Manzanna

Transmuriliana (Museu de Arte Murilo Mendes), Zine “?” (Independente)

Quer pedir um café? Suco?

Boa ideia. Vou de café, sem açúcar.

Menina, eu também! Aboli o açúcar de vez.

Eu também cortei, mas só no café! Acho que fica mais gostoso assim.

Eu cortei até da limonada. (chamando o garçom) João! (à Manzanna) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Ma, tudo bem?

Beleza! Talvez eu dê respostas desnecessárias também.

Não espero menos, gatona.

O garçom se aproxima.

João, vê pra gente dois cafés pra gente? Brigada. (à Manzanna) Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos? Endoidou?

Uma bigorna caiu na minha cabeça.

Hahah, tá explicado!

Mentira, o que rolou foi que eu já trabalhava com ilustração, me envolvido um pouco com animação, produzia uns desenhos meus e escrevia pequenos textos que, num dado momento percebi, eram potencialmente quadrinizáveis (que expressão, ui).

Adoro.

Comecei a experimentar o formato e percebi que gostava desse caminho novo, desse jeito diferente de dizer coisas. Isso também coincidiu mais ou menos com a publicação do zine XXX, do qual participei. Ter entrado em contato com outras autoras e autores me animou a seguir fazendo, e a publicar na internet. Isso tudo e, claro, eu já gostava de desenhar e ler quadrinhos desde criança. Só não tinha pensado a sério em produzir HQs eu mesma até então.

Ainda bem que a seriedade não tarda. (chegam os cafés) Opa! Valeu João. (à Manzanna, tirando a xícara do pires) O que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (bebendo)

Acho que o maior estímulo físico que já tirei de uma narrativa gráfica foram lágrimas (risos), mas vamos à parte mental. Não sei se tem um “quê” específico que dê pra apontar com clareza, mas posso dizer que gosto muito de perceber o cuidado com ritmo e layout das páginas, diagramação, e como isso serve à história. Também me atrai muito um texto enxuto, bem trabalhado. Piro bastante nisso. (bebericando o cafezinho)

E o que você acha que é mais broxante?

Ah… me decepciona muito ler uma história totalmente sem substância contada com desenhos ultra-trabalhados, perfeccionistas. Fico até triste com o desperdício.

É um porre! Pra quê, né? O desenho nos quadrinhos tem uma função narrativa. Se todos os quadros são daqueles desenhos truncados, cheios de detalhes, a coisa simplesmente para. Não é? (girando a xícara entra as mãos)

É, a questão nem é com o desenho em si, mas o contraste da arte que recebeu um ultra cuidado mas tem altos buracos em outros aspectos… sacou?

Ahnnn… Tipo, um desenho tão bonito para algo tão cagado. (risos) Bem, uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Uai Deisy, se for pra gente se firmar contra essa máxima de ser “o primo pobre”, não devia torcer um pouco o nariz pras adaptações, bater no peito e fincar o pé nos quadrinhos?

Mas não tenha dúvidas! O foda é que isso não fecha a conta.

Tá, é verdade que uma das maiores realizações financeiras (ou de público) que uma ou um quadrinista pode atingir é por essa via.

Então.

A não ser que crie um personagem-marca de sucesso e ganhe por aí, né…

O que é raríssimo.

Mas na real, primo pobre ou não, tem duas adaptações que eu gostaria de ver: a primeira é uma expectativa que eu tenho desde adolescente – o muito prometido e nunca realizado live-action de Neon Genesis Evangelion. (Deisy ri) Pode rir, eu iria felizona assistir. (bebendo)

Eu iria também, Ma. Se pá, vamos juntas.

Desde que não seja mesmo o Michael Bay a dirigir, como ouvi dizer.

Ahh, se virar Transformer da vida, ferrou… (esquentando a mão na xícara)

A outra é Building Stories, do Ware. É uma história foda, seria um desafio monstro dirigir e editar, mas desde que vi Moving Images, a colaboração dele com o Ira Glass (que sou fã também) pra New Yorker, acho que a linguagem dele pra histórias ultrapassa os quadrinhos, parece algo inerente à forma dele de ter ideias. E por isso, pode caber bem em outros formatos. Imagina se Building Stories vira uma série de curtas, talvez? Estou viajando agora. Enfim. Vamos em frente!

Viajando nada! Acho que funcionaria muito bem nesse formato. Sabe, tem uns dez anos, não vou lembrar o nome agora, mas tinha um site que era a fachada estática de um prédio sem a parede, mostrando cada apartamento. As ações aconteciam progressivamente. Personagens saiam para trabalhar. Outros inventavam algo pra se fazer. Virava noite, e tal, só um ou outro mantinha a luz acesa. E ia… A coisa parecia não acabar nunca. Era foda! Infelizmente perdi o link…

Que foda, queria ver esse site!

Era genial.

Se o nome te voltar à mente, me conte, por favor.

Claro! Mas vai ser outro dia. Hoje acho não tenho condição de lembrar de nada. Encontrei o Melite ontem e foi tenso pra caralho. O pior foi o jeito que as coisas acabaram. Foi muito estranho. Tinha um… não sei pronunciar isso, um dolpigânger…  

Doppelgänger?

