Magenta King

9 horas (Bimbo Groovy), Ghost Numbers (Bimbo Groovy)…

 

Quer pedir um café? Suco?

Será que rola um Irish Coffee? Sou um hipster enrustido. (risos)

Pior que deve ter, viu? (ao garçom) João, tem Irish Coffe? 

Café irlandês? Tem sim.

(Pegou Deisy com essa) Vê… dois pra gente, por favor. (ao Magenta) Vamos ver se isso é bom mesmo. Meu querido, vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem? 

Perfeito! Eu sou um poço de coisas desnecessárias! Tipo um gif humano.

Ah, mas se tem uma coisa que é extremamente necessária sãos os gifs animados! (seríssima) Vidas foram salvas. Mas vamos ao que interessa: que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? 

Na real, eu adorava desenhar desde cedo, e, quando ganhei minha primeira revista em quadrinhos, fiquei maravilhado com aquele mundo de desenhos intrincados. Tive a sorte de meu pai concordar em me comprar Conan, X-men essas coisas.

Começamos bem.

Nunca fui muito fã de desenhos de bichos falantes ou coisas parecidas. Gostava dos meus quadrinhos com humanos. (Nos desenhos animados, a preferência era outra: Duck Tales, Tartarugas Ninjas, Swat Cats, hahah).

Swat Cats!! Tão querendo voltar, né? (o garçom serve o tal do “Irish Coffe”) Ah, obrigada, João. (cheirando) Hmm, já me ganhou pelo cheiro. (provando) Olha, não que é bom mesmo? (Magenta sorri frente a preocupação mortal de Deisy) Isso faz de mim uma hipster?

Hahaha, todos somos Hipsters em algo.

Meu deus… (com o cotovelo apoiado sobre a mesa e os dedos comprimindo as sobrancelhas) Mas continue. Eu interrompi você. (por mais hipster que seja, não resiste ao cafe)

Acho que o lance era que, no quadrinho, tava lá impresso, eu podia ficar olhando horas e horas, e me identificava mais com humanos. Mas péra, fugi total!

Ochi.

Você me perguntou porque eu entrei nessa roubada de FAZER quadrinhos. Hahahah. Tá tudo junto, acho. Logo que comecei a ler, comecei a fazer os meus quadrinhos. Dobrava, grampeava, desenhava e colocava na estante. Lembro até hoje de sempre querer fazer revistas de 200 páginas, montar tudo, mas desenhar só umas 20. (risos) Quase igual hoje em dia. Depois da adolescência, conheci feiras de anime (me julgue!), e aí foram fanzines e mais fanzines. (bebendo seu café irlandês ou Irish Coffe. Como preferir)

Não sou um episódio do Law and Order para julga-lo, coração. Diga-me, o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Fisicamente, o desenho é o que faz meu pipi endurecer. Hahaha.

Hahaha, (olhando pros lados e falando baixinho) tarado.

Sou um desenhista, isso me chama atenção, me prende, e faz eu querer ir em frente na leitura. Faz eu querer fazer igual, querer ser tão foda quanto essa arte que tá aí. Acho que páginas bem feitas, bem pensadas, com espaços bem definidos. Mentalmente, é o fato de ter uma experiência de conhecer algo que eu não sabia que estava lá, mesmo num tema ou lugar familiar. Amo narrativas que me contem uma parte da história, que não me entregue tudo como se fosse um resumo, uma ficha técnica da polícia. É mais ou menos como na vida, que conhecemos pessoas na atual situação, e não temos uma prévia da vida dela. Conhecemos o momento e, por isso encaramos do jeito que encaramos. E, além disso, algo que não seja totalmente real. Se eu quiser ver Tóquio real, eu pego um avião e vou pra lá. Ou, se tiver sem grana, abro o google street view, e pronto, real life (ou quase, já que é pela internet, haha).

(Com pequenos corações brotando de seus olhos, que despencam criando splashs em seu café irlandês) Já falei que você está muito sensual hoje? 

Obrigado, deve ser a minha barba magenta. Tem um poder de sedução misterioso.

Posso toca-la? Ela parece tão irreal… (esticando-se sobre a mesa, apontando o braço. Quando está quase tocando, um momento de lucidez a acomete, retraindo-se de volta ao lugar) Não, melhor não. (Magenta abre os olhos decepcionados) E o que é mais broxante?

