Mari Casalecchi

Finito (Independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Me expresso melhor com cachaça, pode ser? (o garçom se aproxima da mesa) Cachaça e uma água com gás, por favor.

E pra mim, uma cerveja mesmo. A de sempre, João. Obrigada. (à MariVou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Mari, tudo bem?

O que é a vida senão uma sequência delas? Pode mandar.

Hehe, alguma coisa me diz que vamos nos dar muito bem. Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? Na verdade, o Finito – só tem esse, né?

Só esse, filho único. Mas planejando parir outro pra não correr o risco de ficar mimado.

Faz bem.

Na real nunca soube o que queria fazer da vida, tentei algumas coisas e, por me interessar por quadrinhos e já ter arriscado algumas tirinhas sofríveis, acabei me inscrevendo em uma oficina com o Mutarelli. As aulas eram incríveis.

Pô, aula com o Muta deve ter sido de foder a garga! 

Cê não tem ideia! além do cara ser um ninja do desenho e da escrita, é um sujeito muito generoso e terno.

Ele é mesmo.

O garçom serve as paradas. Juan Caloto e cachaça, pasmem, Old Panther. A água pouco importa.

Old Panther? Não é essa a do porre instantâneo? (o garçom sorri)

É das boa! (risos) Quer propor o brinde? (erguendo o copo)

Quero! Outro dia, lendo um livro do Reinaldo Moraes, aprendi uma sigla ótima, a BIM (Brilhante Ideia de Merda).
Genial! (ainda com o copo erguido)

Um brinde às BIMs, portanto. Que, embora renegadas, nunca nos abandonam.

AMEM! (tim-tim. Deisy bebe com gosto. Mari, beberica – a cachaça é mesmo das boas. Enxugando a boca) Mas me conta mais, Mari. E esse Finito?

Finito foi escrito nesse tempo. Como tinha muita dificuldade para desenhar, burlei prazo de entrega, sofri feito louca, fingi que a história não existia até, enfim, chegar em um formato que fosse possível pra mim, pras minhas limitações.(molhando a boca)

O que você chama de “limitações”, eu digo “estilo”. É, sou picareta “memo”!! (risos) O que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica, mulher? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (enchendo o copo novamente)

Eu me apego muito à velocidade que a história é contada. Gosto daqueles quadros em que nada é dito, que existem só pra mostrar um detalhe, parar o tempo ou deixá-lo o mais próximo possível do tempo real. Respiros são importantes, né.(bebericando a cachaça do mal)

Sempre. Se não me dá dor de cabeça.

Alguns me deixam alucinada só pelo traço – quanto mais humano, hesitante, mais me interessa. Planos desconstruídos também me dão um barato.

Eu fico molhadinha. (Mari expressa dúvida, cerrando os olhos) Juro! E o que é mais broxante? (bebendo. Ela sempre bebe nessas horas)

Quadrinhos pretensiosos. Quando cê sente que a pessoa quer mostrar que desenha pra caralho, que é um animal do traço; ou quando a história é cheia de metáforas desnecessárias só pra pagar de cabeçudo e mascarar a falta de profundidade ou argumento. Dá um bode. Daí abandono no meio, sem dó. (molhando o bico)

Nem piedade. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Puta pergunta sacana.

“O que é a vida senão uma sequência delas?” Não deu pra evitar (sorrindo)

Desnecessacana. (sorrindo também) Eu acho que gostaria de ver Pagando por Sexo, do Chester Brown, mas não tô muito segura disso. Posso não estar muito segura?

Pode, amor. Eu cuido de você.

Tenho medo que, na adaptação, o transformem numa espécie de Bruna Surfistinha.

HAhahaa, pelamor! Já que entramos nesse terreno: Uma quadrinista foda (fora a Bechdel, Marjane e Laerte que já foram largamente citadas) e “per qua”?

Dominique Goblet. Fiquei louca quando tive contato com o ‘Parecer es Mentir’. Ela desenha de um jeito feroz, forte e mistura várias técnicas em um mesmo quadrinho, de acordo com o que está sendo contado. Acho bonito demais. No Brasil, acho a Cynthia B. foda! Gosto do humor, gosto do traço. Sempre quando vejo algo dela fico transitando entre o amor e a inveja: que demais! filha da puta! comé que pode? (mais um golinho)

Me pergunto isso toda santa noche… E não conhecia essa Dominique. Chegando em casa, vou sondar a moça. (a cerveja chega ao fim) Vou pedir mais uma. Quer mais alguma coisa?

Um gin tônica, por favor. (matando a Velha Pantera)

João!

(De trás do balcão, o garçom pergunta) Mais uma?

E um gin tônica pra minha querida aqui, faz favor. (à Mari) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Concordo demais, essa cena é linda.

Né?

Eu tenho o hábito de mostrar alguns livros que gosto pras pessoas que me visitam (tipo um ato de carinho) e esse é um deles, tá sempre em lugar privilegiado na estante.

(Com docilidade) Me convida, vai?

Já tá convidada! Até faço seleção especial pra você.

Linda.

Daí que, observando meu cachorro, percebi que se tratava de um comportamento absurdamente previsível e animal – ele faz exatamente a mesma coisa quando aparece alguém em casa, corre pra mostrar o ossinho.

Ainnnn, igualzinho o Lino… Qual a raça dele?

É um vira-lata safado e altamente sedutor.

Já me conquistou.

O garçom traz a cerveja e o gin.

Mas, calma lá, a pergunta era outra, né?

Não faço ideia! (risos) Era sobre alguma daquelas cenas memoráveis. (trabalhando a cerveja)

Ah, então, tem uma cena – se não me engano, umas das iniciais – do “Parecer es Mentir’ em que uma criança está andando na rua com sua mãe, super excitada por estar usando meia calça, começa a correr, cai e rasga sua meia-calça no joelho. Chora não pela dor do tombo, mas pelo furo enorme. A mãe tira a meia-calça, diz que vai fazer um truque e recoloca na menina. A criança olha para os joelhos, não vê mais os furos e fica absurdamente entusiasmada até você ver, no plano seguinte, os furos na parte de trás da perna da menina.

Que lindo… Ah, vou atrás disso! Será que tá muito caro importar?

Importar, comprar nacional… O que não tá caro hoje em dia?

É, tá foda mesmo…

Se prometer devolver, eu te empresto!

Já disse que você é linda hoje? Deixa eu aproveitar e fazer uma pergunta indecente. Posso?

Ui. Pode, manda! (trabalhando o gin)

Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse uma personagem feminina ou masculina dos quadrinhos, quem seria, Mari? Desculpa.

Caramba, só pergunta treta por aqui, achei que seria mais fácil. (Deisy manda um beijinho) Agora, de imediato, acho que o Peter, o menino ‘sapo’ do Umbigo sem Fundo.

Imagine que você está na pele do Saponildo e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Levar esse gin lá fora e acender um cigarro pra pensar com clareza no próximo passo.

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera. Como foi para você ser abduzida?

Minhas lembranças dessa ocasião são bem opacas, se confundem com sonhos que já tive, deve ser um truque deles pra preservar certas informações, né. A única coisa que me recordo claramente é que conseguia dormir de olhos abertos. Durante HORAS.

Jesus! Vamos fumar um cigarro lá fora? Tô numa vontade “loca”.

Demorô.

Cada uma pega seu copo, bolsa e deixa o resto na mesa. Deisy segura o braço de Mari enquanto caminham lá pra fora. Com o cigarro apagado na boca, diz:

Obrigada por vir, Mari.

Acendem o cigarro. Está uma noite ótima.

mari-Casalecchi

 

 

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