José Aguiar

A Infância do Brasil (Quadrinhofilia), Coisas de Adornar Paredes (Quadrinhofilia), Folheteen (Quadrinhofilia), Vigor Mortis Comics (Zarabatana), Dom Casmurro (Nemo), Ernie Adams, T1-Gilda (Paquet) e muitos outros.

 

Quer pedir um café? Suco?

Suco, por favor! Não sei como tem gente que consegue tomar bebida quente com esse calor. Mas se tiver só de cajú, prefiro a boa e velha água mesmo.

Tá demais, né? (ao garçom que já estava ao lado) João, o suco de caju é natural ou de polpa?

Natural. Espreme agora.

Ótimo! Faz tem que eu não tomo suco de caju ainda mais natural. Manda dois, por favor. Obrigada. (ao José) Vai tomar suco de caju, sim, senhor! E ainda vou te fazer algumas perguntas desnecessárias. Alguma oposição? Não, né, seu lindo.

Desnecessário me avisar, mas muito gentil assim mesmo. Assim não posso dizer em júri que não fui avisado, né?

Hahahah, acho que ainda nos encontraremos no Law and Order, meu caro. Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? 

Televisão! Ela me apresentou o Batman de Adam West, o Hulk do Lou Ferrigno , o Homem-aranha do Nicholas Hammond e os famigerados Superamigos quando eu era um menino educado por raios catódicos. (risos) 

Meu deus, eu adorava aquilo…

Os danos não se restringiram à minha visão. Passei a querer desenhar os personagens que gostava e como os gibis não se mexiam eu podia ver todos os detalhes. Daí para cismar em me tornar autor de quadrinhos foi um passo. Fiz terapia por um tempo nas HQs do Gralha, onde expurguei muito super-herói da minha psique danificada. Mas como não existe cura conhecida, aprendi a conviver e tirar vantagem de minha condição. Assim como Arnold Schwarzenegger, quando descobriu que não sabia interpretar. Só me falta a fortuna para igualar seus feitos. Mas estou trabalhando nisso no momento.

Hohoho, excelente. Espero que esteja perto disso. Pelo menos pra pagar a conta. Rá! Brincadeira. A conta vai no nome da editora. Mas faze-los gastar um dinheirinho, não é mesmo? (os sucos são servidos) Obrigada, João. (provando) Hmmm, muito bom! (levantando o olhar para José que não diz o mesmo) O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade, querido.

Algo novo. Nem precisa ser nada muito elaborado. É ler uma HQ que me surpreenda por suas soluções. Onde a narrativa me prende em seu silêncios, sua fluidez e me deixa com aquela invejinha “boa” do tipo: “como foi que não pensei nisso antes?” (bebendo seu suco travoso, horrível – pero no mucho)

Dá pra esmorecer por dentro, não dá? Quando isso acontece. Qual o último em que rolou isso? 

Vendo algumas soluções que o desenhista Greg Smallwood fez para a série atual do Cavaleiro da Lua. Uma HQ de super-herói sem cara de super-herói. É arrojado e moderno, mas ao mesmo me remete a desenhistas antigos como Milton Caniff, que sabiam usar o PB com elegância.

Ah, não vi isso ainda. Preciso.

Tá na banca!

Vou atrás! Sem dúvida.

Outro cara atual que curto, é o Cris Samnee que Desenha Demolidor. Ele é bem sintético, mais cartunesco. (bebendo a contragosto)

E como funciona bem! Pra gelar agora: O que é mais broxante?

Excesso de virtuose. Quando a ilustração conflita com o texto, concorrendo com ela. Aí a narrativa desaba, isso me distrai, pois acabo parando para curtir ou decifrar cada imagem no quadro e saio da história. Como em muitas HQs do Alex Ross, por exemplo. Lindas pin ups enfileiradas, mas que me entediam no conjunto.

É, cara, não tem como, a narrativa é o elemento principal. Tem uma coisa no Ross que eu não entendo, fora isso que tu falou. Por que catzo o Aquaman, o Batman… tem todos as mesmas caras? As mulheres também. Vieram da mesma família? (risos maldosos) Sei não, viu… Bem, vamos em frente: Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (bebendo)

Claro que HQ não é o primo pobre. É a irmã mais velha! Está por aí há muito mais tempo e não precisa de luxo e ostentação para se fazer notar. Moça madura, de mente aberta para a renovação, que às vezes erra a mão, mas tem uma simplicidade charmosa e sedutora. Claro que eu adoraria ver uma HQ minha nas telas. Ainda mais se render um dinheirinho extra.

Né, não?

Mas não é por esse deslumbre de exposição em mídia que quadrinhos devem ser criadas.

Nunca!

Veja as HQs do Mark Millar: são feitas como laboratórios de filmes e são inferiores aos filmes que geram. Isso me deprime, pois esses filmes nem são obras primas cinematográficas. Só diversão.

