Rodrigo Urbano

Nostaltung (Independente), Mulheres robóticas (Independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Agora não, obrigado, mas será que posso fumar um cigarro?

Claro, amor. Peguei a mesa aqui fora pra isso. Vou queimar um também. Tô tentando parar. Tá foda. (puxando um cigarro, coloca na boca, acende) E os trampos?

Também tô nessa de parar, comecei a testar uns remedinhos. (risos) Os trabalhos andam bem, me aprofundando cada vez mais nas tattoos e pensando em um novo álbum de quadrinhos, algo bem diferente do que estou acostumando a fazer. (acendendo o cigarro)

Olha só. Vamos acompanhar isso de perto. Amore, vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Quanto mais desnecessárias, melhor. (baforando)

Ui! Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? (baforando feito uma concubina chinesa)

Uma confluência de tudo que pode acontecer à uma pessoa…muito dramático?

Você sabe que eu adoro um drama. (tragando, com os cotovelos apoiados na mesa)

Só sei que por durante muito tempo os quadrinhos foram minha principal fonte de inspiração e refúgio, enquanto comia bolacha na companhia dos X-Men de Chris Claremont e do Superman ilustrado pelo genial Tom Grummett – mas lembro que foi lendo uma HQ formatinho do Homem-Aranha, publicada pela Abril em algum momento do passado, que percebi o quanto queria desenhar quadrinhos.

Meu querido, o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Gosto de me envolver, de sentir que faço parte daquele universo. Acredito que uma boa narrativa pode reproduzir a emoção e o excitamento de um bom filme ou mesmo evocar sensações similares. Acho difícil não se sensibilizar com a narrativa de Will Eisner, principalmente lendo seu clássico “O Sonhador”, de 86, ou não mergulhar nos universos fantásticos de Moebius, esses que competem pau a pau com “O Quinto Elemento” de Luc Besson, por exemplo. (fumando)

Ah, cara, cê tá doido?

Nossa, será que falei merda? Oh!

Detestei o Quinto Elemento. A Mila é linda, mas seu personagem é idiota. E aquele persona do cabelo esquisito que o Chris… Tucker faz. Escrachado, irritantemente escrachado. Por que Hollywood reserva aos atores negros esse papel de personagem merda? É para ridiculariza-los? Já pensou nisso? (batendo as cinzas)

Com certeza, e acho interessante você ter trazido a questão à tona porque sempre me incomoda a falta de oportunidades que atores negros recebem para interpretarem papéis de destaque – não consigo imaginar um clássico sequer que mudaria em tom ou qualidade se seu protagonista fosse negro, asiático, ou mesmo gay.

Esse é o ponto! E tem um monte de filme assim.  Até quando entra alienígena no meio. O Jar Jar Binks por exemplo, aquele humor pateta, quem o interpreta? Vamos trocar um pouco os papéis, gente? Deixar os brancos fazerem esse papel de aloprado e dar aos personagens interessantes uma cor mais bonita. Ainda bem que alguns atores rejeitam esse tipo de personagem. Espero nunca ver um Forest Whitaker, Laurence Fischburne, Denzel, Sidney Poitier… Se bem que com o Sidney isso seria realmente estranho. (deixa escapar um sorriso enquanto exagera na fala como se tivesse mesmo indignada) E você me vem e equipara a Moebius?? Vou ter que beber… (levanta a mão, chamando o garçom) 

Pois é, acho que apesar do preconceito que continua, estamos finalmente abrindo as portas para a diversidade, mesmo que de forma homeopática. Atores de etnias diferentes estão recebendo propostas mais relevantes e prêmios de acordo.

O garçom se aproxima da mesa.

João, vê uma breja e dois copos. Manda a Juan, tá? 

Pode deixar. (voltando para dentro do bar)

Obrigada.

Até o infame caso do Oscar ajudou a expandir isso, algo que talvez traga mudanças mais significativas no futuro. Em relação ao “O Quinto Elemento”, concordo que é um filme fraco e com conotações duvidosas, mas sua visão de mundo futurista com suas cidades acima das nuvens, carros que voam por dentre os prédios, criaturas alienígenas bizarras e figurinos inspirados são produtos diretos da colaboração de Moebius, que trabalhou como designer de produção do filme.

