Dandara Palankof

Pesquisadora, tradutora é crítica de quadrinhos.

Quer pedir um café? Suco?

Sim, café, por favor, sempre. Espresso duplo, puro.

Não vivo sem! (ao garçom) João, vê dois espressos pra gente: Um duplo e um normal, por favor. Valeu. (à Dandara) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Todas que quiser!

Uhhhh, (salivando) do jeitinho que eu gosto! Que diabos aconteceu com você para se interessar tanto por quadrinhos, gata? 

Mulher, eu costumo dizer que rola uma coisa de carma. Mainha costumava comprar revistinhas pra ler as histórias pra mim.

(Nostálgica) Oh, mainha… 

Daí eu aprendi a ler sozinha com um gibi do Cebolinha – e eu juro a você, foi tipo um momento de iluminação súbita: numa hora eu era uma criança semiletrada, na outra eu lia tudo, na maior.

Sério?

Sério. Não, sério, não olha com essa cara, hahahaha, tô falando a verdade!

Não, tô aqui me perguntando: Como foi a tlocação de letla? (risos)

Na real, nem minha mãe acreditou de primeira. Ficava me mandando ler coisas aleatórias, achando que era brincadeira da mãe dela, que a gente tinha combinado. Pode perguntar pra ela.

Olha que eu pergunto tudo! 

Então, daí ela casou de novo – já fazia alguns anos que ela era separada de painho – e meu padrasto me deu meu primeiro gibi do Homem-Aranha. Lembro que tinha ele e o Kraven na capa. Daí o amor foi aumentando. Os anos foram passando, fui descobrindo outras coisas, outros gêneros, começando a reparar em quem fazia aquelas coisas… nessa época eu morava em Brasília, aí descobri a única comic shop da cidade, a Kingdom Comics. Me meti com uma turma lá que era formada pelos donos, os vendedores e alguns clientes. Me ensinaram muita coisa, mas muita coisa mesmo, me apresentaram várias coisas fundamentais na minha formação de leitora – principalmente um cara chamado Lima, que é desenhista e pesquisador. Um dos meus mestres. Aí, no lugar onde eu trabalhava, um belo dia me chega esse cara chamado James, também desenhista, um outro poço de conhecimento sobre quadrinhos e pá, adotei outro mestre. Daí minha mãe tinha um amigo por quem eu tinha a maior das antipatias, até ele virar pra mim e dizer “tu lê quadrinhos, é? Peraí, pirraia, vou te mostrar umas coisinhas”. Grande Flávio (ôba, café. Hmmm). (o café é servido. As duas agradecem) Ele foi embora cedo. Uma pena. Tenho muito carinho pelos TPs de Invisíveis que acabei não podendo devolver. Enfim.(primeiro gole do espresso sem o vilanesco açúcar) Daí me meti com a HQM e todo o rolo de Estranhos no Paraíso. (uma luz teatral, mostrando-se gloriosa, aliás, incide sobre Dandara) Aí comecei a escrever a respeito. Estudar a respeito. Fazer mestrado tendo gibis como objeto. E há algum tempo, tô traduzindo de forma mais regular. Aí é isso, os quadrinhos acabaram fazendo parte da minha vida de uma forma muito intensa. Permeiam minhas relações, meus estudos, meu trabalho, meus momentos de folga, minha formação como pessoa, mesmo, em vários aspectos… (atingindo a glória máxima, com direito a estrelas cartunescas pipocando como fogos de artifício) Cara, nossa, desculpa, falei demais.(iluminação de volta a realidade) Não pode me dar brecha que eu faço isso.

Minha filha, aqui quem comanda o show é Dandara. Quero mais é deitar e rolar com você, meu amô! (risos) Já que o mote é esse, diga, mainha, o que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (bebendo seu espresso fumegante)

Hahahaha, que nada, tô em casa. Então… acho que o estímulo físico acaba sendo resultado de um estímulo mental muito intenso, né? Aquela coisa de você ficar tão maravilhada que dá vontade de pular pela sala gritando “putaquepariuquecoisamonstruosaessapessoafez”.

(Deisy racha um sorriso em sua própria cara) É assim mesmo!

