Camilo Solano

Desengano (Independente), Meias Azuis (Independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Café… Eu gosto muito do pó de café lá de São Manuel, no interior… Minha cidade foi uma grande produtora de café… Hoje só cana. Deveria pedir uma cachaça, né? Mas vai um café mesmo.

Haha, não sei se aqui vai ter o café de São Manuel, mas a gente pode tentar. (ao garçom) João, tem café lá de São Manuel? 

Sim. (com naturalidade)

Deisy e Solano entreolham-se com estampada surpresa.

Uau! Traz pra gente então, dois cafés, por favor. (ao Camilo) Cara, às vezes acho que esse lugar não é real. Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Como um amigo meu disse hoje mesmo, “a vida é feita de detalhes
desnecessários”, então, ótimo!

Que vida horrível seu amigo deve ter. Quem foi o condenado? 

O Wagner Willian.

Xiiii, não dê ouvidos ao que esse cara diz. Não gosto de fazer picuinha nem nada, mas esse nanico aí é problema. Ele me usou. Na verdade, acho que usou até você. Uma pá de gente. Saiu colocando todo mundo no quadrinho dele sem autorização. Vai levar o maior roda quando chegar o processo na fuça dele. (risos) Mas sei lá, né. Tô meio que falando demais. Vai que você é amigo dele… Se bem que o cara deve tá nem aí também… Deixa pra lá. Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

Eu sempre desenhei, acho que como todo mundo que faz quadrinhos. Meus pais sempre foram de contar muitas histórias e assim fui pegando o gosto de também contar e traduzir isso pro desenho. Os quadrinhos é uma coisa que está comigo desde sempre, pelo menos a ilustração dos momentos é uma coisa que eu sempre fiz.

O café é servido. Eles agradecem ao garçom. Camilo açucara seu cafezinho com toda a calma do mundo.

Hmm, (cheirando o café) vamos ver se o café de São Manuel é bom mesmo! O cheiro pelo menos cativa.

Eu gosto. (os dois bebem ao mesmo tempo) E aí?

Aprovadíssimo! (bebendo novamente para tirar a teima)

(Continua, agora mais confiante) Sobre produzir quadrinhos propriamente foi no final da minha faculdade, meu TCC de Design Gráfico foi minha primeira HQ. Inspiração. Que é uma história que fala dela mesma.

Essas metalinguagens são o ó! (sorrindo) E o que mais te deixa… (tocando a mão camilesca) excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (voltando ao café)

(Levemente enrubescido) Os momentos de silêncio nas histórias tem me dado mais tesão ultimamente… Apesar de amar a palavra, o silêncio tem falado mais alto. (cafezando)

Você acreditaria se eu lhe dissesse o mesmo? Estou “ensaiando” começar uma HQ muda. A gente pode esperar o mesmo de você?

Infelizmente não… Não consigo ainda me expressar só com imagens… Deve ser por isso que admiro tanto quem consegue.O amor pela palavra é tanto que não consigo imaginar nada que eu possa fazer sem usá-la… Quem sabe um dia…

É, tem coisas que são difíceis de abandonar… Com um café desses, deve ter sido difícil deixar São Manuel, hein? “Eta cafezinho bão!!” (risos tímidos) O que é mais broxante pra você, Ca? Dentro de uma narrativa, claro.

Complexo de épico. A necessidade que algumas pessoas tem de se levar tão a sério. (bebendo do café)

Enche os pacová mesmo! Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que
os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

Acho que “O Quarto Vivente“do Luciano Salles daria uma puta série. Alguma coisa do Victor Moura também, com aquela atmosfera que ele consegue trazer, se fosse colocada num filme ou série, acho que daria samba! Ou o Azul Indiferente do Céu do Shiko! Imagina que coisa linda que seria!

“Lindimais”!!! São três cabras com trabalho completamente diferentes entre si e muito bons. Ô, deus abençoe! Um quadrinista foda e porquê? (matando o café)

Ana Recalde! Ela escreve muito bem e quando juntou com o Denis no Beladona, conseguiram fazer uma história magnífica. E o texto da Ana é muito sincero, muito verdadeiro.
Gosto demais da Lu Cafaggi também, que é, na minha opinião, uma das melhores desenhistas do Brasil. Gosto também do trabalho da Marilia Bruno, muito engraçado.

Pô, a Marilia, não conheço… Chamei a Ana e a Lu pra tomarem um café comigo. Se elas soubessem desse cafezinho de São Manuel… Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Difícil lembrar de alguma especificamente, sabe… Gosto muito do Bob & Harv e não canso de dizer isso.

Obra máxima!

Existem muitos momentos naquele livro que valem a pena ser lembrados… Por exemplo, uma parte que o Harvey tá conversando com um cara dentro do ônibus e é só isso. Um papo.

Sim! Sim!

Não importa muito do que estão falando. Nem das respostas para as perguntas. É uma desnecessidade em forma de quadrinhos.

Ahhhh!! Como é que o cara disse? “A vida é feita de detalhes desnecessários”? (risos) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que
eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um
personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

O Shiko uma vez me disse que, eu nos quadrinhos que desenho, sou mais parecido comigo do que eu mesmo. Achei isso sensacional.

Olha!

Quando eu era pequeno eu queria ser o Wolverine. Já falaram que eu pareço o Tintin,
nada a ver, né? O Érico Assis também, não foi?

Haha, foi. Se bem que você já acho mais parecido. Talvez aumentando o topetinho aqui (tentando ajustar o topete na cabeça do Camilo) ajude… É, pode ser…

Acho que hoje eu seria o Santos Drummond, o poeta voador. Um personagem que eu criei há um tempo atrás… Que é essa brincadeira com o nome do aviador e do poeta.

Acho que vi alguma coisa que você postou… (inclinando a cabeça pra ver se pega no tranco) Tudo bem. Então imagine que você está nas asas do Santos Drummond e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Sair voando e gritando “E agora, José?”. Para quem voa, a síndrome do pânico deve ser mais potencializada.

Hihihi. Tá bem. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais, Sol. Ao menos, não
por enquanto. (cruzando as pernas, provocativamente) Mas gostaria que você fosse sincero. (ele parece estar soando. Deisy parece melar todas as palavras) Como foi para você ser… abduzido?

Gelou a barriga. Mas acho que colocaram a sonda na minha boca antes de ser higienizada. Puta gosto estranho. Gosto do cloro. Há! Sacou? Sacou? Tudo é cíclico.

Mais do que a gente imagina! (sorrindoObrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Tem pudim? Adoro pudim.Nossa, eu também! Daqueles que deslizam na boca. Hmmmm. João!

Lá fora, sem que os dois percebessem, Harvey Pekar caminha pela calçada ensolarada, carregando pães fresquinhos. Harvey Pekar ou o editor conhecido da Deisy, que de tanto se passar pelo Harvey durante o Bulldogma, acabou virando o próprio. Nunca saberemos. Nem eles.

camilo-solano

 

 

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2 comentários sobre “Camilo Solano

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