André Kitagawa

Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Narval Comix), MSP+50 (Panini), Torre David (Urban Think Thank),  Chapa Quente (Independente), Projeto Gazzara (Narval Comix)

Quer pedir um café? Suco?

Cerveja. Ok, café. Se bem que parece que o café não faz mais efeito em mim. Mas continuo bebendo.

É impressão. Comigo é o mesmo. Mas se eu parar de beber, cara… Capoto em dois segundos. PUFT! (ao garçom) João, manda dois cafezinhos pra gente, por favorObrigada(ao Kitagawa) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Claro, coisas desnecessárias são essenciais.

Sempre. (preocupadíssima) Que diabos aconteceu com você, Kita, para fazer quadrinhos? 

Eu era viciado em desenhar desde que nasci praticamente. Eu era bom, mas não tinha muito propósito nem direção, eu só gostava de faze-lo. Eu sequer guardava os desenhos. Lá pelos 13, 14 anos, comecei a notar que os quadrinhos de super heróis que o meu irmão adorava, e eu desprezava, estavam ficando diferentes, mais maduros. Fiquei meio viciado em alguns deles e o engraçado é que demorou um pouco para eu me dar conta de que eu tinha a faca e o queijo na mão pra fazer aquilo. E fiz a decisão, consciente. (o café é servido) 

(Ao garçom) Obrigada.

Passei por uma fase de grande aprimoramento, (açucarando seu café) estudos, visando me tornar um desenhista de estilo “marvel”. Mas logo perdi o interesse por quadrinhos de super heróis e passei por um outro processo, de desconstruir o estilo “marvel” e de procurar por um estilo, digamos, autoral. A procura continua. (provando do café para ver se está bom de açúcar)

Os processos de desconstrução são os melhores. Ainda bem que você veio para o “lado negro da força”. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (bebericando o café)

Acho que não é muito diferente de ficar excitado com um livro, um filme, uma peça… O mais importante é você mergulhar na história, vivenciá-la. Claro que muitas vezes você pode se deleitar com aspectos técnicos e estéticos, mas de pouco valem se não potencializam a história. (bebendo café)

Isso! E o que é mais broxante?
O que mais me broxa é uma narrativa mal pensada, mal feita, que não faça a coisa fluir e dificulte a apreciação da história. Existe uma arte de narrar graficamente que muitas vezes é negligenciada. Fazer um bom desenho é só metade do caminho pra ser um quadrinista. Não que eu seja o fodão nesse sentido, mas sou muito crítico. (bebendo seu cafezinho)

Tem que ser mesmo. Estamos falando de arte narrativa. Saber narrar visualmente uma história é o principal. O teu Chapa Quente é um exemplo disso.

Valeu.

Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Concordo 100% com o Rafa. Quadrinhos são uma arte com luz própria. É a arte de contar histórias através de imagens, no caso, não cinemáticas, o que a diferencia do cinema. É uma das artes mais antigas.
Uma das poucas obras que realmente me fizeram pensar numa adaptação é o “Adeus Chamigo Brasileiro” do André Toral.  Se algum dia fizerem um filme da Guerra do Paraguai, acho que tem lá um argumento muito digno, com cenas e situações muito boas, feito de pontos de vista desconcertantes e sem babaquices. E sem deixar de ser um “épico”.

Uma quadrinista foda e porquê?

Meio veio à cabeça a Marjane Satrapi. Engraçado é que só li o Bordados, uma obra menos badalada, “menor”. Mas achei irretocável, de uma simplicidade exemplar, nos desenhos, na narrativa, na história… Sei bem o quanto é difícil ser simples e despojado, por isso admiro artistas assim. Confesso que leio bem menos quadrinhos do que deveria, por isso conheço poucas quadrinistas, mas sei que elas estão por aí. (liquidando o café)

E em todos os lugares. 

Deisy olha ao redor com um sorriso de satisfação no rosto devidamente retribuído por Bianca RibeiroCristina EikoFernanda NiaManzannaMariMazôSamanta FlôorCarolina ItoFernanda ChiellaPaula PuiupoLaura Athayde e Mariana Waechter que ocupam as demais mesas.

Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Eu li, coisa linda, até demais. E perfeitamente narrada.

Vou comentar um cena que é meio o oposto dessa. No final do Maus, de Art Spiegelman, há uma cena de reencontro feita da maneira mais simplória possível, mas que consegue ter uma carga dramática muito intensa. Se fosse um filme de hollywood, essa cena seria provavelmente insuportável.

Provavelmente. Vou te fazer uma pergunta indecente, Kita. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Acho que o Garfield. (risos)

Adora uma lasanha, né? Imagine que você está no couro do Garfiel e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Se não há nada que eu possa fazer quanto a esse futuro desesperador, provavelmente não gostaria de fazer nada. O que não me impediria de surtar, mas aí não seria questão de gosto. Suicídio é sempre uma opção válida. (risos)

Como diria o Bigodudo: “ajudou muita gente a atravessar noites difíceis”. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Foi perturbadoramente prazeroso. (rindo)

Kita, obrigada pela entrevista. (pousando sua mão sobre a dele) Aceita uma sobremesa?

Não.

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