Isso acontece comigo principalmente quando vejo um trampo em que o quadrinista consegue cumprir a promessa que fez nas primeiras páginas: “eu agora vou te oferecer uma experiência nova”. Como ele vai fazer isso, você vai percebendo ao longo das páginas, como ele vai te enredando, quais percepções ele quer estimular mais – seja fazendo você passar os olhos pela página de um jeito diferente, seja pelo ritmo e pela intensidade da trama, dos diálogos… acho que o clímax é a união das duas coisas, né?

Total.

Uma grande história com um grande domínio da linguagem… mas passo bem quando tem pelo menos um dos dois. Posso até não gritar, mas rolam uns gemidinhos de aprovação.

Ô, coisa boa… Dá pra ouvir o gemidinho. (sorrindo com malícia, arrisca uma imitação tosca de Meg Ryan no filme Harry e Sally) Está quase chegando lá, quase, mais um pouco, assim, isso, isso, ISSO! (todos estão olhando) Ah-ah! Ahhhghh… Oww… (diferentemente de Harry, Dandara não parece nenhum um pouco incomodada) YES! YEESS!! (até a moça do caixa que vive escondida mete as caras) OH GOD, YES… E o que é mais broxante?

Nuss… gibi preguiçoso, desses que conseguem somar todos os clichês, vícios, padrões – seja dos indies, seja do mainstream. Gibi machista. Gibi fascistinha. Gibi pretensioso demais e que não entrega nada. ‘Sascoisa…

‘Sascoisa feia que não servem pra nada. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (matando o espresso)

Hm. Então. Vale seriado?

Tim Maia que me erre, mas vale tudo! Tudinho.

Sempre quis que Estranhos no Paraíso virasse uma série de TV. Ia ser a melhor novela de todos os tempos. Mas filme? Então… acho que justamente por concordar com o que o Rafa fala, não é algo que me aconteça muito, de pensar “nossa, esse quadrinho dava um filme massa”… mas acho que a última vez em que isso me ocorreu foi lendo Lucille, do Ludovic Debeurme. A pessoa certa poderia fazer um filme bem delicado baseado nesse gibi… é lindo. Já leu? (virando o espresso duplo)

Lucille me cortou em duas, amore. É muito foda.

É daqueles de apertar o peito. Muito triste, mas muito bonito. (Se o Lauro ouvisse isso, ia dizer que depois de ler eu fui chorar no banho ouvindo Smiths, haha!)
Agora, pra fazer um blockbuster, acho que Planetary seria incrível, hein! Quer dizer, provavelmente não, iam estragar tudo… Já tô me arrependendo de ter dito isso em voz alta, vai que algum executivo babaca pesca isso no ar…

“Magina!” Se preocupa, não, que ninguém lê essas entrevistas mesmo. Agora, me diga: uma quadrinista foda e porquê?

Ahn… pode ser duas?

Claro que pode, gata!

Massa. Então, a primeira é uma que pode até já ser meio clichê, mas que tem sido muito importante na minha vida, nos últimos anos: Alison Bechdel. A narrativa dela tem uma sensibilidade ímpar. E acho que no Você é Minha Mãeela chegou num nível de excelência, mesmo, no domínio da narrativa gráfica. E o lance da identificação é realmente muito forte – a homossexualidade, o processo de se reconhecer como lésbica não só enquanto indivíduo, mas enquanto parte de uma comunidade instruída a lhe rechaçar, a desconstrução das relações familiares… foda. (Deisy suspira apaixonadamente)
A segunda é a Lu Cafaggi. Me apaixonei completamente pelo traço dela, acho absurdo de tão lindo. Uma textura muito única. Comprei aquele gibi dela com a Bruna Vieira, o Quando Tudo Começou, pra dar pra uma sobrinha minha. Quase que não dou pra menina.

Rá, comigo aconteceu o mesmo. Ia dar para um amigo, mas no caminho fui lendo e… 

Pior que ela adorou, tenho nem como roubar de volta! Hahaha, mentira, fiquei mó feliz de ela também ter gostado. Vou é comprar o meu, agora.

Acho que vou pedir uma breja, agora. Vamo pedir uma breja?

Pensei que você nunca fosse perguntar. BORA!!

Vaaaamo pedir uma breja!

Calor da “bixiga”.