Cagadores de regra, desenho ruim (não estilizado, ruim mesmo, tipo de quando você não sabe e se apoia na muleta do estilo). Narrativa mal feita, sem preocupação com o leitor. Quadrinhos de pelúcia também, me deixam louco. Dá pra sentir a gosma brega escorrendo pelas páginas, derretidas pelas chuvas ininterruptas e olhares tristes. (apertando a longa barba contra o pescoço ao mesmo tempo que levanta alguns fios do bigode para beber o café irlandês. A sedução tem sem preço)

Assim você acaba comigo, Ma.. (risos) Vamos deixar essa “gosma brega” de lado e… Deixa eu ver onde eu parei aqui. (olhando suas anotações) Ah, sim. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (ela está ficando viciada em Irish Coffe)

Eu acho que somos o primo mais descolado, independente e auto suficiente! Tipo, uma pessoa consegue fazer um quadrinho de ponta a ponta (menos impressão, claro. Se bem que se for em impressões em menor escala (digital, silk coisas assim), até isso dá pra fazer). O cinema é algo mais coletivo, tem que ser feito em mais pessoas, é mais caro, é mais complicado. Mas os dois buscam o mesmo: contar uma história.
Sobre algum quadrinho que gostaria de ver no cinema… algo do Taiyo Matsumoto, tipo Go Go Monster ou Sunny. Qualquer coisa do Paul Pope (a lenda é que Battling Boy vai sair, mas sei lá). Qualquer coisa do Chris Ware (apesar de que, teria que ser um diretor bem bom, pra não deixar melancólico e cansativo demais).
E, puxando a sardinha pro meu lado, gostaria muito de ver uma versão melhorada do 9 Horas. Meu ponto de partida foi sempre o Encontros e Desencontros. Claro, com a presença maior do Bill Murray, sempre. (mandando o café irlandês pra dentro da goela com todo o cuidado para não molhar a barba sagrada)

Vou te dizer que adorei aquilo, cara. Não acreditei quando vi o Bill ali. Olhei e disse: “Meu, é ele! É o Bill. Ah, Magenta desgramado…” (risos) Muito bom! Foi uma boa viagem à Tóquio realmente. Você citou o Matsumoto que é mestre supremo e absoluto. Preto e Branco é uma das coisas mais fodas que já vi. Já a animação que fizeram… Não sei… Não me bateu. Umas das melhores cenas ficaram de fora… Você, você assistiu? Gostou?

Olha, eu adorei a animação, achei linda visualmente, interessante e tal. Mas não tem muito do clima do quadrinho. Acho que acabou virando uma versão do livro. A animação prima pela arte foda, já o livro é mais a história e o Matsumoto tentando achar um estilo (que em algumas páginas fica bem podreira, mas lindo do mesmo jeito! (risos) Enfim, gosto dos dois, mas de modos diferentes.

Sim, acho que vou pela mesma linha. (golinho) Uma quadrinista foda (fora a Brechdel, Marjane e Laerte que já foram enormemente citadas) e porquê?

Te dizer, sou um leitor beeem relapso de quadrinhos.

Oh! Sério?!

Gosto de muita coisa de poucos autores/as. Sinceramente, leio pouco, me enche rápido muita coisa. Haha.

Hahah, ultimamente tenho ficado mais literatura também, então…

Mas, respondendo, eu sou um fã (fã mesmo, fanboy, babão) da Jillian Tamaki.

Ela é incrível.

This One Summer, último livrão dela e da (prima?) Mariko Tamaki.

Acho que sim.

É sensacional. O traço parece rápido, mas é meticuloso, solto e delicado. A história é linda, e cheio de coisas reais, como palavras soltas, silêncios incômodos. E os personagens são reais. As ilustrações dela são lindas em qualquer mídia. E ela tem um quadrinho online chamado Supermutant Magic Academy. É o X-men que queria ler, e fazer.

Olha! Não conhecia esse. Meu deus… Essas meninas são barra pesada! Vou fuçar isso depois. (escreve no bloco de anotações para não esquecer) Supermutant Magic Academy. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (matando o irlandês do café, o… bem, você entendeu)

Bastien Vivès é um monstro. Esse foi o primeiro contato que tive com ele, e achei absurdo como ele conseguiu fazer um livro inteiro sobre duas pessoas na piscina. Ele é um puto.

Ele é. Putasso!

A cena que eu fico arrepiado sempre quando releio, é uma do Go Go Monster, do Taiyo Matsumoto. Tem um garoto, o Sasaki, que anda constantemente com uma caixa de papelão cobrindo a parte superior do corpo dele. É um tipo estranho, metódico e que cuida dos coelhos. É um típico garoto estranho e isolado. Nessa cena em especial, é quando os amigos imaginários do Tachibana, o protagonista, estão numa tensão, tudo parece estranho e perturbador na escola. E, no meio do jogo inter classes, o Sasaki aparece com a caixa toda rabiscada, um total caos. Ele tem um ataque de nervos, porque o coelho branco preferido dele sumiu. É uma cena estranha, dizendo assim, parece meio boba, mas a intensidade da situação é absurda. Ele mostra como o mundo de uma criança pode ser tão complicado e caótico como o de um adulto.
Eu sou totalmente derretido por esse trampo do Matsumoto. Um dia ainda, quero poder fazer um trabalho tão bom.

