabalho direito.

Nessa de levar o personagem até as últimas consequências, qual foi a pior coisa que você fez acontecer a um personagem?

A história seria diferente, mas resolvi matar a família toda dele. (estralado os dedos) Mulher, filhos e amigos. Atualmente estou fazendo coisas bem pesadas em minha nova HQ. (com um sorriso de orgulho)

Só falta ir ao cinema depois. (rindo com certa reserva ) Mas sabe, Essa coisa de espezinhar a personagem, espreme-la até sair caldinho pode parecer sádica, mas necessária, né? Vejo tanto autor poupando personagens em momentos críticos dentro de uma história, que não faz o menor sentido. Ele tinha que se estrepar ali, mas não! Fica parecendo aquela animação do Patolino onde aparece a mão gigante do desenhista e começa a sacanea-lo só que… ao contrário. Leio isso como preguiça de criar um problema para ter que resolver depois. Isso é broxante. E pra você, o que broxa mais?

Trabalhar em algum projeto que eu não acredite… Já passei por isso, e acabei desistindo. As ideias não funcionavam…

Não dá pra insistir em uma mentira, né, gato? Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Acho que ele tem razão, apesar de eu usar narrativa de cinema ou de animação para composição de cenas e de personagens. Gosto de quadrinhos próximos da realidade, e se penso em cinema consigo o que eu preciso. Mas sei que no final as narrativas acabam diferenciando-se. Cada um é lindo em sua maneira de ser. Talvez se você ler Jimmy Corrigan do Chris Ware ou Umbigo Sem Fundo vai achar que o cinema é o primo frustrado dos quadrinhos.

Hahahah, totalmente! Acho que o Joan Sfar poderia falar mais sobre isso. Chegou a assistir a alguns filmes dele?

Só o Gato do rabino… Não vi o do Gainsbourg.

Se bem que o Gato virou animação, né?

Mas ta aí a ironia.

Sim.

O Gato do Rabino é dirigido ou só adaptado por ele?

Putz, você me pegou. Vejo isso agora! (pesquisando no celular enquanto Magno trabalha no café) É, direção e roteiro. E algum quadrinho nacional que poderia virar filme?

Acho que Me and Devil do meu camarada Alcimar Frazão daria um puta curta metragem… Tungstênio do Quintanilha… Acho que o pessoal não se ligou ainda em fazer umas animações de Valente do Victor Cafaggi e Dodô ou Klaus do Nunes… Lógico, Cachalote do Rafa Coutinho. Filme foda pra caralho!

Siiim!!! Seria animal ver isso na tela. E não sei não, se isso já não está sendo negociado. Uma quadrinista foda (fora a Brechdel e Laerte que já foi largamente citada) e porquê? 

Eu citaria as duas, facilmente.

Por favor!

Não sou muito bom com nomes, igual meus amigos quadrinistas, por isso às vezes curto o traço de alguém e não me ligo se é homem ou mulher, e também não me interessa. Quadrinhos bom é bom…

Isso! É exatamente como eu penso. Conversei com a Mazô sobre isso esses dias.

Achava que Megg Mogg and Owl era feito por uma mina… (risada idiota pra disfarçar). Mas vamos lá… Lu Cafaggi e Bianca Pinheiro… Duas quadrinistas nacionais que tem um futuro brilhante pela frente!

Sou suspeita pra falar o quanto adoro essas duas. A Lu, eu tô salivando pra tomar um café comigo. Quem sabe ela faz a cagada de topar?? (risos) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. 

Li sim… Aliás foi o Rafa que me indicou em uma aula dele na Quanta… Li a versão em francês com um dicionário do lado…

Então você vai lembrar da cena debaixo d´água onde a moça diz algo e ficamos sem saber o quê. Aquilo me pegou de jeito, rapaz. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Existe sim… Essa é foda!! Gosto muito quando ele sobe nadando e parece que não vai chegar nunca. Me deu uma aflição.

Pô, em mim também!

Mas, vamos lá à pergunta… Esses dias eu citei uma cena de Tropa Alfa do John Byrne. A cena final, quando o Guardião explode tentando desligar os circuitos do uniforme… Aquilo me destruiu na época.

HAaahaah, eu lembro disso! É, cara, taí um ótimo exemplo de como levar um personagem às últimas consequências! (risos) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? 

Claro que pode. Posso pedir mais um café?  E uma coxinha? Todo mundo sempre me critica por misturar cafe com coxinha…

Hahaha, eles não sabem de nada! (ao garçom) João, vê mais dois cafés pra gente, uma coxinha e… ah, vê uma pra mim também, “plís”. (ao Magno) O mundo que se exploda! (sorrindo) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Ora, não precisa se desculpar. Acredito que eu seria o Snoopy, ou o Jimmy Corrigan. Sou do tipo que fica pensando na vida e extremamente calado quando sozinho.(afastando a xícara para um lado da mesa)

A morte da bezerra nunca foi tão triste… Bem, imagine que você está na pele do Jimmy Corrigan, vai, e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Eu não sei a resposta… Eu costumo ser bem calmo quando tudo tá ferrado… Talvez estes personagens não sejam uma escolha perfeita.

Não existem escolhas perfeitas. (o garçom traz o café e as coxinhas) Obrigada. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? (tascando a pimentinha)

Meio tenso… (ajeitando o guardanapo sobre a coxinha) Adoro falar de mim e responder perguntas, mas você me pegou em algumas delas… (mordendo a bichinha com todos os dentes para em seguida pingar a pimenta sobre o recheio)

Pegar é comigo mesma, gatinho! (morde a coxinha e fala de boca cheia, tapando-a com a costa da mão para não parecer tão mal educada) Obrigada pela entrevista, Magno. (bebendo o café com um pouco da coxinha ainda na boca) Não sei o que o pessoal vê de tão obsceno nisso… Gostou da coxinha?

Sim… gordurosa como eu gosto.

 

magno

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