Não sabia dessa.

Então, muito do que está em tela é criação dele junto à outros artistas muito talentosos como Mark Stetson. O filme peca excepcionalmente no desenvolvimento dos personagens e na trama fraca, mas sua direção de arte é no mínimo magistral.

(Sem dar o braço a torcer, sorrindo) A produção deve ter vetado muita coisa então. E o que é mais broxante?

Um roteiro ruim.

Tipo o Quinto Elemento? (risos. Os dois apagam o cigarro ao mesmo tempo) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Acho que gostaria muito de ver “Black Hole” do Charles Burns, poderia morrer depois desse filme. Dos monstrinho nacionais, “Desengano“, do Camilo Solano merece desde ontem ser transportado para película.

Boa! Preciso ler o Desengano também. Falha nossa, Camilo. Sorry. Hehe. (o garçom serve a cerveja) Um brinde ao Moebius!

Para sempre! Mas tira o Bruce Willis da história porque esse cara não passa mais nenhuma credibilidade.

Ah, eu gosto do Bruce, celebridade ou não, qual é o problema? Prefiro tirar o Bresson da jogada. Aeeee! (tim-tim. Long gole. Boca estalada) O Profissional é o único que eu gosto. Aquele sim. Puta filme! Uma quadrinista foda (fora a Bechdel) e porquê? 

Eu jogaria Kate Worley, criadora do “Omaha the Cat Dancer”. Existe algo muito particular em seus roteiros eróticos que evocam uma “perversão” fascinante que remete as pin-ups de Olivia De Berardinis ou mesmo aos melhores contos de Milo Manara. Sou um ávido fã de contos eróticos e acho que as mulheres têm uma visão menos poluída do sexo, mais ligada à essência do ato e isso transparece não só no trabalho de Worley mas nos de outras autoras como Giovanna Casotto. (mandando a breja pra dentro)

Se não me engano, em breve, a Veneta vai lançar um dela. E convenhamos, que mulher!!

Que mulher e que desenhos! Aquela sensibilidade artística é para poucos. Por falar em sensibilidade e pin-ups, não posso deixar de falar isso: Amo as mulheres desenhadas por Adam Hughes. O cara tem um refinamento de traço sem igual!

Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (virando o copo)

Amo o “Gosto do Cloro”, inclusive acho que foi o Rafa que me apresentou, uma obra fenomenal. Em “A Piada Mortal“, de Alan Moore, tem aquela clássica cena em que o Coringa alveja a Barbara Gordon..acredito que ela foi tão intensa por mudar tão radicalmente personagens icônicos e traze-los para nossa realidade mundana ou até mesmo “crua” de certa forma.

Alan Moore sendo Alan Moore. Me gusta mucho, cumpadre! (bebendo) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.
Ah, o Batman. HA!

Vai morcegão!

Com certeza seria um personagem em busca de algo (ou alguém), ou tentando desesperadamente encontrar um sentido para sua ordem vigente. Curtiria muito ser o Pistoleiro de A Torre Negra- como representado na adaptação de Robin Furth e Peter David, ou Miyamoto Usagi, o imbatível ronin de Stan Sakai.

O Robin ia sofrer na sua mãe, hein? (risos) Imagine que você está na pele do Morcegão Podre de Rico e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora? 

Quebrar tudo.

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Foi no mínimo uma experiência interessante, principalmente a parte das sondas…existe algo que me atrai em todas as formas grotescas de invasão de privacidade.

PODEROSA!!! Acho que você seria o melhor Batman de todos os tempos!!! (suas risadas atravessam a noite) Obrigada pela entrevista, meu anjo. Mais uma? (indicando a breja)

Com certeza, e um cigarro também. (puxando um)

Deisy levanta o braço mais uma vez, enquanto um Autobianchi Primula, modelo antigo, vermelho como o demônio das onze horas, passa lentamente, como se o motorista a estivesse observando.

 

rodrigo-urbano

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