Érico Assis

Érico entra no café, esbaforido. Passa em três mesas perguntando “Oi? Deisy?” Na terceira, aliás, era um cara. Deisy abana para o Érico. Ele chega na sua mesa e:

Desculpa. Desculpa. Desculpa. Bilhão de desculpas. Era às três, né?

São quatro.

Era às duas. Três terças-feiras atrás(comunica, polidamente, a dimensão do atraso. Ele fica sem palavras)

Meu. Sério? Putz.

Deixa, não tem problema. Senta aí. Quer pedir um café? Suco?
Hã, suco? Tem de antivergonha? (puxando a cadeira)

Rapaz, acho que até tem, viu? Mas é desnecessário. Vou pedir um de manga pra você e aproveitar e fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Claro.

(Ao garçom) João, manda dois sucos de manga pra gente? Valeu. (ao Érico) Que diabos aconteceu com você para se interessar tanto por quadrinhos? 

Em relação a como comecei a ler, meus pais me davam gibis antes de eu pedir, antes de ler. A culpa é deles. Modéstia à parte, eu leio bastante. Pra ler bastante gibi, tive que inventar um jeito, ou uns jeitos, de ganhar dinheiro lendo gibi. Aí virei jornalista especializado nisso e tradutor especializado nisso.

Acho que a única pessoa que não ganha dinheiro com quadrinhos é quem faz quadrinhos… (risos. Os sucos são servidos. Eles agradecem. A manga desce encorpada e geladinha) Hmm, o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica, Érico? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Eu acho que tem uma coisa do texto que é mais intelectual, que faz a gente imaginar, e uma coisa da imagem que é mais sensual, que faz a gente se apaixonar. Ou o inverso, o texto que é sensual e a imagem que é intelectual. Ou eu gosto quando as duas coisas são intelectuais e sensuais.

Sei lá. Eu tô lendo aqui esse do Frederik Peeters. (Mostra o álbum.) Olha esse desenho.

Uau!!

Olha essas cores.

Meu… ele parece flutuar entre os estilos. Já é bem diferente do Pílulas… (folheando as páginas) Cara…

Tu não queria que o mundo inteiro fosse assim?

Mas não tenha dúvidas! (sem tirar os olhos do quadrinho)

De repente é isso. Acho que eu me excito com a narrativa quando eu fico com vontade que o mundo fosse daquele jeito.

Estou ovulando aqui. (Érico lança um olhar dúbio) Sério. Muito foda isso. (devolve a HQ com extrema hesitação) E… o que é mais broxante na narrativa gráfica? (atenta a todo o movimento que o Érico faz ao guardar o álbum na bolsa-carteiro, ainda salivando)

Mmm, quando eu não queria que o mundo fosse daquele jeito?
E não tô falando, tipo, da história. Sempre fui mais ligado no jeito como contam a história. É óbvio que eu não queria que o mundo fosse cheio de zumbis, mas, pô, tem momentos lindos no Walking Dead – o gibi, mas o seriado também – que dá vontade que o mundo fosse daquela aparência, daquele ritmo, sei lá, daquele jeito. (bebendo seu suco)

Ah, a vida real é um porre às vezes.

Só agora notamos um casal na mesa ao fundo porque a moça levantou-se indignada com algo que ele disse. Ela pega sua bolsa a tira-colo e sai apressadamente. O rapaz na outra ponta da mesa observa-a com a maior frieza do mundo até ela sumir de vista. Ele volta a beber seu café como se nada houvesse acontecido. 

Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Posso meio que fugir da pergunta? (entredentes) Potz, o cara chega atrasado e ainda fica evitando pergunta.

Por favor. (sorrindo)

(Voltando à voz normal) Assim, eu acho que toda adaptação deixa de ser a coisa que adapta, e aí eu julgo aquilo como outra coisa. Tipo, o filme é o filme, o gibi é o gibi, o livro é o livro, e não me interessa se um é baseado no outro. Então, se eu curto um gibi, quero que ele continue sendo o belo gibi que é.
Agora, (correndo os dedos pelas gotas d´água que se formam no copo) se é pros nossos amiguinhos ganharem grana, quero, sei lá, que o Felipe Nunes escreva um roteiro foda pra Pixar. Mas que também não pare de fazer gibi.

