Mário César

Entrequadros (Balão Editorial), Pequenos Heróis (Aquário Editorial),

Futuros Heróis (Desiderata)

 

Quer pedir um café? Suco?

Não deveria por conta da gastrite, mas um expresso bem forte, por favor.

Gastrite que nada! (ao garçom que já estava ali do lado) Também vou no café, João, o de sempre. Brigada. (ao Mário) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

São sempre as melhores perguntas. Vá em frente, gata.

Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos, seu lindo?

Olha. Por vontade de ficar rico é que não foi… (risos) Sempre digo que foi uma paixão de adolescente que virou amor pra vida. (pequenos corações começam a surgir nos olhos de Deisy) Eu cresci lendo quadrinhos. Me alfabetizei com Turma da Mônica e quando comecei a ler gibis de super-heróis tive uma identificação muito forte, especialmente com os dos X-men que são ícones muito fortes pra quem não se encaixa nos padrões, pra quem é esquisito e deslocado. E eu era nerd, gay e me achava feio. Então já viu, né?

Já disse que você é lindo hoje?

Obrigado. São seus olhos. E você é linda também. Ah, se eu gostasse da fruta…

Ôuuu Jisâs… (o café é servido. O garçom sorri com o comentário do Mário) Obrigada, João. (ao Mário que está retribuindo o sorriso) Sabe que o mesmo aconteceu comigo? Sempre gostei mais dos desajustados. X-men eram desses. Os quadrinhos tem disso, né, de te levar para outros lugares e quase te colocar ao lado deles. (bebendo café)

Sim! Nenhuma outra mídia me cativou tanto quando eu era menor por conta disso. Conforme fui crescendo fui descobrindo Will Eisner, Neil Gaiman, Art Spielgman e aí fudeu o rolê todo. (Deisy solta umas risadinhas infantis) Vi que quadrinhos não era só coisa de criança e adolescente, mas só fui criar coragem pra fazer os meus próprios quadrinhos depois de me formar na faculdade de design gráfico. (tomando um gole do café) Trabalhei como designer gráfico por um tempo e ia fazendo minhas coisas de forma mais amadora nessa época. Publiquei algumas coisas na internet. Depois trabalhei na editora Via Lettera por um tempo e lá eu editei muitas HQs. Só quando saí de lá foi que eu passei a me dedicar mais só aos quadrinhos e estou nessa até hoje. (tomando outro gole do café)

Está em um bom lugar, amore. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica, Mário? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Quando o artista consegue conciliar a técnica e o conteúdo de forma orgânica e criativa. Mas sobretudo o tesão. Pra mim é visível quando um artista dá o sangue pra fazer o quadrinho e quando ele tá sendo preguiçoso.

É, cara! Dá pra sacar quando bate o cansaço não só no desenho como no texto também. Já que a vez é essa: O que é mais broxante?

Acho broxante ver uma arte excepcional, mas sem fluidez narrativa ou contando um enredo fraco. Ou quando o desenho é tão rebuscado ou poluído que você tem que parar pra entender o que está desenhado. Ou quando vejo uma boa história mal desenhada e por mal desenhada não é no sentido do desenho não ser vistoso ou tecnicamente impecável, mas quando simplesmente não consegue narrar direito a história.

Não é fácil essa vida… Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Pobre só no sentido financeiro da coisa. (risos) Como forma de arte não deixa nada a dever ao cinema ou a nenhuma outra linguagem. Queria muito ver um filme do Talco de Vidro do Marcelo Quintanilha ou do Yeshuah do Laudo Ferreira ou do Cumbe do Marcelo D’Salete ou do Asterios Polyp do David Mazzucchelli ou uma animação do La Dansarina do Lillo Parra e do Jefferson Costa. Putz tem tanto material bom pra ser adaptado pros cinemas…

Tem mesmo! A desgraça é que, com essa coisa das teles, não sei, não… Acho que o cinema no Brasil vai minguar,(murchando na cadeira) bem minguadinho…(endireitando-se) Uma quadrinista foda e porquê?

Admiro muito a Ana Luiza Koehler.

Gente, a Ana! 

Desenha pra porra, é super inteligente e engajada. E poucas vezes vi um artista fazer uma pesquisa tão minuciosa quanto ela fez pra HQ dela, a Beco do Rosário. Ela é foda. Quero ser como ela quando crescer.

