Sidney Gusman

Editor das Graphics MSP

Pegou muita chuva? 

Pior que peguei! (encaixando o guarda-chuva fechado debaixo da mesa. Está com os sapatos molhados)

Quer pedir um café? Suco?

Aceito uma limonada, já adoçada.

Beleza. Acho que vou de limonada também pra evitar a gripe. (ao garçom) João, desce duas limonadas pra gente, uma com açúcar e outra sem, por favor. Obrigada. (ao Sidney) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Vamos nessa! Olha que de coisas desnecessárias sempre surge algo legal.

A intenção é essa! Que diabos aconteceu com você para se interessar por quadrinhos? (gesticulando mais do que o normal)

Putz, não saberia dizer um porquê. Eu só leio quadrinhos desde que me alfabetizei. Quando vi, já estava viciado e era tarde demais!

Hahaha, que vício você foi arranjar! Meu… (balançando a cabeça negativamente) Já que a questão é viciante (mordendo os lábios), o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Sem dúvida, é me colocar no lugar do personagem. Saca aquela situação em que você olha pro quadrinho e se pergunta: “Caralho, o que eu faria no lugar do personagem?”.

Identificação total. É disso que eu gosto!

Nos últimos tempos, cinco obras me causaram isso: Pílulas Azuis, do Frederik Peeters; Ardalén, do Miguelanxo Prado; Uma metamorfose iraniana, do Mana Neyestani; O árabe do futuro 2, do Riad Sattouf; e Hojé é o último dia do resto da sua vida, da Ulli Lust. Cinco HQs foderosas!

Demais!!! Ainda estou me devendo o Riad e a Ulli, mas Pílulas, Metamorfose e Ardalén… Foram demais pra mim, mais do que eu podia suportar. Chorei. Ah, não tem como ficar imune, né? (lembrando de algo) Preciso te mostrar uma coisa, Sid. Não sou de ficar mexendo em celular nessa horas, mas você não vai acreditar nisso. Sério! (busca algo no celular com receio de parecer inconveniente, mas tem algo realmente incrível para mostrar. Felizmente o garçom já está com as limonadas)

Com açúcar?

Dele. (indicando Sidney, com o olhos) Obrigada, João. (ao Gusman) Aqui! (esticando-se toda para mostrar-lhe algo no celular) É o Ardalén, cara… (os dois ficam extasiados com o vídeo por alguns instantes como se o tempo estivesse suspenso. Voltando-se lentamente para trás, guarda o celular. Seus dedos correm pelos respingos no copo da limonada) É até um crime perguntar isso agora, mas o mundo precisa saber. Sid, (pausa dramática) o que é mais broxante? (bebendo)

Broxante, pra mim, é quadrinho ruim. E eles existem em todos os gêneros e países. Assim como os bons. Quem manda eu ser besta de querer ler tudo? (provando a limonada antes de bebe-la com gosto)

Pelo visto o vício é mesmo grave! (risos) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Concordo muito. E adoraria ver na telona Bando de dois, do Danilo Beyruth, e a já citada Pílulas azuis.

Perfeito! Danilo é outro monstro. O que ele fez com o Astronauta… O que é aquilo? Aquela sequência mostrando a rotina dele… Genial. Você acertou na veia com esse lance todo da Graphic MSP, seu danadinho… Será que ele toparia tomar um café comigo?  

Pra mim, aquela cena de Magnetar é a melhor representação de passagem no tempo dos quadrinhos dos últimos dez anos, pelo menos. E não falo apenas dos brasileiros! E acho que sim. O Danilo tem boas histórias pra contar.

Legal!! (à câmera imaginária) Danilo, apareça, meu filho. Titia não morde,não(ao Sidney) Na lata: uma quadrinista foda e por quê? 

Uma só? Vou indicar logo duas, com quem tive a honra de trabalhar:

Meta bronca!

Bianca Pinheiro e Lu Cafaggi. Pra mim, ambas estão entre os melhores quadrinistas do Brasil hoje. Independentemente do gênero.

Pô, encontrei a Bianca esses dias! Ela é um doce. Tem alguma coisa nela que… me deixa em paz. Concordo contigo, elas engolem muita gente. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. 

Baita HQ. E também adoraria perguntar pro Vivès o que ela falou.

Se você descobrir, me fala?

Conto, claro. Duro vai ser eu conhecer o Vivès! Hahahaha.

Vai rolar. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Puxa, tem várias cenas que mereceriam comentários, mas eu vou ser mais amplo e citar a maneira como Will Eisner inseria música nas suas HQs. (girando o copo para misturar melhor o açúcar que está no fundo) Em 1991, perguntei isso a ele, na Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro, e ele disse que todo quadrinho dele tinha música, porque quadrinho bom tinha som. Adorei aquilo. (virando o copo)

Ahhhh, e que músicas! Will Eisner dá pra ouvir de longe!! Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Caramba, Deisy, nunca pensei nisso. Posso escolher um de cada?

Por favor. (bebendo)

Deixa eu ver… Olha, masculino seria o Ken Parker, do Giancarlo Berardi e do Ivo Milazzo. E feminino, a Mônica, pra sentar a bolacha em todo mundo – e eu já sou até dentuço. Hahaha!

(Com o riso largo) Meu… acho que nunca mais verei a Mônica do mesmo jeito. (risos estrambólicos) Deu até dor de barriga…  (recuperando-se) Tá, muito bem, imagine que você está na pele do Ken e da Mônica, meu deus, a Mônica… e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Como Ken Parker, abriria uma cerveja e só depois do último gole pensaria em algo. Ele tem uma calma e uma sensatez que eu adoraria ter. Como Mônica, me abraçaria aos meus pais.

(Comovida) Ounnnn… Que lindo. Também quero… (estende os braços para o Sidney, levantando-se para o abraço inevitável. A educação não o deixa recusar. O problema é que ela se demora tempo demais. Ao perceber, ela própria é quem diz:) Pode me soltar agora, Sidney. 

Hahahaha! Ah, eu que tenho que soltar, Deisy? Você é uma figura!

(Voltando ao seu lugar, sorrindo) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse extremamente sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Uma delícia! Se todas as abduções forem assim, que venham os ETs!

Acho que eles já estão aqui. Meu querido, muito obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Pode?

Lógico.

Então, desce um creme de papaia com cassis!

Nossa, adoro!! (procurando pelo garçom) João! (nada) Quede o João?

Ele não está em lugar algum. Deisy e Sidney estavam tão entretidos que não perceberam que estão sozinhos.

Pra onde foi todo mundo? Gente… (ainda há vestígios de comida e cafés pela metade sobre as mesas) JOÃO! (silêncio)

Sidney já está de pé, percebendo que lá fora também não há a menor movimentação. Tudo impressionantemente vazio.

Que estranho… (levanta-se, deixando uma nota de dez sobre a mesa. Ia pagar no cartão, como não tem ninguém. Dez era tudo o que tinha na carteira.) Acho melhor a gente ir. Desculpa pelo creme, Sidão… 

Ninguém andando pelas ruas, nem um carro passando em plena hora do rush. Os dois não estão entendendo nada do que diabos está acontecendo ali. O vento fresco, pós-chuva, não é motivo para resolverem ficar e descobrir. Apertam o passo, viram a esquina e somem.

Poucos segundo depois, Deisy volta correndo para o interior do bar, meio transtornada. Sidney havia esquecido seu guarda-chuva. Pega-o debaixo da mesa. A nota de dez ainda está ali. Não pensa duas vezes.

sidney-gusman

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3 comentários sobre “Sidney Gusman

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