Rogério Saladino

Editor da Jambô Editora

 

Quer pedir um café? Suco?

Um café. Pode ser um macchiato?

Claro que pode. Aqui, você pode tudo!! (ao garçom) João, traz um macchiato e um cappuccino pra mim, por favor. Obrigada. (ao Rogério) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Claro, não tem problema algum, prometo dar respostas necessárias… ou não.

Hohoho. Então vamos ver o que acontece! Que diabos aconteceu com você para editar quadrinhos? 

Eu sempre gostei de quadrinhos. Comecei a ler com quadrinhos. Meu pai lia e colecionava revistas Disney. Eu lia quadrinhos mais velhos que eu! (Deisy sorri) Sempre adorei história em quadrinhos. Um dos meus primeiros trabalhos na minha área (eu sou jornalista por formação) foi na revista Dragon Magazine, na Editora Abril.

Poxa! Eu tinha umas edições!

Era uma edição dedicada a RPG, uma versão brasileira da revista americana que dava suporte o famoso Dungeons & Dragons. Como versão nacional, tinha a liberdade de ter elementos que a revista americana, o meu chefe na época, o grande Marcelo Alencar, insistiu que tivéssemos quadrinhos nacionais e esse foi o meu primeiro contato com a produção de quadrinhos.

Que massa.

Trabalhando na Dragon Magazine, conheci todos os passos da produção de quadrinhos, conheci excelentes profissionais, roteiristas, desenhistas, editores etc. Depois disso, fui trabalhar na Dragão Brasil, outra revista de RPG, com o Marcelo Cassaro, onde tive contato com mais profissionais incríveis de quadrinhos.

O macchiato e o cappuccino são servidos. Rogério pergunta se tem açúcar demerara ao garçom.

Tem. Já trago. (indo buscar o açúcar)

Rogério continua, percebendo que o desenho da espuma de seu macchiato não é lá muito bom.

A Dragão Brasil revelou grandes nomes dos quadrinhos e foi na mesma época de um produção notável de quadrinhos nacionais, dentre os quais se destacam Holy Avenger, do Cassaro e da Erica Awano. Com tudo isso, era impossível não se envolver no meio maravilhoso dos quadrinhos. Como autor e escritor (eu me vejo essencialmente como um escritor), e vendo tanta gente incrível ao meu redor, eu coçava de vontade de contar histórias, de fazer quadrinhos.

Imagino. Só de ler um bom quadrinho já dá aquele gás de quer produzir algo também, viver rodeado então… (o garçom traz o demerara. Rogério agradece) O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica, Rô? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (saboreando seu cappuccino)

A história precisa falar comigo. Não apenas literalmente, mas precisa me convencer, dentro do possível. Para isso, não importando o absurdo da trama, o roteiro precisa ser bom, bem escrito, bem desenvolvido. A história pode contar a coisa mais estapafúrdia e improvável do mundo, mas se for bem escrita, bem mostrada, com bons diálogos, ela me pega. E a criatividade é também uma pérola, sempre puxa meu olhar. Minha curiosidade natural sempre me leva para as histórias quem trazem algo novo, algo diferente. Uma história com uma ideia ou uma proposta que ninguém pensou antes me deixa bem interessado. Quero ver como a coisa é desenvolvida, até que ponto o autor vai com ela.

Rapaz, tô me arrepiando todinha aqui. (risos)

Quando isso não acontece, a coisa nem é lá muito criativa, mas é bem conduzida, eu até acho legal, como um bom feijão-com-arroz. Por vezes, uma história simples, mas bem contata, satisfaz mais do que uma história que se propõe a mostrar a maior revolução do mundo, mas não consegue chegar lá. (bebendo seu macchiato com desenho mal feito)

É até um crime perguntar isso, mas, contrariando a regra, um crime necessário: Saladino da Justiça, o que é mais broxante? (risos)

Pretensão, arrogância e prepotência. Já não gosto disso no dia-a-dia, muito menos quando isso transparece numa obra. Eu acredito piamente que se faz quadrinhos para se contar histórias bacanas, ou interessantes, para outras pessoas, para muitas pessoas. Queremos passar ideias, conversar, discutir de uma forma diferente, mas, essencialmente, conversar. Posso estar viajando um pouco na forma como eu vejo os quadrinhos,

Não acho.

Mas os muitos tipos diferentes tem uma coisa em comum, são histórias contadas, são conversas que temos com os autores. O leitor de quadrinho se sente como se conhecesse o desenhista, o roteirista, ou o responsável pela história (quando ele faz tudo). É como um amigo ou colega que ele ainda não conheceu. Mas isso só acontece quando a história fala com o leitor,

Corações pequeninos despencam dos olhos de Deisy quando falam essas coisas. Ela anda sentimental ultimamente.

Quando ela chega até ele, como ela o comove de alguma forma. Quando o autor faz uma história só pra ele, ou por outros motivos que não seja falar com o leitor, isso se perde. Nesses casos eu me pergunto porque raios o cara fez esse quadrinho?

