Raphael Fernandes

Revista Mad (editor), Editora Draco (editor), Apagão (Draco),

Ditadura no ar (Draco), Newsletter

 

Quer pedir um café? Suco?

Café, puro! Gosto de colocar o açúcar antes e não mexer. Daí fica o contrário de um relacionamento, começa amargo e termina doce.

Pelo menos no café, né? (sorrindo, chama pelo garçom) João, traz dois cafés pra gente? Mas traz a xícara primeiro pra ele adoçar antes? Obrigada. (ao Raphael) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Só me interessam as perguntas que não interessam. Manda brasa!

Oyeah! Que diabos aconteceu com você para fazer, editar quadrinhos? 

Longa história.

Quem está com pressa? (olhando para os lados)

Foi meio sorte, meio azar. Em 2005, estava totalmente desiludido com a minha graduação em História na USP. Odiava dar aulas pra molecada desinteressada.

Ah, não dá, né? 

O garçom traz a xícara. O açucareiro já estava na mesa.

Nesse meio tempo, (colocando o açúcar) comecei a fazer os cursos de Quadrinhos da ECA, com o Professor Waldomiro. (entregando a xícara para o garçom) Obrigado. Era o tipo de aluno bitolado que terminava a aula e ia para o acervo de quadrinhos do Capitão Nemo, apelido carinhoso que dei pro professor. Numa dessas bitolações, ele me disse que na próxima aula um editor da Panini ofereceria uma vaga de editor assistente, até mesmo me falou pra já ir com o currículo.

Olha!

Bom, eu fiz o currículo mais mentiroso do mundo e acabei sendo chamado, (Deisy ri) fiz alguns testes e, pronto, virei editor.

Pô, vai mentir bem assim lá em casa! (risos)

Daí levei porrada na orelha até aprender a fazer o trampo e acabei sendo escalado pra fazer a revista que todos odiavam editar: a MAD. O problema é que eu adorei editá-la! E daí pra frente fui estudando e me especializando até começar a escrever minhas histórias. Por fim, não sei mais viver sem editar quadrinhos.

Que lindo. (risos. O café é servido.) Obrigada, João. (ao Raphael) As pessoas odiavam a Mad? Que mundo… Vamos falar de “coisas boas”, então. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (bebe seu café)

Fico realmente de grelo duro (as sobrancelhas de Deisy, arqueiam) quando a história é capaz de nos apresentar um mundo novo e tudo a nossa volta desaparece. Acontece de vez em quando, mas é algo realmente especial. Não precisa ser revolucionário ou mesmo lindo, mas precisa levar a gente pra dentro daquele mundo que está sendo narrado. (seu café está do jeito que gosta)

Imersão total. E o que é mais broxante?

Como roteirista, fico realmente desestimulado quando uma HQ é MUITO BEM DESENHADA, mas o roteiro não é nada atraente. É tão difícil conseguir um desenhista, que eu tenho certeza que os bons roteiristas aceitam facilmente conduzir um plot vindo do desenhista.

Não sabia que tava tão difícil assim conseguir um desenhista. Que foda… Bem, uma vez o Coutinho foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (café)

Nem mesmo entraria nessa discussão! É como dizer que o rock é o primo pobre da poesia, afinal, são coisas tão diferentes de produzir e criar. Além dos meus delírios de ver meus próprios projetos virando filme (baita divulgação do meu trabalho. T$HI T$HIN!), (ela sorri) gostaria de ver A Balada de Johnny Furacão, do Sama. Também seria legal um filme do herói nordestino Cabra D’ Água, de Airton Marinho. Agora, de animação, seria foda uma série do Marcatti! Os filmes são uma boa porta de entrada para os gibis!

Sonho com uma animação do Marcatti há anos! É um pesadelo até recorrente em que eu sou acorrentada por um daqueles personagens e… (coçando a cabeça) deixa pra lá. Uma quadrinista foda e porquê? 

Vou optar por falar de uma que eu acredito que tem potencial para ser mais que foda: Laura Athayde. Desenha muito e está numa verdadeira febre criativa que nem Novalgina ajuda a baixar. (café)

Hahaha, baita mina foda! Tenho visto o que ela anda postando também. Espero que nada baixe essa febre. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Claro que eu lembro dessa cena, muito bom esse quadrinho. Sou um grande fã dos britânicos que construíram a Vertigo, mas uma cena que acho muito poderosa é quando o Monstro do Pântano vai parar em um planeta de vegetais humanoides e seu corpo se constrói misturando as pessoas.

Nossa, eu lembro disso…

E isso acontece no exato momento em que um casal estava fazendo sexo e eles conseguem saber o que estava se passando na cabeça um do outro durante o sexo. Ao invés de ser algo maravilhoso, o casal entra em colapso e se fragmenta no todo. Alan Moore sabe das coisas.

Muitos anos trabalhando com forças ocultas dá nisso. Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Perguntinha maldita! Sinceramente?

É, eu sei. (matando o café)

Eu seria qualquer um dos personagens de Os Invisíveis! O líder anarquista King Mob, a xamã transgênero Lord Fanny, a louca sensitiva da Ragged Robin, a mulher durona Boy… todos são sensacionais. Porém, se fosse escolher um personagem brasileiro seria facilmente o Diomedes.

Diomedes faz muito sucesso por aqui. Imagine que você está na pele gordurenta dele e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

HAHAHAH! O que eu ia fazer? Como o bom detetive criado pelo Mutarelli, com certeza, eu já estaria tão enfiado na merda que ia seguir em frente. Até estar com merda até o pescoço e poder rir disso. Afinal, não adianta correr contra seu destino se nada de interessante acontece além dele.

Boa! Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais, Rapha. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido ? 

Eles me colocaram numa maca e me levaram até o meio de uma grande sala iluminada. Dava para ver que eles eram baixinhos, cinzas e tinham estranhos olhos de coruja, mas usavam apenas uma sunga branca e nada mais (mesmo as fêmeas). Fiquei com muito medo, mas logo me explicaram que eles só removeriam o chip que o governo implantou na minha cabeça para que eu possa receber tranquilamente a lavagem cerebral da TV aberta. (Deisy não esconde o riso) Agradeci na mesma hora e perguntei se não podiam também apagar algumas memórias ruins no processo. Me disseram que eram elas que formavam minha atual personalidade. Preferi manter. Depois da operação, a gente foi pro Astronete e bebi tanto que não lembro como cheguei em casa. Foi o de sempre!

(Atônita) Nossa, Rapha, então é por isso! Putz… Isso explica muito! (agora é o Raphael quem arqueia as sobrancelhas) Sempre me intrigou o fato de encher a lata e chegar em casa no automático, sem lembrar de nada no dia seguinte. É por isso! (batendo na mesa) Esse maldito implante que eles fazem. Se bem que… pensando bem…  Obrigada pela entrevista, meu caro. Aceita uma sobremesa?

Se tiver um sorvete de limão, agradeço demais!

Só se for agora!

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