Zé Rodolfo

Boss da Editora Gato Preto

 

Quer pedir um café? Suco?

Pode me trazer um suco de… Não, péra. Foda-se, traz uma Heineken 600 e 2 copos. Você me acompanha, né?

Lógico!

Vamos fazer direito…

Sempre. (ao garçom) João! Manda uma Heineken bem gelada pra gente, por favor. Obrigada. (ao Zé) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Desnecessário é o que eu espero. Manda bala…

(Deisy faz o gesto ridículo de uma pistola com o dedo e dispara) Pfffchhh! Que diabos aconteceu com você para editar quadrinhos? 

Putz, na verdade foi uma volta meio que tardia às raízes. Eu era aquele moleque que só desenhava, desenhava, fazia quadrinhos toscos e mandava para a Folhinha publicar. Aí veio a adolescência, o punk rock e uns traumas por causa de quadrinhos que fiz e me meteram em problemas na escola e meio que parei (ou diminuí bastante) de desenhar.

É pra isso que servem os quadrinhos: meterem a gente em problemas! (risos. A cerveja chega com uma capa de cristal, linda. O garçom enche os copos) Quer propor o brinde?

Não sabia que era um momento tão solene. Bom, vamos lá… Vida longa às perguntas inconvenientes e às pessoas inadequadas.

Aeee! (tim-tim. Depois do gole, os dois enxugam a boca)

Então, fiquei do outro lado do balcão, só lendo quadrinhos e tocando a vida… Acabei virando editor de arte e criei essa editora há um tempão para publicar os livros de culinária da minha ex, sem muita pretensão. Aí em 2012/13 acabei voltando a desenhar como terapia no meio de uma crise de depressão filha da puta, por insistência do Guazzelli, que é um grande amigo.

Grande Guazzelli! (levantando o copo e bebendo)

Conheci a Ana Muriel num curso e o desenho acabou sendo um dos pilares da nossa história… Ela me botou pilha e retomamos juntos a editora (que estava meio em banho-maria) para começar a publicar coisas que a gente acha interessante de quadrinhos e ilustração. Foi muito foda, retomar minha essência mesmo, sabe? (bebe)

Pô, imagino. 

Daí foi muito fácil me envolver em toda essa cena dos quadrinhos e editoras independentes. Nunca fui tão quebrado de grana na minha vida, mas nunca me senti tão realizado como agora… Sei lá, acho legal a ideia de quando eu estiver morrendo olhar para trás e ver que fui responsável por colocar no mundo algumas coisas interessantes. É um legado de merda, mas é um legado, né? Coitada da Martina, minha filha, que não vai ter herança… (debruçando-se sobre a cerveja, enchendo os copos)

Ela vai ter muito mais do que isso. Obrigada. (bebendo) O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica, Zé? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Acho que é a mesma coisa que me deixa excitado na música, ou no cinema. São aquelas obras que são quase banais, mas o absurdo aparece para dar o tom, de uma forma sútil. Como nos filmes do Hal Hartley, naquelas músicas de amor totalmente tortas do Daniel Johnston, no Daniel Clowes intercalando traços diferentes numa mesma história sobre gente comum que só faz merda… Putz, dá para entender isso?

Claro! O desvio da lógica é sempre mais interessante. E tem coisa que é mais para ser absorvida mesmo do que entendida. Essa cerveja por exemplo (levantando o copo) tem que ser bebida e não entendida. (bebendo)

Ontem eu e a Aninha estávamos conversando sobre o Short Cuts, do Altman, tem aquela história dos fulanos que são super convencionais, vão para um piquenique da firma, saem para fumar um e o gordinho tem um ataque de fúria e mata uma garota na mata. É isso, sabe? A vida é pacata, mas o absurdo está sempre à espreita, como uma nota dissonante, um desvio no rumo. Ah, que merda, acabei falando de filme, e o tema é quadrinhos, né?

Quem se importa, rapaz?

Mas acho que é a mesma coisa que me excita em todas as narrativas. Acabo curtindo aquelas que são tão próximas da vida real que são incômodas, que causam estranhamento por algum pequeno detalhe, tipo o cara de sapo do Umbigo Sem Fundo. Caraca, aquela única cena que ele olha no espelho e se enxerga humano é muito foda, me arrepiou…. Uma época também fiquei obcecado pelas tiras do American Elf, do James Kochalka, que ele fazia diariamente sobre o cotidiano, mas se desenhava como um duende. Bom, acho que divaguei. Deu para ter uma ideia será? ou viajei? Nossa, pede mais uma para clarear um pouco essas ideias. (virando o copo)

“Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor.” João! (apontando a garrafa) Pra mim é o mesmo. Sei que é batido falar de Hermann Hesse, mas Lobo da Estepe foi um das minhas primeiras leituras nesse campo. E nada mais é do que um elogio ao absurdo. (virando o copo) O que é mais broxante?

Quando fica evidente que a coisa é forçada. Me broxa totalmente narrativa que tenta ser surreal sem nenhum conteúdo, sem pano de fundo, aí fica vazio. Não compro essa ideia de “é tipo linguagem de sonho, maior viagem”.

Ahh, rapaz…

Sei lá, não me prende, eu desisto.

Eu também! Mil vezes o realismo fantástico.

