Fábio Moon

Dois Irmãos (Cia das Letras), Daytripper (Panini) 10 Pãezinhos (Devir)

Quer pedir um café? Suco?

Pode ser os dois?

Claro, querido.

Suco de laranja e um café sem açúcar, por favor.

Ouviu o homem, João. Eu vou só no cafezinho mesmo. Obrigada. (o garçom está ao lado, anota o pedido e sai) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Fábio, tudo bem?

Para uma pergunta descabida dessa, Fábio faz o que é natural fazer, sorrir.

Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

Eu já dei todo tipo de resposta pra essa pergunta. Já disse que fui amaldiçoado, (Deisy ri) que não conseguia me imaginar fazendo outra coisa, mesmo que não exista um grande mercado ou se eu não conseguisse ganhar dinheiro com Quadrinhos.

Boa!

Já disse que tem uma relação direta com ter um irmão gêmeo que trabalha comigo, que foi uma dessas coisas que fizemos juntos desde pequenos e que continuamos fazendo até hoje. Já apontei pros meus pais, que liam histórias pra gente na cama antes de dormir, e que isso alimentou nosso gosto por histórias, que minha mãe gostava de ler Quadrinhos quando era menina, que desenhar tem essa mobilidade de poder desenhar em qualquer lugar, a qualquer hora, e que isso aumentou minha ligação com o desenho já que eu e meu irmão estávamos sempre desenhando, e que a partir do momento que fomos nos apaixonando mais e mais por histórias, o desenho foi ganhando força nessa paixão, foi ganhando um foco, um motivo. Quando, mais ou menos com uns 13 ou 14 anos, descobrimos mesmo que queríamos contar histórias, o desenho fazia parte indispensável desse querer, e assim contar as histórias em Quadrinhos virou nosso caminho. (o café e o suco de laranja são servidos. Eles agradecem) Acho que eu era uma criança tímida, e tímidos gostam desses mundos que os livros oferecem, assim como gostam dos mundos interiores que existem dentro deles. Acho que essa timidez alimentou uma curiosidade em mim de interagir mais com algum mundo, mesmo que fosse um mundo imaginário. E o que eu percebi é que uma boa história deixa o leitor com vontade de viver mais, de interagir mais, de criar, de tomar decisões. Você vai em busca de um refúgio da realidade e volta revigorado, cheio de vontade de tomar as rédeas da sua própria realidade. Quando vi que as histórias tinham esse efeito sobre mim, decidi que queria contar histórias que surtissem esse efeito sobre os leitores. O desenho estava lá neste momento, junto com os Quadrinhos, e então essa decisão grudou nos quadrinhos e as histórias que eu resolvi contar vieram a partir do desenho e a partir dos Quadrinhos. (bebendo um gole do café)
Eu penso muito sobre isso, sobre os começos de um percurso que continua me fascinando, e tem coisas que você consegue contar com Quadrinhos que não dá pra contar de nenhum outro modo, e é por isso que continuo fazendo Quadrinhos, acho que ainda há tanto pra explorar, pra experimentar, pra descobrir.

Deisy suspira com ar de apaixonada. Final de tarde, uma iluminação branda e alaranjada, atravessa o bar, prolongando as sombras. Há uma serenidade quase japonesa no local.

(Com falsa timidez) Ah, Fábio, você fala tão bonito que eu fico até meio assim de te perguntar… O que… O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Vou começar pelo físico, ok?

Sim. (molhando a boca no café)

Não sei se o pessoal fala muito sobre isso, mas desenhar é uma delícia, é foda, e com o tempo pode ser uma foda que só melhora. (Deisy tenta se conter) Se você descobre qual o seu instrumento, como você se relaciona melhor com a sua arte, aí desenhar é muito sexy. (Deisy morde os lábios) Eu tenho uma relação de amor com o pincel, e isso influencia muito o prazer que eu sinto dia após dia com a rotina do desenho. (o calor que ela sente é demais) Porque desenhar quadrinhos é rotina, é como trabalhar no escritório, são dias, meses ou mesmo anos pra desenhar algo que as pessoas vão ler em minutos, no máximo em horas. Se você não acha algo que te excite nesse cotidiano, acaba desistindo, e desenhar com pincel tornou o desenho algo mágico pra mim. (Deisy começa a imaginar o pincel) Desenhar ganhou movimento, ganhou vida, fico hipnotizado com a capacidade de mesclar o figurativo e o abstrato quando desenho com o pincel, e o poder expressivo que poucas pinceladas tem de retratar uma realidade, um gesto duplamente marcado no papel: o do personagem, e o do artista. Desenhar é fazer um truque de mágica na frente das pessoas, e eu adoro ver artistas que conseguem desenhar em público, é uma dança toda particular que me seduz. Recomendo fortemente. (voltando-se ao café)

