Felipe Portugal

Espiga (Independente), Dadaísmo em Quadrinhos (web)

 

Quer pedir um café? Suco?

Uma água… Sem gás.

Pra que beber água com gás se existe o refrigerante? Nunca entendi isso. Vamos pedir. (ao garçom) João, vê pra gente uma água com gás… Ops, sem, sem gás.(Felipe sorri) E eu vou ficar no café mesmo. Valeu. (ao Felipe) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Claro, haha. Como se eu tivesse algo necessário pra ser dito.

E quem tem? (risinho tentador) Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos, Felipe?

Ingenuidade. Um dia li uma HQ que me fez pensar: “eu também consigo fazer isso”.
Era Genesis, do Crumb. Dá pra acreditar?

Puuutz! Acho melhor trocarmos essa água… (risos. O garçom traz os pedidos) Obrigada, João. (ao Felipe que está abrindo a tampa de sua garrafinha d´água) Rapaz, o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (primeiro gole do café a gente nunca esquece)

Fisicamente é o quão bem ela é resolvida. Traço bonito, planos inventivos, diagramação criativa. Mas para aí, né? Não dá pra se apoiar só em possibilidades formais. Caso o contrário eu iria ficar vendo só ilustrações no tumblr.

Boa! (apontando o indicador como se fosse uma pistola em disparo)

O que constrói pra mim uma obra relevante é o quanto aquilo ali importa. Digo, o quanto a técnica é respaldada pelo que os vanguardistas provavelmente chamariam de “espírito”. Olha o quão são inventivos os álbuns dos Mutantes, do Animal Collective. Herzog vai pra puta que pariu gravar os documentários dele, em lugares inacessíveis e proibidos. O Chris Ware tá aí, experimentando feito um maluco e sempre mais. Quase como um culto à dificuldade. Por outro lado tem o Mignola que dentro de um estilo convencional te traz um universo que tu não encontraria se não abrisse os álbuns dele pra ler. A Laerte tem vivências impressionantes e uma vida bastante fora do normatizado e as viagens oníricas das tirinhas dessa nova leva dela são de cair o queixo. (dando um gole d´água)

Não acredito que exista um método pra você se tornar uma pessoa com esse espírito, ímpeto, âmago ou pujança – chame do que quiser. Mas certamente há uma transmissão disso através das obras. Perdão por soar vago…

Não, cara, você está indo na verve da coisa.

As manifestações dessa vontade de explorar, de chegar em lugares incríveis e bonitos está presente em tão diferentes formas na arte que fica difícil achar um denominador comum até pra traçar um paralelo com quadrinhos. David Mamet diz que um bom drama é aquele que te faz mastigar mais, isto é, aquele que você demora pra esquecer. Muitas vezes o dramaturgo tem que dar um soco na boca do seu estômago pra que você saia de onde você está e perceba um novo tipo de perspectiva – ainda que dolorosa. É pra esse lugar que eu quero ir após fechar um encadernado. Assista Valsa com Bashir(virando a garrafinha)

Porra, Felipe, é exatamente o que eu penso também! Não quero bater o olho e já ter visto tudo, como se aquilo não significasse nada. Quero que a coisa fique latejando por dias ou décadas. É como Burroughs disse: “A linguagem é um vírus” e não algo pra se dar descarga. (risos) É a mesma coisa de chegar em uma exposição e já ter visto tudo antes de dar o primeiro passo. Tudo o que eu não quero sair ilesa. E assisti a Valsa. Foda. Mas diz aí, Fê, na lata, o que é mais broxante?

Eu nunca broxei na minha vida, sabia? (as sobrancelhas de Deisy chegam na nuca!) Mas isso é só porque eu não transei muito. (as sobrancelhas se retraem aos poucos) Isso faz de mim um vencedor ou um perdedor? (mais um gole d´água)

Vou te levar pra minha cama e a gente descobre isso.(risos) 

Olha, Deisy… é tão fácil ser broxante, não é? Ou eu tô enganado?

Ultimamente tá baba. (atendo-se ao cafezinho)

Você tem infinitas possibilidades de fazer arte rasa, feia, ofensiva, inócua – no pior dos sentidos. Tem um monte de quadrinhos que já li que não me causaram nada. Talvez os autores estejam muito engessados no modus operandi que encontraram pra produzir algum trabalho.
Porra, grandes nomes já fizeram histórias broxantes. Não é toda tira do Bill Watterson que é maneira. Tem charges toscas do Angeli, do próprio Dahmer. E olha que eu tô falando de caras que eu, pessoalmente, considero sensacionais. Eu sou o que perto deles? Um bostinha melancólico.

