Marcelo D´Salete

Cumbe (Veneta), Risco (Narval Comix), Encruzilhada (Leya), Noite Luz (Via Lettera)

 

Quer pedir um café? Suco?
Cerveja, pode?

Você tá de brincadeira?! Mas é claro!!! (ao garçom) João, manda duas Juan Caloto pra gente, per favore. (ao Marcelo) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Ma, tudo bem?
Opa, pode seguir.

Uma pequena nave passa ao fundo, desapercebidamente.

Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos?
Sempre gostei muito de histórias e desenhos. Quadrinhos foi uma forma de juntar os dois.

Você juntou muito mais do que isso. (piscadinha. O garçom serve a cerveja geladinha) Aí sim! (com o copo cheio a sua frente) Obrigada, querido. (de volta ao D´Salete) Um brinde ao Cumbe, cara! (tim-tim) Que coisa mais foda. (bebem)
Se gostou do Cumbe, o próximo livro, sobre Palmares, promete ainda mais.

Uhhhhh! Estou ovulando só de pensar. Pode não parecer, mas não é sempre que isso acontece. (risos) Então me diz, Marcelão, (sensualizando) o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.
Gosto muito de pensar nas possibilidades de leitura de uma história ou cena. Dependendo da perspectiva ou dos detalhes, a leitura de uma HQ pode ser bem diferente. Muitas das minhas narrativas surgem a partir de cenas que quero mostrar. Sou fascinado também pelo ritmo e pelo encadeamento de imagens. E talvez minha primeira percepção da complexidade de contar uma HQ foi quando li Akira do Otomo.

Ahhhh!
Fiquei muito impressionado com a capacidade de lidar com tempo e espaço daquele mangá.

Akira é impressionante em todos os níveis! Conheci primeiro o anime e depois o mangá. Ambos brilhantes! Você já ouviu o CD da trilha sonora? Rapaz… O que é aquilo?
Eu adoro trilhas de filmes. Akira, Blade Runner, Ghost Dog, Broken Flowers e Twin Peaks são algumas das minhas trilhas preferidas. Akira, em especial, é algo monumental, impressionante demais.

Sim! Sim! Agora, se segura que isso aqui é meu montanha russa, (fazendo os gestos com a mão) a gente sobe para despencar de cara! O que é mais broxante, Marcelo? (carregando a breja)
Fazer quadrinhos pode ser algo bem individual. E pior, me acostumei com isso. Por outro lado, é incrível perceber que você pode ter domínio amplo sobre sua criação.(bebendo)

(Canta) “Solidão é lava que cobre tudo”… Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. (Marcelo enche o copo, balançando a cabeça afirmativamente) Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando..
De fato, quadrinhos é uma outra coisa. Mas preciso dizer que o cinema está na base da minha forma de pensar os quadrinhos. É uma influência forte no meu caso. Tem muitos quadrinhos que poderiam virar ótimos filmes, penso que o Sistema do Kuper e o Homunculus do Yamamoto são exemplos disso. Mas talvez seja legal pensar em filmes que poderiam virar quadrinhos também. Nesse caso, gostaria muito de fazer um quadrinho do filme Compasso de Espera, do Antunes Filho. É um grande filme falando sobre racismo no Brasil.

Cara, seria demais! Eu me antecipei no futuro só pra destacar essa parte do poema e cita-la aqui como se eu a tivesse na ponta da língua. “Quando a terra devolver todas as raízes dos meus passos, eu surgirei como um sol, para sempre incluído. E no rumo do meu sangue, todos verão a fonte na hora em que o tempo transborda para nascer um mundo novo”. Nós dois sabemos o que acontece a seguir. Tenso. (enxugando o copo)
Esse texto e filme são incríveis, lindos! E curto demais a atuação do Bulbul. Um grande ator e diretor, praticamente esquecido na história do Brasil.

O que o Brasil não esquece? Por isso gosto de reforçar a próxima pergunta com todos os As maiúsculos. Uma quadrinista foda (fora a Bechdel citada até a tampa) e porquê?
Curti muito o trampo O Processo da Chantal Montellier, baseado no texto do Kafka. É uma adaptação incrível. Além dela, li algumas HQs muito boas escritas por mulheres, O Muro, da Fraiport e Baily, e Aya da Marguerite Abouet e Oubrerie. Esses trabalhos tem a qualidade de expandir o campo de possibilidades nos quadrinhos. Embora considere que podemos assumir diferentes lugares na arte, tem coisas ali que só um olhar feminino pode trazer.

Por que você tem que ser tão bonito assim? Não precisa responder. Eu sei. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?
Gosto muito de cenas quase totalmente silenciosas também, que dizem muito apenas com imagens. A sequência inicial do Como uma luva de veludo moldada em ferro, do Clowes, onde o personagem vê sua mulher num filme obscuro de cinema, é uma das cenas que não me sai da cabeça.

Ah, Clowes… Que homem! Essa cena se instalou atrás da minha retina. Não só essa. Há várias ali. É uma narrativa que eleva as cenas, um elogio à insolúvel bizarrice humana. Até hoje estou esperando tomar um café com ele… Vamos pedir mais uma?
Claro!

(Ao garçom) Manda mais uma rodada, João. Valeu. (ao Marcelo) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.
Vixe, difícil essa. Talvez, o protagonista do Vira-lata, que considero um personagem muito interessante do Garfunkel e Malavoglia.

Dois clientes atípicos entram no bar e pedem o uísque mais caro.

Imagine que você está no couro do Vira-Lata e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?
Caminhar pelo centro sempre me ajuda a pensar melhor.

Posso caminhar com você?
Claro, mas nada de ir pra Paulista, tem muito verde e amarelo por lá, vamos pro centro velho!

Hahah, mas não tenha dúvidas! Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Má. Como foi para você ser abduzido?
(susto) Olha… Não posso falar sobre esse assunto aqui.

Marcelo começa a agir estranhamente. Havia identificado entre os clientes, dois reptilianos.

Muito obrigada pela entrevista, querido. Acho que a gente pode…

Marcelo foge desesperado antes que ela pudesse pedir algo para beliscar.

marcelo-dsalete

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