Eu também! Poxa, queria tanto tomar um café com ela, toca-la, sentir o talento por trás daquela pele e pegar um pouco pra mim. (virando-se para câmera imaginária) Ana, vem Ana. Onde você está? Vem tomar um cafezinho… Deixa eu sentir a vida através da pele e pegar um pouco desse talento pra mim? Por favor… (ao Mário que estranhara a cena, olhando de soslaio) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès… Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. (Mário bebe mais um pouco do café e o estranhamento passa) Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Li O Gosto do Cloro’’ sim. Cena linda. Adoro quando deixam as coisas no ar. O mistério pra mim é muito mais sedutor que deixar tudo explicadinho nos mínimos detalhes. Quando explicam demais parece filme pornô ruim. (Deisy ri)

Tem duas cenas muito fodas que veem à cabeça. Uma é do Você é minha mãe? da Alison Bechdel quando ela fala da depressão da mãe dela após a morte de seus avós. A mãe dela ficava assistindo um seriado e uma noite antes da Alison ir pra cama dormir a mãe dela pergunta se ela a ama. Parece uma pergunta trivial, mas quando se pergunta algo íntimo assim pra alguém fechado parece que estão jogando uma bomba no colo da pessoa. Eu sou desse jeito, custo pra me abrir pras pessoas. Essa cena me pegou de jeito.
Outra é um discussão do Asterios Polyp com a Hana a namorada dele quando ele mostra que tem uma câmera de segurança no quarto. O Mazzuchelli desenha ele com formas geométricas e em azul e ela com linhas rebuscadas e em rosa até eles se entenderem. E quando eles se entendem, voltam a ser desenhados de forma mais tradicional. É o que eu falei de conciliar a técnica com o conteúdo de forma criativa. É muito foda.

Muito. São duas cenas intocáveis. E isso que o Mazzuchelli fez, de repensar a estética para se adequar a carga emocional dentro dessa cena, isso é tão… foda e não se vê muito por aí. O Clowes extrapolou isso no Wilson, desenhando estilos diferentes de acordo com o tom da página. Acho que não precisa ir tão além assim, mas ver um personagem se enfurecendo e as linhas do desenho ficarem mais grossas, mais violentas, como se tivessem quase rasgando o papel para desenha-la, cara, isso me interessa! (inclinando-se sobre a mesa) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? 

Pode ser indecente à vontade comigo, linda.

Lacrou, delícia! Vou me esbaldar toooda!! (risos) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Eu queria ser fodão quem nem a Tempestade dos X-men. (Deisy abre um sorrisão) Foi minha primeira diva. Me apaixonei por ela antes, antes de me apaixonar pela Madonna como a maioria dos gays.

Claro, é a Tempestade! Quando fica nervosa, meu deus… O que é aquilo? Eu adorava aquela dos desenhos animados também. Sempre que ela falava alguma coisa, parecia que estava falando comigo… Nossa, bateu uma nostalgia agora, Má. (caindo para trás, deixando as costas baterem no encosto da cadeira) Imagine que você está na pele da Tempestade e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Sair voando pelada por aí atirando relâmpagos nas cabeças dos Eduardo Cunhas, Aécios Neves e Bolsonaros da vida.

Aeeeeee, rasou, miga!!! (risos) Frita eles!! (como se disparasse raios das mãos) TCHFFFHH, TCHFFHHHhh, tchffh. (voltando à realidade) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto, gatão. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

Foi um prazer tão grande que quase me senti hétero. Quase.

Hahaha, você é terrível!! (rasgando-se de rir) Gato, obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Oferecer doce pra mim é que nem oferecer banana pra macaco. Quero sim. Qualquer coisa que tenha chocolate.

Esse é dos meus!! (estapeando seu ombro como se fosse um caubói) João!

Antes que o garçom possa atende-los, uma forte ventania invade o bar. Guardanapos são os primeiros a saírem voando. Os copos que estão sobre as mesas, espatifam no chão. A ventania se intensifica rapidamente. Os clientes se levantarem assustados. A poeira da rua invade o bar. Não dá para enxergar direito o que está acontecendo. Foi o tempo de Deisy pegar sua bolsa e…

mario-cesar

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