Lobo Wolf

Editor da Barba Negra (editora que publicou o Gosto do Cloro) e roteirista de quadrinhos.

 

Quer pedir um café? Suco?

Já que vais ligar para a recepção pede mais uma camisinha… e mais cerveja.

Tá bom. (com o fone no ouvido, nua, sentada à beira da cama) Oi, tudo bem? Você pode mandar mais cerveja? Pode mandar um balde… Com cinco… Ah, e mais um pacote de preservativo… Obrigada. (desligando o telefone) 

Deisy e o Lobo estão em um quarto chinfrim de hotel. As roupas de ambos estão espalhadas pelo chão. Lobo está amarrado a cama. O lençol, graças a deus e ao bom senso, cobre parte de seu corpo. O ar é viciado. Deisy alcança sua bolsa e puxa o maço de Bad Luck. Acende. Lobo está suando feito um porco. Não há ar condicionado. O ventilador de teto está na velocidade máxima e quase morrendo. Tem um cinzeiro no criado-mudo. Deisy coloca-o em cima do colo para bater as cinzas. Meio de banda, com as pernas cruzadas, diz:

Você sabe que é inevitável. (Lobo arqueia as sobrancelhas) Vou te fazer as perguntas desnecessárias.

Sim, mas agora estou sem fôlego, você tem que dar um tempo prum cara da minha idade me recuperar.

Dane-se. (sorrindo como a grande largada da Alice) Eu falei pra usar as azuis. Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? (baforando)

Em casa tinha um ritual nas manhãs de domingo. O pai nos levava a banca, comprava jornal pra ele e gibis para o meu irmão e eu. Cresci lendo quadrinhos, quando fui aprender a ler e escrever, fiquei um pouco decepcionado, pois descobri que já fazia isso nas revistinhas. Sem graça, né?

Sei lá. Achei meigo isso do seu pai leva-los à banca.

Mas, não, nunca fui abusado por um quadrinista, tudo sempre consentido, vale tudo quando dois quadrinistas adultos se encontram entre quatro requadros.

Deisy não está muito opinativa hoje. Está mais tentando absorver a atmosfera.

O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? (batendo as cinzas) Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (tragando)

Primeiro tem a coisa do cheiro da tinta no papel. Gosto de abrir os livros e cheirá-los longa e profundamente. Entro em êxtase, dá um tesão danado. Fico mais constrangido de ser pego assim do que pelado no banheiro. (Deisy sorri) Não sei explicar a química que tenho com os quadrinhos. É o meio ficcional que mais me transporta, parece que fico integrado na narrativa dos quadros, como se fosse um observador em campo. É mágico.

Às vezes.

Batem na porta. É o serviço de quarto. Deisy devolve o cinzeiro, enrola-se no lençol. 

Já vai. (abre a porta) João?! O que você está fazendo aqui?

Surpreendentemente, o garçom do bar é o mesmo que serve no quarto do hotel.

Faço esse bico à noite. (passando o balde e o pacote de camisinhas)

(Encabulada) Ah, obrigada, João… 

Meio dispersa, sem entender muito bem o que está acontecendo, demora a fechar a porta. Até que volta a si. Enfia o balde com gelo no frigobar. Dá um jeito de caber tudo lá. Tira uma e usa o abridor que estava na porta do frigobar. Cerveja Juan Caloto novamente, a Laguna Del´Oro. Surpresa por terem uma cerveja desse naipe ali, mas não totalmente, pergunta ao Lobo: 

E o que é mais broxante? (bebendo do gargalo, em pé, inquisidora)

Histórias mal contadas, tipo essa tua dor de cabeça repentina, quebra o pacto ficcional. Cerveja quente.

Ficcional uma ova! Queria ver se fosse você na minha pele. A gente nem estaria aqui pra começo de conversa. Rá! Mas vou dar um descontinho pra você. (virando a garrafa em sua boca, deixando ele dar um gole. Volta a sentar-se na cama) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acho que você deve pensar o mesmo. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Como costumo dizer aos entrevistados: (chacoalhando as mãos com o cigarro entre os dedos) “Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.” (tragando)

Você consegue prestar atenção no Rafa, sério?

Aquele pão? Claro. (bebendo desafiadoramente)

E aquela história dele ser tão lindo que você não ouve nada, só consegue ver a boquinha dele se mexendo? Se você quer mesmo saber, não me interessa a diferença entre o charme e o funk, um anda bonito o outro elegante. (Deisy ri) Cada um com o seu cada qual, e eu aqui com você. Mas se você chegar perto eu te conto que quadrinhos gostaria de ver adaptado para telona. Tenho um fetiche pelos livros que publiquei, gostaria de ver todos em outras mídias. Mas para não ser injusto vou citar um no qual não trabalhei, o Vida de Jonas, dos irmãos Costa, tenho um carinho especial por este livro.

(Bafora enquanto fala) Meu, esse seria foda ver. Animado mesmo ou tipo Vila Sésamo. Vila Sésamo! (olhando pro quadro sobre a cama, imaginando o filme) Putz, seria lindo.(voltando-se para o Lobo que parece seco por mais um gole) Uma quadrinista foda (fora a Bechdel, Marjane e Laerte que já foram largamente citadas) e porquê? 

