Pedro Franz

Incidente em Tunguska (Independente), Cada caminho é um desvio (Independente), Limbo (Independente), Potlatch – Promessas Vol. 3 (Independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Acho que pode ser um café. O que tu vai pedir? Tu quer pedir outra coisa?

Sou movida a café, querido. (ao garçom) João, manda dois cafezinhos pra gente? Valeu. (ao Franz) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Vamo nessa.

Cara, que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

Tem isso de ter uma relação com a leitura, com escrever e desenhar, com a ficção e com gostar de livros e publicações impressas, de tudo junto acontecer ali numa HQ. Acho que isso foi fundamental pra começar, pra querer fazer quadrinhos. Mas acho que a coisa mais importante que me faz continuar fazendo gibis é que acho que a história em quadrinhos é um pouco como o meu modo de pensar, é a minha forma de acessar e de entender certas coisas. Isso soa meio cafona, talvez, mas tudo bem.

(pequenos corações surgem na íris de seus olhos) Não tem nada cafona nisso. Para! Eu penso por imagens também. É algo que acontece naturalmente, relacionar sensações a imagens. Aproveitando o gancho das sensações, o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (o café é servido) Obrigada, João. (assoprando o café fumegante antes do primeiro gole)

Eu gosto quando uma HQ tem algo que chega bem perto da vida ou quando ela é um tipo de convite pra alguma coisa que só acontece ali, quando um trabalho cria um jogo próprio e inventa umas regras meio malucas que tu só vai descobrindo no meio, quando já tá jogando. (tomando um gole do café sem açúcar do mesmo modo que Deisy)

(Com pequenos corações nas íris de seus olhos) Onde você aprendeu a falar assim? 

Eu ando nessa fase supercafona, não liga.

Lindo. E o que é mais broxante, Franz? Agora fiquei curiosa. (bebendo o café, sem tirar os olhos dele)

Hummm…eu não sei. Eu tento ficar longe se algo não me instiga… eu me sinto completamente alheio a um monte de coisas dos quadrinhos, é como se fossem um outro lugar pra mim, uma outra coisa, algo que não tem nenhuma relação comigo ou com o que eu faço ou com o que eu gosto de ler, entende? (bebendo)

Acho que sim. (sorrindo) Quando não consigo me identificar com uma coisa, acabo me distanciando também, ficando alheia. Aquilo não me afeta. E tudo o que eu não quero é sair ilesa. Seja de um quadrinho, uma exposição. Enfim. (dando uma sugada no café) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Não sei direito o que isso quer dizer, tu diz pela grana?

Sim. Vamos dizer que ceder os direitos autorais para uma produtora pequena envolva  aí uns trinta mil reais. Não estou vendo ninguém ganhar trinta mil reais com quadrinhos.

Não sei, porque tem um monte de gente que faz cinema e não tem grana e tem gente que faz quadrinhos e tem um monte de grana envolvida e se enche de dinheiro.

A ponto de chegar a trinta mil?

Então, eu queria ver o Know-Haole, do Gerlach, em desenho animado, queria ouvir o Gilso falando. (Deisy ri) Não precisava ser cinema, podia ser uma vibe Cartoon Network de madrugada, acho, mas tinha que passar na TV aberta com certeza. Acho que poderia ficar muito massa se fosse um diretor massa fazendo.

Acho que as tevês de plasma iam rachar no meio! Guerlach é foda. Talvez ele cole aqui semana que vem. 

Mas não sei se os quadrinhos e o cinema são primo irmão amigo. Não sei mesmo. Mas tu entrevistou o Rafa?

Ele tá fugindo de mim…

Tô com uma saudade dele.

Eu também.

E acho que o Manjericão, da Laura Lannes, daria um baita filme. São só quatro páginas mas acontece tanta coisa ali, tem umas passagens de tempo…podia ser um curta, talvez. Acho que podia ficar bonito. (terminando o café)

Ficaria lindo. Me identifico tanto com ela. Será que ela topa tomar um café comigo?

Eu imagino que ela toparia, mas acho que tu vai ter que ir pra Nova York. Pelo menos eu acho que ela mora por lá.

Ahhh, no way… Trabalhar com ilustração só me levou ao litoral norte. (sorriso amargo) Franz, meu diz uma quadrinista foda (fora a Bechdel, Marjane e Laerte que já foram largamente citadas) e porquê? 

Eu acho a Dominique Goblet muito foda. O Parecer es mentir (li em espanhol, o original é Faire semblant c’est mentir) foi um livro que mexeu muito comigo quando li, o tipo de HQ que te diz olha, dá pra fazer isso aqui com quadrinhos. Toda a história, mas também o jeito como ela usa os diferentes estilos de desenho como elemento narrativo, a coisa do papel como textura, aquelas manchas… Acho que é principalmente por causa dela que eu comecei a trabalhar com o grafite, que eu percebi as possibilidades do grafite nos quadrinhos. Alguém já citou ela?

(sorri) Já. A Mari Casalecchi. Ela esteve aqui ontem. Eu não conhecia Dominique. Foi a primeira coisa que eu fui ver quando cheguei em casa. Fiquei de cara…

É lindo, né? Putz, então…coloca aí a Charlote Salomon, acho que é importante citar ela.

Demais! Depois, quando digitar esta entrevista, vou colocar os links. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Deixa eu ver…acho que o final de Here, quando a mulher fala “now i remember” e depois já é o presente e a sala tá vazia e não tem mais nada ali.

Desgraçado! Eu ainda não li o Here… Ahhhhhhh!!! (jogando-se para trás, na cadeira) Só vou lhe perdoar  (apontando-lhe o dedo) se você responder uma pergunta terrivelmente indecente. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria?

Deixa eu pensar… Pode ser o Alack Sinner, do Muñoz e do Sampayo. Eu gosto porque ele envelhece e eu gosto como ele envelhece. Tu já leu?

Não! Tá na lista dos “com urgência”. Só sei que não existe preto e branco mais poderoso do que aquilo. O Frank Miller se inspirou no Muñoz, não foi? 

Eu acho que teve uma época em que todo mundo se inspirou ou aprendeu um pouco com o Muñoz. Não sei como isso não saiu no Brasil ainda, quer dizer acho que a L&PM lançou aquela edição da Billie Holiday, né? Ou eu tô inventando e nem saiu, não sei.
Não, acho que saiu, sim. Lembro de uma coisa assim.
Eu tenho a coleção da Planeta, são uns oito livros, acho que falta um, mas eu tenho também uns cbr no computador, quer que eu te mande?

Ah, por favor!! Faz tempo que eu tô querendo ler algo realmente bom. Agora, imagine que você está na pele do Alack e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Eu acho que sempre é um pouco assim, né? Eu gostaria de ir caminhar, conversar com estranhos, beber uma cerveja, encontrar os amigos no bar, tentar não ter medo.

Você está entre amigos. (estica o braço para segura sua mão) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais, Franz. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

Eu preferiria que não tivesse rolado, mas a vista era massa.

Obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Eu acho que eu vou pegar mais um café.

Eu também. (esquecendo-se de soltar a mão dele)

pedro-franz

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