Isso! Prefiro nem lembrar. Tive que tomar umas cachaças depois… Então você imagina a minha ressaca. Mas não estamos aqui para falar de mim. Me diga uma quadrinista foda e porquê?

(Intrigada com o que ela acabou de dizer e percebendo que Deisy não dirá mais nada, decide continuar a entrevista) Digo duas, ok?

Tá.

Aidan Koch, que é uma artista multidisciplinar, por usar os quadrinhos dentro de uma linguagem maior.

Mas Aidan é foda mesmo.

Que é a linha dela, uma linha que cabe em outros formatos e meios. Gosto muito disso. Outra, Eleanor Davis, que tem um estilo lindo e um humor meio ansioso, com alguns trabalhos bem simples, no limiar entre o autobiográfico e a reflexão, que falam muito. Ambas são referências pra mim, talvez esteja na cara. Ah, e mais uma! Considerando o boato/confissão/polêmica de John Campbell que teria se identificado como trans, ela também, porque Pictures for Sad Children foi a webcomic que mais amei na vida. (virando a xícara)

Meu, aquele In Our Eden… Espetacular!! Nobrow é foda nisso. Leve meu dinheiro! (risos) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (terminando o café)

Não li ainda, nota zero pra mim. (Deisy faz um zero redondo com a mão) Puxa, tem algumas cenas em “Quando meu pai se encontrou com um Et fazia um dia quente” do Mutarelli, – as cenas das paisagens, as repetições sempre diferentes ao retratar o pai, que me pegaram também. Essa história toda me marcou, ela também tem muitos silêncios importantes.

Putz, essa obra do Muta é bem peculiar. Era uma coisa que eu queria abordar aqui. E que bom que tocou nisso. (Manzanna fica meio ressabiada) Cada página é uma ilustração única. E se não me engano a página seguinte não é uma sequência… como posso dizer… imediata, sei lá. Por que é considerado quadrinho e não um livro ilustrado? Onde acaba um e começa o outro? Ou no final, isso não importa? Cabe aquilo que quisermos designar e pronto e acabou. Eu fico nessa última e você? O que você acha sobre isso? 

É, essa história tem uma cadência diferente, ele introduz os retratos em p&b que o pai coleciona no meio da história, deixa um monte de coisa “sem explicação”. Como se ele devesse explicação, né! Isso que ele faz é uma coisa que me interessa demais em quadrinhos, que eu quero conseguir explorar mais. Pra além da sequência temporal, a narrativa gráfica permite tantos outros encadeamentos possíveis, a próxima cena pode se puxar por outras afinidades… isso me faz lembrar que a vida não segue linha reta, e um quadrinho doido pode ser mais fiel à realidade do que uma história com início, meio e fim. Vish, falaria por muito tempo disso…

E quem está com pressa? (olhando ao redor)

Quanto às categorias… acho legal fazer o exercício de pensar em geral nessas definições, (coincidentemente, um homem passa correndo do lado de fora do bar e quase é atropelado ao atravessar a rua. Elas não perceberam isso) questionar onde e como dá pra distinguir, inventar caixinhas em teoria. Mas diante de um trabalho específico, me interessa muito mais ler e pronto, sabe? Nessa hora, o rótulo é o de menos.

Sim, o pessoal gosta de fazer distinção e o que é pior, definir valores dentro das categorias. Um dos melhores livros que eu já li, mais denso e fulminante mesmo está classificado como literatura infantil. E aí? Ele não perde nenhum valor por isso. Enfim. Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? 

Pode, claro!

Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse uma personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Tá desculpada, até porque eu não sei responder…

Ahhh! (esticando-se para trás na cadeira, tamanha interjeição)

Nunca consegui fazer esse exercício de pensamento de quem eu seria, eu começo a viajar em tudo o que eu não sei da personagem e no quanto ela é uma coisa artificial, uma parte de uma obra, não consigo me transpor. E aí não tenho resposta. Desculpa!

Não precisa se desculpar. Imagine. O problema é que você fodeu minha próxima pergunta. (risos) Mas desencana que a única pergunta importante vem agora. E prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera, Ma. Como foi para você ser abduzida?

(Enrubesce) Então, eu morria de medo disso quando criança. Quando finalmente aconteceu, nem foi grandes coisas. Eles até me trouxeram antes do programado porque eu atrapalhei muito a viagem, fazia perguntas toda hora e não parava quieta.

Hahaha, a levada da breca versão cósmica! Obrigada pela entrevista, Manza. Aceita uma sobremesa?

Claro! As tortas aqui são muito grandes?

São. E de matar!

Vamos dividir um pedaço? (piscando)

Tudo o que você quiser. João! (acenando ao garçom. Volta-se à Manzanna) E topa ir comigo à Gibiteria depois daqui?

Claro que eu topo.

Vai ter o lançamento do Bulldogma. Acho que vou morrer de vergonha…

manzana

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