Que dureza, hein? Citar nomes é tão difícil e injusto.

(Levando a garrafa até sua boca sedenta) É, amiguinho, a vida é injusta quando quer. (levantando o gargalo antes de ter derramado a cerveja. E bebe)

Mas foda pra quê? Pra vir pra cama com a gente?

Por que “com a gente”? (sensualíssima) Talvez só eu e elas. Mas tem que ser quadrinista.

Ah, você ainda insiste nesse papo de quadrinhos. Então, gosto cada vez mais do trabalho da Cynthia B, tá amadurecendo de um jeito muito foda, tanto no traço, quanto no tema, linguagem de quadrinhos e o escambau! Mas são tantas, tem a Thais Gualberto, que faz a “Olga, a Sexóloga” que conheci faz pouco, me diverti muito lendo… Mas ela é casada, não te empolga, Deisy.

Me deixa, rapaz. (apagando o cigarro)

A Bárbara Malagoli, peguei uma revista dela no FIQ, me deixa de neurônios ligados, os quadrinhos dela tem o mesmo efeito da cocaína. É muita mulher fazendo quadrinho bom. Ah, e tem você, né Deisy, a mais foda de todas! Hã, Hã, pegou o trocadilho?

(Canta um trecho da música da Céu, chacolhando-se com total deboche) “Ave cruz, virge crispim, não tem dó de mim? Aaave cruz, virge crispim…” (risos) Manja aquela cena do Gosto do Cloro do Bastien Vivès onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Porra, aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? E a propósito, obrigada por publica-lo. (esticando a garrafa como em um brinde e enxuga)

Pra mim não existe cena mais linda que a final de Gerhard Shnobble, o Homem que Sabia Voar. Foi essa história que me mostrou que quadrinhos podiam ser foda.

Will Eisner, meu amor. (deixa a garrafa vazia sobre o carpete meio sujo do chão do quarto, sujo de sangue, esperma ou sabe-se lá o quê. Prefere ignorar. Abre a geladeira, pega outra) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? (abrindo a Juan) Não é algo que eu queira perguntar, mas a essa altura do campeonato, dane-se! (Lobo se estica todo na cama) Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Nem precisa perguntar, se pedir desse jeitinho, eu topo tudo. Isso te excita?

Hahahah, você ainda não sabe o que me excita, amor. (mamando a breja)

Bem, não sei se me excita, mas podemos tentar. (Deisy dá de ombros) Eu me visto de Torpedo 1939 e você de Princesa Safiri?

Até que enfim você dá uma dentro. (os dois riem. Ela deixa-o tomar mais uns goles) Imagine que você está na pele do Torpedo – amo o Torpedo. Você não. Como ele disse uma vez: “Vai ter que comer muita sopa, filho” – e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora? 

Tipo Lobo em pele de cordeiro, mas que malandrinha você é. Eu sei bem o que eu gostaria de fazer, mas não sei se os seus leitores vão gostar de ver.

Hahaha, eu edito antes de subir pro blog.

 

Conteúdo deletado na edição final.

Há um corte brusco. Deisy já está vestida, em pé, mexendo em sua bolsa. O balde de cervejas, vazio. Lobo porém continua na mesma situação.

Querido lobinho, última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. (acendendo mais um cigarro) Como foi para você ser abduzido? 

Isso, chega de papo, vamos partir pra action. Não sei, na real eu só me lembro de te encontrar no bar, tomar uma cerveja e acordar amarrado aqui nesta cama de motel.

Ok. Obrigada pela entrevista. (caminhando para a porta do quarto, delgadamente)

E a sobremesa?!

Deisy sai e fecha a porta. Não sabemos que horas são, mas deve ser bem tarde da noite. A luz do letreiro em neon lá fora ilumina a parede do quarto em pequenos e insistente intervalos. Lobo se vê no reflexo do espelho no teto sobre a cama. Malditas algemas profissionais. Suspira profundamente. De algum modo, tenta se convencer de que ela irá voltar. Deisy irá voltar. Sim. Ela já está vindo. Ouve o barulho dos saltos passar adiante pela porta sem parar. Não deve ser ela… A Deisy estava de salto? Está prestes a ter um colapso nervoso quando o letreiro estrala, quebrando todas as luzes. Um som agudo, metálico se intensifica. Uma luz extremamente forte invade todo o quarto e…

 

Conteúdo deletado na edição final.

lobo-wolf

 

 

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2 comentários sobre “Lobo Wolf

  1. Grande lobo… pensei até em parar e tentar ler depois, porque estou com fome e o café me esperava.

    Esfriou o café… e estou rindo até agora, pensando num final e em algo para colocar nas partes deletadas.

    Vim pensando num Primeiro de Abril… mas era mais, muito mais.

    Quanto ao final… ou as partes deletadas, deixei pra lá… não me sinto inspirado neste Primeiro de Abril.

    Mas o amigo sempre esteve… sempre estará 😉

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