Marcelo Lima

Lucas da Vila de Santa´Anna da Feira (Independente), Quarto ao Lado (Independente) e outros.

 

Quer pedir um café? Suco?
Café, por favor.

(ao garçom que já estava ao lado) João, manda dois cafezinhos pra gente, por favor. Obrigada. (ao Marcelo) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?
Claro, prefiro falar superficialidades!

Oquei… Então me diga, que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?
Pô, essa não tem nada de desnecessária. (rindo) Olha, não veio da família, nem de incentivo de amigos, nem nada. Eu realmente bati com a ideia de que queria escrever um roteiro de HQ, já que eu lia bastante e gostava de imaginar outros rumos para as histórias. Aí fui, fiz e curti.

Simples, rápido e rasteiro. Gostei. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, Marcelo, tanto faz. Fique à vontade.
Adoro a diagramação, ou artrologia como se chama academicamente. Gosto de ver como se configura a página, a relação entre os quadros, as metalinguagens, etc. Eu sou fanático pelas histórias em si, mas sobretudo me amarro nas possibilidades narrativas da organização do espaço de uma página, seja virtual ou impressa. (o café é servido) Um sonho meu é organizar uma antologia só com páginas exemplares de artistas interessantes – acho que isso até já existe,mas não tem problema. (açucarando o café)

Hmm, desconheço… mas se já existir, nunca é demais! Tem um pessoal que joga umas páginas no Pinterest. Depois passo se você quiser. E o que é mais broxante? (bebendo seu café sem açúcar)
O que acho mais broxante é quando tentam fazer uma HQ como história ilustrada, como é o caso de certas adaptações publicadas no Brasil que exigem reprodução do texto integral da obra ou não permitem mudanças para o roteiro. Quero ler uma HQ, não um livro ilustrado! (bebendo)

Hmm, ainda não peguei uma adaptação assim para ler. Mas é um limite complicado esse. O Pobre Marinheiro do Sammy Harkham considero como um quadrinho, no entanto tem uma ilustração por página e ainda é uma adaptação do conto do Maupassant, e sem medo algum, arrisco a dizer que é melhor do que o original. Como você vê isso?
Vejo isso de maneira tranquila e também aprecio exceções (pois são uma minoria, né?) como a do Sammy Arkham. Uma HQ nesse estilo que gosto muito é Poema em Quadrinhos, de Dino Buzzati, que é como um livro ilustrado também. Acho que tem uma diferença quando se tenta fazer uma HQ no estilo de um livro ilustrado (pode-se falar assim?).?
Acho que sim, hihihih.
Como é o caso destes dois gibis citados, pois aí o autor sabe onde deseja chegar e o produto final é bem planejado e elaborado – o que não significa que ele será necessariamente bom. Contudo, o caso que citei na pergunta anterior se trata de quando há problemas advindos falta de liberdade para adaptar, ou falta de experiência do adaptador, que pode extirpar a fluidez e inventividade de sua obra em prol da manutenção do texto original e de seus parâmetros – como se o gibi se subordinasse inteiramente à Literatura. Disso eu não gosto. Ficou confuso ou deu pra sacar?

Deu pra sacar, meu querido em claro e bom tom. Agora, a presepada continua: Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.
A HQ é uma arte autônoma, sem dúvidas, embora socialmente e economicamente acabe sendo subordinada ao cinema em alguns setores. Uma obra para o Cinema? Posso falar uma que seria legal para a televisão também?.
Claro, querido. (sugando seu cafezinho)
Acho que para o Cinema poderia ser Asterios Polyp, se fosse uma Animação. Eu curtiria! Para a televisão, Love and Rockets. (sorrindo)

Um quadrinista foda e porquê? 
São muitas, mas já que é pra ser UMA, vou citar Alison Bechdel. Os quadrinhos dela não são do meu tipo favorito – gosto de gibis mais experimentais na forma das páginas – mas o trabalho de criação de sentido e amarra psicológica dos livros da autora me agradam muito e me fazem ver uma artista em seu nível de maturidade mais alto, com muito para dizer ao seu leitor. O exercício de alteridade, para mim, foi profundo.

Sim, casaria com ela fácil. E alteridade é uma palavra tão bonita, né? Alteridade… Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (matando o café)
Eu gosto muito do modo como Love and Rockets (a parte do Jaime Hernandez) lida com a serialidade. Você acompanha uma quantidade imensa de personagens que evoluem com o tempo, e envelhecem quase que no mesmo ritmo de anos que se dão os intervalos da publicação. Isso cria um poderoso elo com os leitores e potencializa certas cenas como o reencontro entre Hopey e Maggie, o casal principal do gibi, que passam muitos anos desencontradas – o que significa vários volumes em que elas não interagem diretamente. Quando elas se veem novamente, numa cena em de apenas 3 quadros, é lágrima na certa! (liquidando o café)

É fascinante mesmo! Ver os personagens dos quadrinhos em série envelhecerem, sofrerem danos irreparáveis, esse tipo de “realidade” aproxima muito mais do que afasta. Quando os exemplos se contrapõe, os personagens que não ganham se quer uma ruga, um fio de cabelo branco em décadas ficam tão rançosos. Sei lá. Bem, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.
Indecência nenhuma, hahahahaha. Eu seria Penny Century, de Love and Rockets. Por um lado, tem a questão da alteridade de gênero – gostaria de ter uma experiência feminina – por outro, de classe e cor – sou negro e classe média baixa, ela é rica e branca, cheia de privilégios. E, acima de tudo, ela é muito interessante e ainda tem super poderes. ME atrai muito me imaginar na pele dela por uma vida.

Vou te dizer uma coisa, Marcelo, de longe você me é muito mais interessante. Penny? Quem é Penny? Penny Lane? Dane-se a Penny! Só queremos seu dinheiro!!! HAHhahaha… Cara, imagine que você está na pele da Penny Century e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?
Sendo Penny Century, eu possivelmente daria um jeito de escapar pelo mundo num carro luxuoso, mas sem esquecer de ajudar os necessitados com meus poderes. Uma hora tudo se ajeitaria, então pra que ficar pensando no desespero?

Um pouco de empatia no mundo resolveria muita coisa mesmo. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Má. Como foi para você ser abduzido?
A melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida. A partir do momento em que voltei e notei que minha vida era convencional, percebi que estava testando minha subjetividade e experiência corporal com toda honestidade que esta experiência de vida particular poderia me oferecer. Sei lá. acho que me sinto mais autêntico em relação ao mundo depois de aceitar que tudo é excepcional.

Alteridade… Obrigada pela entrevista, seu lindo. Aceita uma sobremesa??
Sobremesa, pra mim, é só uma balinha de canela mesmo, no máximo.

Então deixa quieto. Quer dar um giro por aí?
Agora?
Sim. Bora?

 

marcelo-lima

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