Garçom! (João se aproxima)

João, manda uma Laguna pra gente, bem, mas beeemmm gelada, por favor. (à Dandara) Tava seca por uma breja. Não sei pra que a gente pediu esse café… Se bem que foi bom, né, pra cortar a ressaca. Bem, amore, não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Puts, nunca li esse… vai rolar. Mas ai, mulher, queria que minha memória não fosse tão ruim, pra poder citar um monte… mas vamo ver as últimas que eu consigo lembrar que me fizeram dar aqueles pulos pela sala…hmmm… então, tem um gibi do Brecht Evens chamado The Wrong Place que tem uma cena de sexo que é simplesmente uma das coisas mais embasbacantes que eu já vi, em qualquer expressão artística; fiquei até meio sem fôlego durante a leitura.

Ai meu deus, preciso ler isso! Todo mundo falando….

Nuss… lindimais. (a cerveja é servida quase trincando)

Agora eu vi vantagem! Obrigada, João. (servindo os copos) Um brinde?

A todos nós, que insistimos nesse mundo troncho…

Valha!

As duas enxugam a boca depois de um gole homérico.

E esses dias eu tava relendo Do Inferno, que tinha lido uma única vez, há muitos anos… aí tem uma sequência em que o Dr. Gull explica pro Netley, o cocheiro, qual o verdadeiro intento dos assassinatos das prostitutas – nesse, eu literalmente gritei pra minha esposa “AMORVEMVERISSOAQUIMEUDEUS”. E li alguém dizer uma vez que o Eddie Campbell desenha mal, nossa, gente, que mundo é esse… enfim. (bebendo)

Um mundo com gente mobral, só pode. Minha mão caiu quando li aquilo… (enchendo o copo novamente)

Tem essa página dupla em Você é Minha Mãe?, o da Alison, que me fez pausar a leitura e ficar olhando pra ela por um tempo… várias reproduções de uma mesma foto dela bebê nas mãos da mãe, com trechos da narração dela, em primeira pessoa, e de um diálogo das duas pelo telefone.

Menina, aquilo foi fulminante!

É um resumo do que o livro trata.

Sim!

Pronto, isso, é aquele momento da promessa! E essa foi uma promessa que na verdade fez eu me perguntar se aguentava ir até o fim… incrível. Ah, e a sequência final do quarto capítulo das Aventuras na Ilha do Tesouro, do Pedro Cobiaco. Fazia tempo desde a última vez que um gibi me fez chorar. (virando o copo)

Pedrinho tem uma alma tão sensível. É um chuchuzinho. (à câmera invisível) Tia tá com saudade, viu, Pedrinho? (à Dandara) Meu anjo, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? 

Com certeza. Quem tá na chuva… (piscadela)

Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Sorry. (enxugando mais um) 

Puts… engraçado, isso. Nunca fui muito de me projetar. Às vezes rolava uma identificação momentânea, mas raramente isso de “uau, quero ser ela”, ou “ele”… Passei muito perto disso justamente com Estranhos, porque me via muito na Francine, mas queria ser mais Katchoo… Agora, atualmente, se me dissessem “escolhe aí que tu vai ter que virar esse personagem, vaivaivai”, acho que seria mesmo a Batwoman, a Kate Kane. Ela é foda, Deisy, vá por mim. (servindo os copos dessa vez)

(Rindo) Acredite se quiser, eu conheço uma Bat pessoalmente. A Bategirl! Esmurra e esculhamba a geral. Imagine que você está na pele da Batwoman e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Salvar Gotham, tomar um porre, casar com a Maggie Sawyer, roubar o batmóvel. Não necessariamente nessa ordem.

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais, Dandá. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) 

Pode aporrinhar sempre que quiser!

Que sua esposa vai dizer, amor? Não, chega. Já me meti em enrascadas demais para uma vida… Se bem que… você é um risco constante. (mordendo os lábios, sensualíssima) Mas, sério, Dandá, gostaria que você fosse sincera, tá? Como foi para você ser abduzida?

Mas então… foi massa! Melhor que cogumelo! Mais colorido, pelo menos. Mas a nuca ainda dói um pouco. Meus gatos andam me estranhando. E minha esposa diz que eu às vezes brilho no escuro quando durmo. Já pedi pra ela filmar. Tanta coisa pra fazer comigo e os cara me transformam num gelouco…

Nossa… Se ela filmar, você me mostra depois? Meu, que louco… Amore, obrigada pela entrevista. (levantando a garrafa seca, morfética, bem triste mesmo) Bora mais uma?

Vamos de brejaaaaa!!

Hoje é pra rasgar!!!

dandara-palankof

 

 

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