Ainda não vi uma adaptação a altura. Pelo menos dos quadrinhos. Ou não me recordo agora para citar.

Eu acompanho quase tudo que é feito com HQ em outras mídias e para sair do lugar comum, vou indicar uma HQ nacional que gostaria de assistir:

Por favor.

La Dansarina do Lillo Parra e Jefferson Costa seria um belo filme.

Ótimo! Uma quadrinista foda e porquê?

A alemã Birgit Weyhe. Ela foi convidada do último FiQ, mas passou desapercebida na multidão porque infelizmente não tem seus livros publicados no Brasil. A única HQ dela em português saiu na antologia Osmose-Brasil e Alemanha em quadrinhos, que editei com o Augusto Paim. Ela foi a São Paulo criar um história sobre essa cidade que desconhecia. O olhar dela é de uma delicadeza e feminilidade encantadoras, mesmo quando apresenta coisas não agradáveis de se ver. Precisa muito ser traduzida aqui. Tem algum editor de olho? Conte comigo pra ajudar!

(à câmera invisível) Editores!! Cheguem mais. Bora publicar Birgit! (ao José) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? 

Aí está o exemplo de uma narrativa gráfica que gosto.  A trama é simples, a arte singela e os sentimentos intensos. Lindo, lindo.

Sim! Tem como não amar?

Assim de supetão é difícil responder. Deixa eu passar o olho nas lombadas da estante mental… O que me ocorre agora é um quadro maravilhoso desenhado pelo David Mazzuchelli em A Queda de Murdock. É até um momento meio clichê: Na cena O Franklin Nelson está tomando café com a amiga Glory. Ambos estão sentados no chão. Ela toca a mão dele. Sem malícia ele retira a dele e diz que é tarde, hora de ir pra cama. O olhar dela, no penúltimo quadro da página, é o que torna esse momento único graças a expressão corporal  da personagem, que torna aquele desenhinho singelo um dos quadros mais sensuais que já vi. Um silêncio que diz tudo e é muito bonito. Não é um momento relevante à trama principal, mas é um detalhe que a torna mais rica. Adoro essas delicadezas.

Posso soltar sua mão agora? (largando a mão dele, rindo) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro, você sabe. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Esperava algo mais escandaloso de você, minha flor!

Ah, mas não seja por isso!

Posso te decepcionar dizendo que há tempos já sou uma garota nos quadrinhos? A minha protagonista de Folheteen, a Malu, sou eu.

Eu sei.

A família enrolada dela é a minha. Só não fiz uma autobiografia porque não acho minha vida interessante o suficiente para uma boa dramaturgia. Sem falar que sempre acreditei mais na voz das personagens femininas. O que elas dizem e fazem me soa muito mais verdadeiro. (o coração de Deisy palpita) Mas saindo da zona de conforto, eu seria a Kitty Pryde dos X-men. Sempre tive um lance pessoal com atravessar objetos sólidos. Sem falar que ela tem uma jornada bacana de amadurecimento no universo dos heróis. De criança perdida a líder muito mais madura que todos ao seu redor.

Não sei se alguém já te contou isso, mas (aproximando-se) consigo ver a Malu bem aí atrás dos seus olhos. É incrível isso… (quase encenado um olá para Malu, com o rosto bem próximo do dele. Não resiste) Malu, oi. Olha, não queria dizer isso agora, mas seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você quer  fazer exatamente agora?

Atravessar paredes e cofres em busca de documentos e fotos comprometedoras para enjaular de vez aqueles que fizeram o futuro assim desesperador.

Vamos providenciar isso, tá. Mas por enquanto não está acontecendo nada. Fique tranquila, amor. Depois eu volto pra falar com você de novo. Prazer, viu? (voltando a sentar-se) José Aguiar, última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero.

Estamos realmente flertando, hein?

Nem comecei, amor.

Vamos lá, estou preparado para o pior.

 Como foi para você ser abduzido? 

Na primeira vez foi meio chocante. Mas era algo que eu queria, sabe? Sempre quis dar uma volta na Enterprise. Não essa cervejaria espacial do J. J. Abrams, cheia de reflexos cegantes. Mas no fim a experiência também não foi como em Arquivo X. Com o tempo fui ganhando mais implantes que me deixaram ” melhor, mais rápido, mais forte…” E ainda guardo a esperança que um dos próximos seja o capilar. Eles tem tecnologia para isso. Mas não sei se está no seu foco de pesquisa.

Tenha certeza que sim. Obrigada pela entrevista, Jo. Aceita uma sobremesa?

Especialmente se tiver morango e chocolate. Se não tiver, topa ir caçar uma confeitaria?

Por incrível que pareça eles tem de tudo aqui. Mas topo variar. VAMOS À CAÇA!!

jose-aguiar

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