(Suspira) Não faço a mínima ideia. Acho que essa é a grande questão dos quadrinhos. (raios de luz incidem sobre ela e pequenas estrelas pipocam ao seu redor) Se a gente comparar uma fotonovela e os desenhos de um quadrinho, vai, um Tezuka por exemplo, eu pelo menos, sinto muito mais vontade pelos desenhos. Quanto mais a narrativa se distanciar do fotorealismo mais atraída estarei pela história mesmo. A estilização, como o Érico Assis mencionou no blog da Companhia, a grafiação, e além disso a carga expressiva que se dá um determinado desenho é muito maior, tem muito mais apelo do que a foto dentro de uma narrativa. Some o desenho à história como você falou e ao fato de folhear as páginas e de eu ter o tempo que quiser para saborear cada desenho e ação, isso faz das histórias em quadrinhos a arte mais… como a gente pode dizer? mais cativante de todas. A imersão é imensa! Por um tempo, os quadrinhos foram meus melhores amigos. (acaba a bobagem dos raios) E chega! (espantando as estrelinhas) Que me empolguei aqui. Hehehe. Foi mal. Vamos voltar a dura realidade. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (mas um gole de cappuccino. Dessa vez, capricharam!)

Os quadrinhos não são primo pobre de ninguém. Quadrinhos é uma outra forma de expressão, de se contar história. É uma narrativa própria, com suas características intrínsecas e particulares, que se desenvolveram e se aprimoraram desde que o primeiro balão foi colocado acima de um personagem. Além disso, eu sou um grande defensor de adaptações para outros meios, para outras mídias. Claro que sei que como é uma adaptação, elementos de uma mídia deve ser adaptados para outra mídia, e o que funciona numa não funciona necessariamente na outra. Caramba, é por isso que chama adaptação!

Exato!

É complicado falar de um personagem que eu gostar de ver adaptado para o cinema, porque muitos dos meus favoritos já foram (alguns ficaram ótimos, outros péssimos), então vou trapacear (só um pouco): eu gostaria muito, mas muito mesmo, de ver uma adaptação decente de Elric de Melniboné para os cinemas. O personagem não foi criado para os quadrinhos, surgiu nos livros de Michael Moorcock, um autor que eu gosto muito. Adoraria ver uma adaptação de Elric, talvez pelo Guilhermo Del Toro, quem sabe… (matando o macchiato)

Orra, seria lindo! Vou te perguntar uma agora que até… meio que sei a resposta. Uma quadrinista foda e porquê?

Ah, esta é fácil. Germana Viana. Ela é a pessoa mais incrível do mundo, em todos os aspectos que eu consigo pensar.

Hahha, você é um fofo mesmo. Ela é demais, demais!! A gente tomou um cafezinho juntas. Rolou até música cigana se você quer saber. (estirando a língua e rindo) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès… Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui, Rô?

Eu sou um grande fã de terror, (Deisy levanta dois dedos) como tal eu vejo uma quantidade imensa de filmes, quadrinhos, livros e etc. de terror. Como fã de terror, eu gosto quando a obra me assusta de verdade, me faz olhar sobre o ombro o tempo todo. Isso aconteceu poucas vezes nos quadrinhos, infelizmente, mas quando aconteceu… puxa vida. Me lembro claramente da cena de uma história de um volume de Hellraiser, a coletânea que foi lançada no Brasil. Uma história com arte de Scott Hampton, onde o personagem entrava em uma sala escura, que não conseguia ver nada, apenas a porta, lá longe. De repente, a narração dizia que ele sentia que tinha alguma coisa atrás dele, o que o fazia correr em direção da porta. Quando atravessava a porta, ele estava em outro quarto escuro igual ao anterior, mas com a porta mais longe. E isso se repetia todas às vezes, cada vez com a porta menor, ou seja, mais longe. O personagem ficou preso nesse pesadelo por anos. Pra mim, essa sequência é uma das mais assustadoras que já vi num quadrinho.

Cacetada!! Não lembro dessa. Muito foda! Depois me passa o número? Vira e mexe tenho esses sonhos de ter que correr de algo que se aproxima, mas sem conseguir sair do lugar. Cara, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Se eu pudesse ser um personagem dos quadrinhos, eu seria o Sombra. Porque o Sombra sabe.

Esse sabe! Imagine que você está nessa pele sombria e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

O que o Sombra sabe fazer melhor que ninguém: dar aquela risada malvada HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!

(Deisy quase cai da cadeira. Outros clientes e até o garçom se espantam)

E sumir misteriosamente, para aparecer no momento exato para resolver o cliffhanger desesperador de uma forma completamente inesperada.

Sen-sa-cio-nal! É o Sombra!!! (percebendo as sobrancelhas arqueadas de todos ao redor, Deisy e Rogério se entregam a um riso menos malvado) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

Bem confortável, para dizer a verdade. Você acreditaria que não foi a primeira vez que fui abduzido?

Credito.

Acho que já estou desenvolvendo uma certa prática para situações como esta.

Que bom saber disso. A gente se adapta né? Bem, Rogério, obrigada pela entrevista, querido. Mas por favor, guarde essa risada para o derradeiro final. (sorrindo) Por hora, aceita uma sobremesa?

Eu é que agradeço. Claro, tem marzipan? Ou ciarduna?

Nossa, eu amo marzipan! Vamos ver se tem. Eles geralmente não falham, nunca. (virando-se para chamar o garçom)

rogerio-saladino

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