Você quer acabar comigo? (ofegante)

(Sorri com elegância) Agora, muito mais excitante é como a narrativa gráfica afeta as pessoas, e é isso que faz minha cabeça girar. Acho que é por isso que prefiro contar minhas próprias histórias, ao invés de somente desenhar histórias dos outros, que é pra tentar cutucar feridas expostas específicas do que eu vejo e fico com vontade de apontar. O desenho comunica muito rápido uma cena, uma ação, e isso tem um efeito forte nas pessoas por causa dessa rapidez. Junto com as palavras, então, sua narrativa já vem com duas leituras simultâneas, a leitura das imagens e a leitura do texto, e isso já enriquece a experiência da leitura em si. (as mãos de Deisy tremem) Saber trabalhar essas duas leituras cria uma terceira leitura, que planta a semente no leitor da história que ele vai lembrar na cabeça dele: uma história que acontece em movimento, com emoção, onde às vezes a cena que lhe marca mais é uma que acontece no espaço entre um quadrinho ou outro, somente na mente, sem precisar ser desenhada. Essa terceira leitura, das imagens com as palavras, só existe nos Quadrinhos, é diferente do livro, da prosa, pois apresenta um mundo visual. É diferente do filme, pois o leitor não é passivo como o do filme ou do teatro, precisa querer virar a página, precisa participar, precisa ser o solo fértil onde as imagens entre os quadros vão brotar. (todo o corpo de Deisy treme) Ler uma história em Quadrinhos é uma experiência muito dinâmica, muito emocional, muito forte, e é isso que eu mais gosto de tentar apresentar para o leitor: essa experiência forte e pessoal. Quando você toca o leitor desse jeito, esse leitor muda, cresce. (terminando seu café)

Estou tendo um orgasmo, Fábio. (ele ri) Sério! (cheia de doce) Tive que me controlar aqui para não soltar raios de luz de minha boca, dos meus olhos, de tudo. Meu deus, cara! Ia fazer um estrago aqui… (segurando suas mãos) Só posso dizer: amém e obrigada, obrigada… (soltando suas mãos e endireitando-se) Mas você sabe como é a vida. (amarga) Ele vem com tudo, sem perdão e me faz perguntar: o que é mais broxante? (até seu café esfriou)

Acho que o tempo que demora pra fazer um bom Quadrinho é broxante. Fazer Quadrinhos pode ser tão rápido como uma tira do Arnaldo Branco ou do Dahmer, e pode demorar mais de uma década como um “Bone” do Jeff Smith ou um “Do Inferno” do Allan Moore com o Eddie Campbell. (Deisy sorri) No meio desse caminho, é muito broxante essa sensação de que se algo acontecer e você não terminar, todo esse esforço será pra nada. Lidar com essa demora, essa diferença da rapidez da leitura com a demora da produção, é uma luta constante contra a broxa diária. (Deisy começa a murchar aos poucos) Acho que é por isso que eu acabei me afastando de desenhar histórias de super-heróis, e escolho com muito cuidado as histórias de outros roteiristas que aceito desenhar. Eu não faço Quadrinhos porque gosto de desenhar. Eu preciso gostar de todas as partes do processo pra não broxar com a demora, (Deisy está murchando cada vez mais) e uma história que não me envolve e não me desafia enquanto artista é a que me desanima mais facilmente. (Deisy está quase escorregando da cadeira, enquanto Fábio parte para o suco de laranja)

(Tosse e se endireita novamente, disfarçando a maneira como se afeta por tudo o que ele diz) Hm-hum. (pigarreando) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (percebe algo inédito, deixou o café esfriar) 

O Beijo Adolescente, do Rafa Coutinho, tem muito potencial para um bom filme. (bebendo o suco pelo canudinho)

Sim!!! Isso seria demais! E você poderia me dizer uma quadrinista foda e porquê? 