Ounnnn… Que sentar no colo da tia? (bebe seu café antes que ele resolva responder a isso)

(Sem cair na dela) Sem contar algumas histórias do próprio Eisner, Deisy, que eu li e não senti lá muita coisa. A Garagem Hermética do Moebius é lindamente desenhada mas é tão – olha que irônico – hermética que eu não me conectei com o que li. Em contrapartida você ouve um álbum do Neutral Milk Hotel, a coisa mais simples, quatro acordes, cinco no máximo! Mas tem tanta alma naquele grito desgranhado – tipo os do Dylan – que tira você do lugar. (a luz do sol atravessa o bar atingindo o rosto de Felipe, seus olhos brilham de uma maneira cada vez mais comovente)

Inclusive fica aqui um apelo meu pra você, pro João ali atrás do balcão e todos os quadrinistas vivos: Não esqueçamos o motivo principal que começamos a desenhar. (um sorriso de menina começa a brotar em Deisy) O motivo pode ser diferente pra você, pra mim e pro Cyril Pedrosa mas o leitor sabe quando essa motivação não está por trás do quadrinho. O leitor sabe que os coloristas do Jim Lee devem estar zoando a cara dele.

(Rindo desavergonhadamente) Você é foda! O pior é que eu tava acreditando. Tava achando que ia sair uma daquelas melequeiras sentimentais… Hehe. (terminando o café) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

O gosto do cloro de Bastién Vivés daria um fantástico curta metragem.
Imaginei Spike Jonze na direção mas talvez fique caricato demais… Digo isso pelo curta dele de 2010 – “I’m Here“.
Que poderia muito bem ser desenhado pelo próprio Ware. Ou pelo Clowes. (virando a garrafinha)

Pô, sim! Tem a pegada mesmo do Spike. Pois muito bem, filhão, me diga uma quadrinista foda (fora a Brechdel, Marjane e Laerte que já foram largamente citadas) e porquê? 

Sirlanney. Além de maravilhosa ela tem sido representativa! Apesar de nossos trabalhos apontarem pra direções muito diferentes – tivemos uma conversa uma vez em Fortaleza sobre como nossos gostos pessoais em quadrinhos eram diferentes – eu reconheço que ela tem tomado uma importância muito grande até como referência de participação feminina nos quadrinhos nacionais.
O patreon dela tá indo bem. Fora isso tem a Rutu Modan, né?

Tem. Mas olha aí! Esse lance do patreon é chuncha mesmo? A coisa funciona, é? Vou falar com ela. Quem sabe não vejo uma parada dessa pra mim também? “Give me your money, bitch!” Meu, não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (último gole de café)

Asterios Polyp olhando pro próprio calo. Eu já devo ter lido essa cena isoladamente umas 15 vezes. É sempre uma rasteira.

É, e caí de cara uma vez. Fê, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Charlie Brown.
(Infelizmente o charme da criança apaixonada e desajeitada se esvai lá pelos 14 anos de idade e aos 24 você é só um adulto chato, auto piedoso e desempregado).

Não é difícil ser Charlie mesmo… Imagine que você está na pele do Minduim e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Os roteiros de Peanuts sempre parecem desesperadores pro Charlie, Deisy.

É, foi uma redundância.

É uma metáfora pra vida, talvez. Eu ia – como ele – deitar no chão e esperar.

“Que puxa….” Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais, Fê. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

Assim como nunca broxei também nunca fui abduzido.
Uma das duas afirmações é mentira. Não vou dizer qual.

(Observando por cima dos óculos, prefere não comentar) Obrigada pela entrevista, amor. Tu quer uma sobremesa?
Não sou muito bom de doce. Aceito um pão de queijo.
Tá bom. (ao garçom) João, manda um pão de queijo?
O que Felipe Portugal não sabe é o que estava programado para entrar no bar exatamente agora. Os acordes de uma trompa e banjo seguidos pela guitarra e voz de Jeff Mangum e seus comparsas do Neutral Milk Hotel.
felipe-portugal
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