E eu ainda não li esse, droga! (batendo na mesa) Sem verba pra importações… Podiam publicar mais coisas dele, né, gato? (para a câmera imaginária, fazendo doce) Senhor editor, publica aí o Matsumoto, vai… Pufavô… (ao King) Isso que você falou da infância, de com ele mostra um mundo tão caótico quanto o de um adulto, não são muitos que percebem isso. Mas quando trazem isso à tona, cara… Só para coroar ao assunto: Senhor das Moscas. E pronto. Pronto, não. Podiam editar aqui o El Señor de Las Moscas desenhado pelo Jorge Gonzáles. Uhhhhhh… papa fina, cara. (Magenta está realmente apanhando para tomar seu café irlandês) Beba logo esse café que eu vou te fazer uma pergunta indecente. Posso?

Haha, claro, indecência é nóis! hahaha.

IÉEEEEEEEAAAAAAAAhhh! (balançando a cabeça completamente ensandecida, para surpresa do Rodrigo. Voltando ao normal como quem sai de um estalo hipnótico) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Olha, (com certa cautela agora) masculino, eu acho que seria o Astroboy. Adoro o visual, ele ser um robô criança, mas ser um tremendo maluco forte e tal. Mas detesto o universo do Tezuka.

Ah…

Desculpa, não sei porque, mas não me desce.

Nem o Metrópolis?

Então, acho o melhor. Mas as séries maiores me dão sono. É estranho, porque, ao mesmo tempo que me dá preguiça, o traço muito infantil contrastando com as histórias mais adultas, me chama atenção, e me faz querer ver mais. Mas dura pouco, hahaha.

Você não tem paciência mesmo, hein? (rindo)

Mas Astroboy é no coração pra sempre. Acho que é tipo o Tintin, pra mim. Ele é um personagem visualmente foda e promissor, mas as histórias são tão chatas. (Deisy faz uma carinha de tristeza)
, do The Nao of Brown, do Glyn Dillon. Eu tenho todos os toques quase psicopatas dela, e me identifico demais com a aversão a pessoas que ela sente. hahahah. Mesmo eu sendo um cara simpático.

(Rindo) Sua simpatia é mesmo… (luz teatral) assustadora! (risos) Imagine que você está na pele da linda Nao – que ainda não tive o prazer de conhecer – e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Se fosse um futuro desesperador, tipo, sem grana, sem casa e fodida, eu estaria andando por alguma rua cheia de gente tentando achar (em vão, claramente) algum sinal de algo que me tirasse da merda. Se fosse um futuro desesperador, tipo fim do mundo, eu acho que sentaria em algum lugar seguro pra desenhar. Morrer desenhando deveria ser o correto.

Isso está correto. Amore, última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Foi uma delícia. Temos que repetir, com mais álcool.

Uhhhh, lacrou geral, gatoooo! Obrigada pela entrevista, Rô. Tenho até medo de perguntar isso, mas (apertando os olhos) aceita uma sobremesa?

Bóra comer aqueles doces japoneses com carinhas de bichinhos. O gosto é ruim, mas a sensação de parecer um gigante deglutindo criaturas fofinhas, compensa.

Sem dó nem piedade. (ao garçom) João, sabe aqueles docinhos carinha de bichinho? Tem aí?

Tem.

Traz pra gente… (percebendo que a vontade é grande) dois de cada do que tiver. Brigada. (ao Magenta, um pouco abismada) Meu, eles tem tudo aqui…

Minutos depois, João traz os famosos doces japoneses. Todos sorrindo com extrema felicidade. Parece um pecado come-los de tão fofos que são. Mas quem se importa, não é mesmo? Deisy e Magenta King se fazem. Arrancam orelhas, olhos, narizes… Tiram fotos um do outro com o docinho morrendo em suas bocas. Barba magenta coberta de farelos. Doce barbárie! Até que uma manada de Popin Cookins invade o bar/cafeteria. Ursos pandas, Darumas, Maninekos e outros monstros da diabetes de dois metros de açúcar cercam a mesa onde estão os dois que param de comer imediatamente. Onde está o Bill Muray quando se precisa dele?

magenta-king

Anúncios

3 comentários sobre “Magenta King

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s