Se for uma só, não dá pra fugir da Alison Bechdel, “Fun Home” é um dos mais brilhantes Quadrinhos que eu já li na vida, que me faz pensar todas vez que eu releio. Mas cada vez mais as mulheres estão encontrando o seu espaço, em direções narrativas e criativas muito diferentes. Uma amiga minha, a Becky Cloonan, (o queixo de Deisy desaba) é a pessoa mais apaixonada por Quadrinhos que eu conheço, ela fala sobre todas as facetas dos Quadrinhos com uma paixão inspiradora e contagiante, e ela se atira em todas as frentes com a mesma intensidade, fazendo webcomics, desenhando gibis independentes ou trabalhando em grandes editoras. Tanto no trabalho como pessoalmente, ela me relembra que os todos Quadrinhos podem ser incríveis.

Para tudo. Você é amigo da Becky Cloonan?? (detrás do suco de laranja, Fábio acena que sim) Cara… Ela é demais! The Mire… O que é aquilo?! Sim, todos os Quadrinhos podem ser incríveis. Bem, não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

O Bastien Vivès mesmo repete essa fórmula no final do Polina.

É um safadinho…

Quando a bailarina Polina reencontra seu antigo professor da infância, aquela figura mítica que assombrou e ao mesmo tempo definiu sua história com a dança. O que eu acho incrível, que é a minha leitura do gibi, é que o professor é uma figura imponente durante toda a história, que sempre tem a mesma cara, mas no final, quando ele e a Polina estão conversando, ele tira os óculos por um momento e ela vê um outro ele, o professor real, muito mais velho, e vemos que o tempo dele já passou. O momento faz valer o gibi.
Outro momento incrível é um acidente de avião que acontece no Strangers in Paradise, do Terry Moore, e você sente a ligação entre os personagens nesses momentos que antecedem a queda, enquanto a Katchoo pensa na Francine, declamando o que parece um poema, olhando pela janela onde vemos o chão se aproximar, e o corte para a Francine no banheiro, a meio mundo de distância, e a maneira como o Terry Moore nos mostra aquele momento em que sentimos que aconteceu algo com alguém que amamos. (matando o suco)

(Com a mão no queixo, cotovelo apoiado na mesa) Cara, podia ficar oras te ouvindo falar sobre quadrinhos. Podia ter vários de você, assim eu te liberava pra você não ficar cansado. (tirando a mão do queixo) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro, Fábio. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Ah, eu seria o Fone Bone.

Amo o Fone Bone!

Jogado numa aventura num mundo que eu não conheço, querendo proteger as pessoas que eu me importo, minha família, e ligeiramente motivado por uma paixão enrustida.

Pois imagine que você está na pele do Fone Bone e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Talvez eu tentasse tomar uma atitude em relação à minha paixão enrustida. Os momentos desesperadores nos colocam barreiras maiores que tornam nossas barreiras cotidianas mais fáceis de transpor.

Sempre! Eu nunca disse isso pra ninguém. Mas, talvez por ter lido Bone na época do escola, isso me fez lembrar que eu só dava bola pros meninos na última semana de aula. Momento ternurinha… (risos) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais, meu querido. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

Eu era criança, estava no carro, no banco de trás, meus pais estavam voltando do sítio. A gente ficava acompanhando umas luzes no céu à noite, que iam pra lá e pra cá, em movimentos precisos. Não parecia o tipo de movimento que os aviões fazem, ou os helicópteros. Pra mim, era óbvio que eram os aliens. Aí, eu olhei pro lado, pro banco de trás do carro, e vi outro eu, que os aliens deixaram lá, acho que pra me vigiar. Ele continua do meu lado até hoje.

Deisy está passada, esquecendo-se de agradecer a entrevista e sugerir a sobremesa. Mais ainda ao ver passarem pela entrada do bar, o irmão gêmeo de Fábio, Gabriel Bá e outro Gabriel Bá. Ou seria outro Fábio? Seguido por outro e outro e outro e outro e…

fabio-moon

 

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