Também tenho o maior bode de quadrinhos que tentam ser bagaceira demais, mas não levam a lugar nenhum. (o garçom chega com a cerveja. eles agradecem) Sou super fã de caras como o Marcatti, (enchendo os copos) mas não é para qualquer um fazer quadrinho sobre merda e hemorroida. Ou você tem algo a dizer com toda essa porqueira ou é só um menino de condomínio tentando chocar a tia católica…

(Rindo) Sim! Escatologia gratuita não desce. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (bebendo)

Rá, rá, eu queria ser categórico assim, mas acho que não manjo tanto de nenhum assunto, aí prefiro o conforto da incerteza… Eu acho muito legal quadrinistas terem noções de linguagem cinematográfica para construir as cenas, mas só como ponto de partida mesmo. O ritmo é outro… Aí o inverso, quando fazem filmes baseados em HQ, geralmente fica feio forçado, né? (bebendo)

Fica, fica horrível. Lembra aquela adaptação do Batman do Tim Burton? Completamente engessada.

Eu curti do Ghost World porque eu gosto do Terry Zwigoff, mas é ligeiramente meia-boca para quem conhece a HQ, sei lá. Mas eu gosto do filme mesmo assim…

Somos dois, querido.

Pô, tem o Steve Buschemi e trilha do Crumb.

É!

Mas para escolher algum para ser filmado… Alguém já tentou fazer Love & Rockets?

Não sei…

Ah, não, ia ficar muito ruim…. Já sei. “Deus, essa gostosa“, do Rafa Campos daria um ótimo pornô nacional. “Brasileirinhas apresenta: Deus” Ia ser incrível! (risos) Será que esse já fizeram? Caraca, outro dia vi na TV um desses soft-porn que era baseado no CLIC, do Manara. Era muito, muito ruim. Broxante…

O Manara está bem onde está. Mulher nenhuma no mundo real consegue ser tão gostosa quanto as mulheres do Manara. (sorri) Falando em mulheres: Uma quadrinista foda (fora a Bechdel, Marjane e Laerte que já foram largamente citadas) e porquê?

Hmmm, para manter um pouco o tom da conversa toda, tem a Catalina Bu, chilena, que faz aquela tira Diario de um Solo. Acho que ela estaria mais na categoria ilustradora do que quadrinista, mas as tiras legitimam a resposta…. acho.

Sim! Totalmente.

Essas tiras me fisgaram, eu adoro esse tipo de crônica urbana. Acabo curtindo mais aqueles quadrinhos que são despretensiosos, mas acabam te pegando pelo estômago, sabe? Parece uma bobagem, um monte de tiras sobre celular e rede social, mas aí você vai entrando naquele universo tão comum, mas com uma melancolia sutil que está sempre lá no fundinho. E com o protagonista masculino, que tira um pouco a autora da ação… Sei lá, não sei se colocaria ela na categoria “foda”, mas pensei nela por causa de toda essa conversa agora.

Porra, eu gosto pacas. Na verdade eu não conhecia mas vou fuçar depois e certamente vou achar foda, hihihi. Ou não. Em todo caso… (enchendo os copos) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Li não. Uma cena…. hmmm, deixa eu ver. Ah, acho que teria que ser do Death Ray (Daniel Clowes)… A cena em que o Andy usa o raio no amigo dele, de repente, para se defender. Cara, é muito foda. Todo o conceito da arma que faz a vítima simplesmente desaparecer, sem rastro nenhum, sem sangue, sem explosão. Parece que dá para ouvir os passarinhos piando na cena em que o cara simplesmente não está mais lá. Para mim não existe maneira mais forte de falar sobre morte, e sobre a morte provocada, do que essa ausência. A violência é filosófica, não é física…

Como estamos, hein? Bebe mais um pouco que passa. (enchendo mais um pouco o copo do Zé, sorrindo) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro, Zé. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Ra, ra, que maneira barata de escapar com uma perguntinha dessa… Só está seguindo ordens, Deisy?

Infelizmente. (virando o copo)

Mas eu respondo mesmo assim se você pedir mais uma para a gente.

Agora mesmo! João! (o garçom entende o sinal e vai buscar mais uma Heineken)

Se eu pudesse escolher eu seria o Schroeder, mas se a escolha não fosse minha aí provavelmente seria o Charlie Brown mesmo….

Sei o que você quer dizer. (colocando mais uma garrafa debaixo da mesa) Imagine que você está na pele do Schroeder, já que foi uma escolha, e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora? (o garçom traz a cerveja)

Sonata nº 8, op 13.

O argentino Daniel Barenboim entra tocando a sonata em um piano com rodinhas que desliza para dentro do bar. Zé tenta entender o que está acontecendo enquanto Deisy e todos os outros clientes acham aquilo perfeitamente normal.

Perfeito! (enchendo os copos) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido? 

(Forçando uma certa naturalidade, sem tirar os olhos do Barenboim) Foi a primeira vez que eu estava numa festa e senti que realmente fui convidado…

Hahahha, Zé, você é foda. Obrigada pela entrevista, seu lindo. Aceita uma sobremesa?

Melhor né, já estou meio bêbado… Tem sorvete aqui?

Tudo o que você quiser! Mas cá entre nós, quando te conheci, três garrafas não faziam uma xícara de chá! (risos)

Todos se levantam inclusive Deisy em uma espécie de dança contemporânea dessincronizada, menos o Zé que é avesso àquilo tudo. Clientes sobrem nas mesas, outros nas cadeiras, alguns se jogam no chão. Deisy, parecendo alcoolizada, tenta caminhar em linha reta com o cigarro na boca em direção ao cliente mais velho que do outro lado do bar segura um isqueiro aceso, fazendo nítida alusão à um clássico da animação da Disney, caso não me falhe a memória, onde o boi embriagado seguia pela corda bamba até chegar à lamparina.

ze-rodolfo

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