Bruno Seelig

Inktober Extended (Independente), One Page Movie (Independente) e Tumbrl.

 

Quer pedir um café? Suco?

Acho que vou tomar uma água. Com gás. Peraí, tem tônica? (o garçom acena que sim) Vou querer uma.

E pra mim, traz um cafezinho mesmo, João. Obrigada. (ao Bruno) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Melhor assim. A coisa complica quando as pessoas querem respostas necessárias, haha.

Nem me fale. Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

Ihh, pergunta difícil… e necessária. (Deisy sorri) Você me enganou nessa, hein?

Sorry.

Já tô tenso.

Não fique… (o café e a água são servidos. Agradecem)

Agora, (rosqueando a tampa da garrafinha d´água) tentando responder à sua pergunta – e sendo bem sincero: não sei. Talvez fosse o próximo passo, saca? Eu já trabalhei com animação e ilustração, sempre contando as histórias dos outros. Talvez nos quadrinhos eu tenha achado o espaço pra contar as minhas próprias. (bebendo)

É um bom lugar. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica, Brunão? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (bebendo o segundo gole de café)

A arte.
Parece simplista – e talvez até seja- mas pra mim o desenho tem que ter pelo menos uma característica que me prenda, que me segure um pouco mais do que aquela folheada básica. Pode ser a composição dos quadros, o tipo de desenho, as cores, as manchas, a finalização à lápis – ou aquela pincelada de nanquim que é meu ponto fraco. Se o cara usa pincel pra finalizar já me fisgou por mais um tempinho. (só na tônica)

Nada como uma aguada de nanquim sobre o papel, né? Há tanta vibração na mancha, nos pontículos de tinta, nos veios da ramificação que o nanquim aguado faz sobre o papel que o digital tenta mas não consegue atingir. E o que é mais broxante?

Acho que sempre é uma história ruim, né, não? Porque história boa e desenho ruim é ok. Você lê. Faz uma força e lê, porque a história vale a pena. Eu lembro de continuar lendo Y: The Last Man porque a história tava indo bem (tá certo que no final deu uma escorregada, mas ok). E eu não acho o desenho da Pia Guerra ruim, mas não é pro meu gosto. Só que a história era boa, então você insiste. Mas se sua história for ruim, já era, amigão. Você pode ser o pica das galáxias no lápis, pincel, cores, narrativa e enquadramentos, que seu livro vai pra prateleira e não sai mais de lá.

Claro, a gente sempre pega pra dar mais uma espiada. Mas aí é que nem criança: fica só vendo os desenhos mesmo (risos).

Até encher o saco porque não dizem nada. (rindo maldosamente) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.

É, concordo com o Rafa. Falar isso é reduzir muito o que se pode fazer em quadrinhos.
Acho que um dia alguém vai tropeçar nos trabalhos do Marcello Quintanilha e do Shiko e dizer “Caralho! Como eu nunca vi isso antes?” Só espero que nessa hora tenha algum quadrinista presente pra dar um daqueles pescotapa nesse infeliz.

Heheh, isso sempre me acontece. Agora me diga uma quadrinista foda e porquê?

Pô, Deisy. Só uma?

Sinta à vontade, gatinho.

Vou ficar com a Emily Carroll nessa então. Por quê? Já viu o trabalho dessa mulher? Tomei um tapa na cara quando li His Face All RedHis Face All Red, webcomic dela de 2010.

Pô, essa é foda! 

É uma aula de narrativa. Sério.

Eu sei que é!

Sem falar que o desenho dela é o que há de melhor por aí.

Tô contigo, cara.

Depois ela compilou num livro, junto com outras histórias, mas o recurso que ela usou pra criar suspense – ter que rolar a barra do navegar pra acompanhar o personagem descendo num poço escuro! – perdeu um pouco de impacto na versão impressa. Fico no F5, esperando pra ver se tem alguma história nova no site dela.

Cara, você pegou num ponto interessante. Cada suporte deve ser respeitado e explorado como tal, certo? Se a webcomics permite uma leitura como a dela, na vertical, usar os recursos, não precisam ser todos, mas fazer uma webcomics, pensando nisso, em explorar as possibilidades, isso só enriquece a narrativa, não é? Me cansa um pouco ver uma webcomics que parece uma scan. Se for assim, prefiro ler impresso. Não faz muito sentido pra mim. Tem um pessoal meio relutante a usar GIFs animados em um ou outro quadrinho de web. Eu acho maravilhoso! É o caso do Gnut do Paulo Crumbim, Thunderpaw. Acho que é por aí.

Mas ó, vou falar mais duas quadrinistas. Rapidinho, prometo.

Opa! Por favor, chefe.

Kate Beaton e Jillian Tamaki. Por causa de Hark! A Vagrant e This One Summer.

Pronto. (virando a garrafinha)

Excelente! Bem, queridão, não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (matando o café)

Essa história do Bastien Vivès merece uma menção honrosa. Dá pra pegar todas as páginas e emoldurar (risos).

Quero!

Mas pra mim, tem uma cena do quadrinho Essex County, do Jeff Lemire, que me pegou de jeito. Os dois personagens em questão têm uma ligação muito forte com o hóquei e, quando um deles passa mal (talvez um ataque cardíaco?) e desmaia (morre?) nos braços do outro, o time de hóquei que eles jogaram quando mais jovens aparece. Todos batendo os tacos no chão. Putz, aquilo me deu um soco no estômago. Acho que foi uma das poucas vezes em que eu me senti assim lendo um quadrinho (limpadinha no canto do olho porque caiu um cisco aqui).

Deisy ri, balançando a cabeça negativamente.

Iiih, acho que larguei um spoiler fodido aí!

Você ferrou a minha vida… Eu tô lendo o Essex. Tô exatamente chegando nessa parte. Ah, cara… (Bruno está visivelmente mal com o furo) 

Desculpa aí.

Que merda… AHHAhaha! Relaxa. Não tenho essa paúra com spolier, não. Não muito. Tá, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Ah nem foi tão indecente assim!

Não! (risinho infantil)

Nem a minha resposta vai ser. Acho que ficaria com um personagem tipo o Dylan Dog. Ou Constantine. Nah, Dylan Dog, com certeza. Ele se leva menos a sério.

Né?

A vida dele é só caçar uns fantasmas/monstros meio toscos e ter uns romances no meio do caminho.

Boa vida, não? Imagine que você está na pele dessa personagem e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Acho que sexo e pizza resolvem grande parte das agonias. Mas nessa ordem. Se inverter, não dá tão certo (risos).

Jamais! (risos) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

Acho que você confundiu as pessoas, Deisy. Você deve tá falando do Bernardo França.
(pausa)
(pensa)
Se bem que teve aquele lance estranho no meu aniversário de 30 anos… mas eu achei que fosse ressaca só.

(…)
Agora que você falou, faz todo sentido as luzes altas, aquele monte de gente esquisita e aquela tonteira toda. Fique bolado agora (risos).

Não esquente. Isso sempre acontece. Cara, obrigada pela entrevista, Brunão. Aceita uma sobremesa?

Quero, mas não daqui. Tem uma casquinha no caminho do ponto de ônibus que vale a pena. Vamos lá?

Bora! Tá quente mesmo. 

Bruno fecha a garrafinha. Ainda tinha uns dedos de água. Seria bom leva-la para depois do sorvete. Deisy vai ao caixa pagar a conta.

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