Victor Moura

Gabinete do Dr. Caligari (Independente), Colecionador de Memórias (Independente), Amarok (Independente), Lenhador (Independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Um suco de laranja parece ótimo.

É, vou de suco também. Tá quente demais! (ao garçom) João, manda dois sucos de laranja pra gente, por favor. Não, desculpa. Um de laranja e outro de melancia. Valeu. (ao Victor) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

São os melhores tipos de perguntas.

Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? 

Olha, acho que vem dessa combinação dolorida que é gostar de desenhar e querer contar uma história. E se você quer contar uma história não tem lugar melhor que quadrinhos (ou livros), porque são mídias onde você tem controle sobre a sua produção e real liberdade de fazer o que você acha melhor sem depender de nada que você não queira.

É, rapaz, essa liberdade é mesmo fascinante. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Sombra e luz. Um traço limpo em alto contraste é o que mais chama minha atenção e me joga pra prancheta pra desenhar.

Hmm, um homem de contrastes, hein?  (serrando os olhos) E o que é mais broxante, meu filho?

Quadrinho industrializado. Aquela arte sequencial que existe pra ser vitrine publicitária onde há uma clara hierarquia que interfere no processo criativo.

Você pegou em um ponto interessante, Vitão. Editar um livro é um coisa. Publica-lo é outra. Não vou generalizar aqui. Generalização é um cocô. Mas de onde eu vejo, as editoras estão mais para publicadoras. Esperam o livro pronto com saída pra gráfica sem exercer o papel básico de debater a história junto ao autor, propor novas soluções e tal. Você me diz isso de… “interferir no processo criativo”. A palavra final sempre deve ser do autor, mas não cabe exatamente a editora essa função de interferir quando necessário? 

Pois é. Há uma diferença entre interagir e interferir. A interação pode gerar coisas muito positivas. Uma sugestão vai te oferecer uma visão diferente da sua e essa interação gera novas ideias q podem ou não ser seguidas. Mas a decisão final tem que ser do autor, claro. E isso é algo que NÃO ocorre no cinema. Cada vez mais no cinema quem manda são os anunciantes (no cinema, nos jornais etc). Nos quadrinhos isso ainda ocorre em editoras realmente grandes, e sempre ocorreu na verdade. Decisões comerciais se sobrepondo a decisões artísticas.

É a morte.

Algo que não deve acontecer pelo mesmo motivo que eu não enfio minhas decisões artísticas na fabricação da fórmula de nenhum produto por aí.

Excelente. Já que você tocou no assunto do cinema, uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre da telona. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

A realidade do cinema é outra. Pra fazer um filme você está trabalhando com o dinheiro de alguém que investiu em um NEGÓCIO e espera seu retorno. Nos quadrinhos (independentes) é só você e de repente mais dois camaradas fazendo algo que você quer. E mesmo nos quadrinhos “dependentes” o investimento é consideravelmente menor. Hoje a realidade do cinema parece mais flexível com as novas mídias digitais, ainda com uma dominância muito clara, mas espero que siga por esse lado da democratização da distribuição e da produção.

O garçom finalmente traz o suco. Eles agradecem. Deisy bebe sua melancia enquanto Victor continua disparando:

Os quadrinhos são hoje uma fonte da onde o cinema bebe pra coletar “investimentos mais seguros” e nisso espero ver muitos quadrinistas dando show em mostrar que as histórias relevantes são qualquer uma que você queira contar e conte bem.

Eu queria muito ver adaptações de  “Xampu” do Roger Cruz, uma adaptação que mantivesse a iluminação que ele faz nas cenas seria fantástico. Também seria muito bom ver o “Apocalipse, por favor” do Felipe Parucci que é sensacional.

Meu, li esses dias… O cara manda muito bem. “Missão Hope meu (bip de censura) (rindo)

Sem falar no “Desengano” do Camilo Solano que dava até uma série. “Quaisqualigundum” Também é outro…Nossa são muitos, haha. (bebendo sua laranjada)

Graças a deus! E tem alguma quadrinista foda que você queira dizer e porquê?

Uma só? Aí fica difícil.

Quantas quiser, querido.

Lu Cafaggi tem um dos traços que mais curto na cena. O traço dela tem a delicadeza da Sarah Kay mas completamente atual, dinâmico e muito narrativo.

Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Gosto do Cloro tem um traço revigorante. Eu normalmente gosto de coisas mais pesadas e contrastadas, mas, vez ou outra, pego algo com uma iluminação leve pra ler e Bastien Vivès acerta o tom que eu busco fora do meu “conforto visual” em Gosto do Cloro.

Uma cena fantástica de quadrinhos, pra mim, é a sequencia final do “O Corvo” de James O’Barr. Quando Eric tá no cemitério e alternamos entre planos do personagem e flashbacks que ele está tendo. Incluindo uma bela interposição com um plano de uma das estátuas do cemitério que leva a mão ao rosto. Toda essa sequência é uma aula de narrativa visual.

Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Eu sinto que escolheria um personagem diferente cada vez que você me perguntasse isso. Mas hoje acho que vou de Clássico:

Os clássicos nunca morrem.

Superman.

Retiro o que disse. (risos)

Mas com o uniforme da história do Dave Johnson e do Mark Millar se é que você me entende.

(Ri) Entendo (quase soletrando) perfeitamente. Imagine que você está na pele do Super e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora? (torcendo para que ele quebre tudo)

Haha, que futuro que não parece desesperador, né?
Mas me tranquiliza mais poder pensar em uma solução enquanto voo por aí.

(Deisy se entrega a realidadeÚltima pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Você sabe: Qualquer dia fora da rotina é melhor que dentro da rotina. E isso inclui dias de abdução.

Amém. Obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Até que aceito sim.

João!

victor-moura

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