Marcelo Costa

A vida de Jonas (Zarabatana), Oeste Vermelho (Devir), Matinê (Independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Café, sempre. Mas com açúcar.

É um direito seu. (sorrindo, pede ao garçom) João, traz dois cafés pra gente? Puros. (ao Marcelo) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Marcelão, tudo bem?

Bora.

Meu, que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? 

Acho que o Magno vai responder a mesma coisa, mas vamos lá.

Esses gêmeos…

Sempre curti essa coisa de fazer quadrinhos. Quando criança, desenhava em tudo que via, na terra, na borracha de apagar, nas últimas folhas do caderno. É, isso prejudicou muito na hora de estudar. (risos) Magno e eu tivemos que ser separados de sala, porque só ficávamos desenhando e conversando quando criança.

Ah, que chato… (o garçom serve o café) Obrigada, João.

Bom, (açucarando o café) mas a vida seguia e deixava sempre de lado o desenho, (mexendo a colherinha) dando prioridade ao trabalho (ganha pão) e aos estudos. Mas em 2008, vendo umas HQs na livraria, foliei uma nacional que me chamou atenção (não me lembro agora qual) e pensei – “eu posso fazer isso”. (suga um pequeno gole para não queimar a boca) Cheguei em casa e falei pro Magno, meu irmão – Cara, agora é sério, (colocando mais um pouco de açúcar) escreve um roteiro que eu quero desenhar. Ele me disse todo empolgado – Eu tenho uma ideia sobre um faroeste, mas com gatos e ratos. Eu disse sem pestanejar – Odiei. Mas logo depois já estava desenhando os personagens e mostrando a ele, que empolgou imediatamente. Fomos a uma padaria e conversamos sobre o projeto intitulado Oeste Vermelho. As críticas foram tão boas logo de cara que nos motivou a continuar. (bebendo o café que agora parece estar no ponto)

Hahahha, vocês dois combinaram isso vai? A mesma resposta! Que massa, cara! “Gêmeos, mórbida semelhança”. (risos) O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Pra começar, o que mais gosto de ver em uma HQ é uma boa narrativa e quando isso funciona naturalmente, sou obrigado a voltar e ler a página novamente. É quase como acender um novo cigarro para um fumante.

Você fuma?

Não! Já fumei um pouco, mas parei. Meu único vicio é a dose diária de café e roer unhas.

Que bom. Não sei você, mas se pararem com o café, eu morro! Desculpa ter te cortado. Gosto de ouvir o que excita os outros. Isso me excita também. Tô até sentindo um calor aqui. Jesus! Tem mais alguma coisa que te “excita”. (com todas as letras)

(Rindo) Gosto quando os autores montam uma cena sem quadros desnecessários, que tudo valha a pena e conte aquela história sem precisar de texto. Não digo que gosto apenas de HQs mudas, não é isso. Digo que gosto de ver a página e mesmo sem a ler, eu sei o que está acontecendo, e se não sei é porque o escritor quer que eu não saiba.

Um detalhe mostrado que descreva uma situação com facilidade. Um morador de rua que não joga um papel no chão, revela que um dia ele teve humanidade, por exemplo. Detalhes que falam mais do que palavras.

A vida está nos detalhes! E o que é mais broxante? (entortando a boca )

Você quer me deixar sujo na praça, né? Vamos lá, hehe.

Hahaha, eu lhe dou um banho depois. Que tal? (ri envergonhada) Hihi, ai, deus…

Desculpa, Deisy, tenho namorada.

Linda por sinal.

Mas fico lisonjeado, garota.

Disponha, amor.

1-Como eu disse antes, uma narrativa falha, com quadros desnecessários e bagunçados.

2-Autor que se apega a clichês em geral. Estilos de personagens usados na época da minha avó, quadros já manjados (tipo, soco e o cara voando pra trás), estereótipo de herói com queixão, vilão camarada eu odeio (vilão é vilão, assassino sem coração, sem misericórdia).

3-Histórias sobre depressão ou choradeira. Larga mão disso. Tem tanta coisa acontecendo por aí, tanto mistério, violência, amor, raiva, pra ser escrito só esperando uma alma caridosa pra o fazer. Quer dica? Digite no Google “mistérios da humanidade sem solução”, escolha um, formule uma teoria e pense na história.

HHahaahahah, você é foda!

4-História pretensiosa. Sem mais.

Fui muito grosseiro? Haha.

Qué isso?! Você foi um príncipe. Como sempre aliás. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Concordo inteiramente com o Rafa. São mídias diferentes. Tem coisa que não dá pra fazer no cinema que os quadrinhos fazem e fica magnífico. Você imaginaria o show narrativo que é  Asterios Polyp no cinema?

Necas.

Perderíamos muita coisa. Maus, Black Hole… Perderíamos muita informação que só os quadrinhos podem mostrar. Pode até ser um primo, mas não é pobre.

Pobre soy yo.

Um quadrinho estrangeiro que eu adoraria ver é Umbigo sem Fundo. Fico curioso pra ver o que fariam. E um nacional seria Bando de Dois, do Beyruth. Seria um espetáculo.

De arregaçar! Uma quadrinista foda (fora a Bechdel, Marjane e Laerte que já foram citadas mais do que… sei lá) e porquê?

Putz, eu ia dizer Marjane.

Eu sei.

Ok. Gosto do trabalho que a Júlia Bax vem fazendo. Sou fã.

Mas acho a Sara Pichelli foda demais!

Você tem contato com a Júlia? Queria ver se ela topava tomar um café comigo. Gosto tanto do trabalho dela…

Tenho, depois te passo.

Ah, valeu!!! Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Faz um tempo, eu li Epilético do David B. Aquilo me causou desconforto, mas não conseguia parar de ler. Em um momento, em que, na história, o jovem David vê seu irmão Jean-Christophe, já afetado pela epilepsia, botando fogo em um monte de folhas com gasolina ou querosene e diz em recordatório: “Às vezes eu gostaria que ele morresse”. Isso me chocou um bocado. Tive vontade de chorar, quase que imediatamente. Mas não chorei, porque tava no metrô e me recompus.

Hahaha, porra, Marcelo. É foda, né? Já passei por isso. É constrangedor. Não lembro qual cena foi. Essa do Epilético eu estava em casa mesmo. Pude lavar a alma… Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Essa é fácil. Quem me conhece sabe que eu escolheria o Wolverine. Eu seria o Wolverine do John Byrne. Leio X-Men desde os 7 anos de idade e ele era o meu favorito de longe. Ajudou a moldar o meu caráter.

Até eu seria o Wolve! Imagine que você está na pele do baixinho e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Sentar, abrir uma bebida e acender um charuto. Como o bom e velho Logan faria.

Como o bom e velho Logan. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Má. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Assustador! Mas iria de novo!

Aeeeee!! (risos) Obrigada pela entrevista, querido. Aceita uma sobremesa?
Aceito mais um café.

João!

marcelo-costa

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3 comentários sobre “Marcelo Costa

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