Jamais! Uma quadrinista foda (fora a Bechdel, Marjane e Laerte que já foram extremamente citadas) e porquê? 
Hoje eu tava lendo o Nimona da Noelle Stevenson. Geniazinha pra diálogos, né?

Total!

Já traduzi um meio dela também, muito bom. Mas foda, foda mesmo, que eu acho que tá entre melhores quadrinistas do mundo agora é a Jillian Tamaki. Ela é monstruosa. Tem tudo, tudo, tudo de história de narrativa dos quadrinhos nos quadros dela, e o traço ainda é lindo. Já viu This One Summer?

Não… Tô esperando alguma editora publicar aqui.

Eu já li umas cinco vezes, leria hoje de novo. (virando o suco)

Com sua tradução, gatinho. (piscadinha. Érico fica levemente embaraçado) Modéstia é uma virtude. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Não lembro muito do Gosto no Cloro… Mais ou menos, só, dessa cena.

É um tipo de cena que se aloja no cérebro.

Acho que tem muita cena legal, mas a minha preocupação é sempre achar a próxima. Mesmo que eu não consiga lembrar de muitas, por causa disso, tem uma página dos X-Men do Joss Whedon, com o John Cassaday, que é aquela cena em que o Colossus volta da morte e passa correndo pela Kitty Pryde. Pela Kitty Pryde mesmo, ele atravessa ela. E aí ela fecha os olhos e coloca a mão no peito. São três quadros, não tem texto. Tô me sentindo mega nerd de super-herói citando essa cena, mas é que cresci lendo muito super-herói, li aquilo já sem idade pra ler super-herói (se é que tem idade) e, pô, era uma cena feita pra minha geração, pode ser? São só três quadros. Tem uns vinte anos de história ali.

Essa é outra que se aloja no cérebro. (sorrindo)

Mas, pra ser menos nerd: tem uma HQ do Vivès que eu lembro mais, que é Polina.

O rapaz da mesa ao fundo se levanta.

Que é sobre uma bailarina, que tem uma cena no final que, eu não sei o que o Vivès faz, mas tu consegue ver ela dançando.

Ele não espera pela conta. Deixa uma nota de vinte sobre a mesa.

Tu entende perfeitamente qual foi o movimento dela ali, em, tipo, quatro desenhos. E fecha tão bem o álbum…

Sai do bar. O sol está a pino e o mundo lá fora parece a mesma merda de sempre.

Vivès, seu desgraçado, é o tipo de desfecho que acaba comigo… Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Olha, pela aparência física, do rosto, no caso, sempre me dizem que sou a cara do Michel, que é um personagem infantil do Pequeno Vampiro, do Joann Sfar.

Hahah, que fofo.

Até uso ele de imagem minha, já que não sou muito chegado às fotos da minha pessoa.

Pior que parece mesmo. (risos)

Também já me compararam com o Tintim.

Naimm, acho que estavam com má intenção pra cima de você, hehehe. Pois muito bem, imagine que você está na pele do Michel ou Timtim, quem você quiser, e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Ahm. Viajar pra Islândia? É que eu sou uma pessoa meio inútil. Tipo, dos primeiros a morrer no ataque zumbi. Então, se o futuro é desesperador, não vai me sobrar muito tempo. E eu ainda quero viajar pra Islândia, então…

Também quero! Uma amiga minha fez residência lá por uns meses. Residência artística. Ficou em naquelas casas de madeira com teto forrado de grama no meio do vale, cercada por cavalos selvagens. (suspiro) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

Abdu… Ah, então foi ISSO que aconteceu? Eu sabia que não tinha passado três semanas. Se não, por que você ia ter vindo pra cá hoje?

Eu ia entrevistar a Laerte hoje. Aliás, entrevistei. Ela já foi embora. 

Potz, perdi de encontrar a Laerte. E ela, foi abduzida? Hehehehe.

(Séria) Foi.

Érico sem palavras de novo. Olhos arregalados. As duas mulheres e um cara das outras mesas agora estão em volta da mesa da entrevista. As janelas fecham. Os olhos de todos ficam verdes. Menos do Érico.

erico-assis

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