Daniel Esteves

Por mais um dia com Zapata, São Paulo dos Mortos, KM Blues, 147, outros…

 

Daniel aproxima-se sem ser visto. Deisy está de cabeça baixa, fuçando no celular.

Oi, Deisy!

AH! Oi, querido! Não vi você chegando. (levanta-se para beija-lo no rosto) Tava aqui jogando Beneath of the Sky. Conhece? (sentando-se novamente)

Não faço a menor ideia do que seja. Para jogos sou um completo imbecil! Parei no Super-Nintendo…

Puxa uma cadeira aí. Quer pedir um café? Suco?

Aceito uma cerveja.(sentando-se) De preferência aquelas cheias de milho, que são mais baratas. Sabe como é, né? Faço quadrinhos e não posso esbanjar. A não ser que você esteja pagando, daí pedimos uma cerveja melhor… E nesse caso já traz um balde! (risos)

Hahaahah! A gente põe na conta da editora. João! (ao garçom que se aproxima) Traz um balde de Juan Caloto pra gente, per favore? Obrigada. (ao Daniel) 

Cerveja boa de graça? Quero ser entrevistado toda a semana!

Hahah, nem tudo é como a gente quer… Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Dani, tudo bem?

Ótimo! Não sei se consigo responder a alguma pergunta necessária.

(Seca) Nem a vida é necessária. (ele arregala os olhos) Hoje tá foda. Mas não se preocupa, não, querido. Assim que chegar a breja as coisas se normalizam. Estão enrolando pra pagar um freela que eu fiz há seis meses. E tô meio que contando com essa grana. É foda… Mas me diga: que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

Primeiro porque eu não consegui ser jogador de futebol.

Hahhaa, sério? Meio de campo?

Prum São Paulino que cresceu vendo o Time do Telê Santana bi-campeão mundial e da libertadores, tive muitas fases. Numa época queria ser goleiro por conta do Zetti, muitas vezes meio-campista por culpa do Raí, mas na maior parte do tempo Lateral ou Ponta por ser muito fã do Cafu.

Ninguém pode culpa-lo por isso. 

Mas voltando ao assunto, eu lia muito quadrinho e quando pensei pela primeira vez seriamente sobre o que fazer da vida, fiz colegial técnico de Desenho de Comunicação. Como a maior parte dos leitores de quadrinhos eu também pensei um dia em desenhar. Mas logo vi que desenhar não era pra mim e me dediquei a escrever. (a cerveja é servida trincando, um balde cheio de Juans)

Ohohoho! Cápsulas de felicidade. (o garçom enche os copos) Obrigada, João.  (ao Daniel, levantando o copo americano) Um brinde a…

Ao Garrincha e aos quadrinhos!

Meu anjo preferido!

Devia fazer uma HQ sobre ele… (sorrindo)

Devia. Tim-tim. (enxugando o copo e estalando a boca no final) Geladíssima!! Mas voltemos a entrevista, santinho, se não isso aqui vira uma putaria.

Bem… com o tempo percebi que amo contar histórias. Teria feito cinema, ou literatura, por exemplo. Os quadrinhos vieram de forma natural, como disse antes, eu lia com muita frequência, mas além disso conheci muita gente que também curtia e queria produzir HQs na época do técnico. E, por maiores que sejam as dificuldades, esse é um meio relativamente fácil de você acessar, de conhecer as pessoas que produzem e começar também a produzir. (bebendo um golinho)

Quadrinhos são um universo que permite uma posição independente. Não que outros meios de comunicação não permitam, mas isso se encaixa muito bem nos quadrinhos. Contar o tipo de história que lhe convêm, do jeito que acha mais interessante. E, talvez por isso, nunca vou deixar de fazer quadrinhos.

“Com um grande poder vem uma grande responsabilidade…” Danem-se as responsabilidades!! (risos e mais cerveja) 

E então tem um outro lado, minha natureza ateia, aliada a meu profundo medo de morrer, achou uma função ainda maior para criar narrativas: me perpetuar. Não vou viver pra sempre (infelizmente), mas ao menos deixo alguma coisa pro mundo. Mesmo que seja uma grande merda e pouca gente goste. Alguma coisa ficou. Se bem que, pensando por esse lado, se eu fosse um jogador de futebol vitorioso numa Copa do Mundo perpetuaria minha existência muito mais. Mas não teria talento o suficiente pra isso. (sorrindo por trás do copo)

Você é uma coisa mesmo! O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz, Dani. Fique à vontade.

Minha resposta talvez fuja um pouco da natureza da pergunta, talvez até soe meio clichê, mas sinceramente, o que me atrai, o que me deixa excitado, o que faz minha cabeça, seja em quadrinhos, cinema, literatura é CONTEÚDO. E digo isso de uma maneira bem ampla. Ter alguma coisa pra dizer, seja pela história, pela forma narrativa, pelos desenhos, pelo tema, pela formato editorial. Quando “Gen Pés Descalços” saiu pela primeira vez pela Conrad aquilo me emocionou de tantas maneiras diferentes, pela história e pelo assunto, mesmo que eu achasse o desenho tosco na época e que a narrativa do mangá não fosse tão do meu gosto. Coisa semelhante aconteceu quando li Henfil nas primeiras vezes, nesse caso tanto pela estética, pelo desenho, quanto pelos temas. Do Inferno do Alan Moore me deixou meio tonto com o roteiro tão intrinsecamente encadeado, com tanta coisa a dizer. Eisner me fez ver um universo de possibilidades narrativas dentro dessas historinhas que eu sempre amei, dentro da linguagem dos quadrinhos. Giancarlo Berardi me encantou com a forma de contar histórias e os temas tão interessantes dentro de revistinhas aparentemente simplórias de faroeste, ainda mais quando desenhadas pelo Ivo Milazzo. Joe Sacco me apresentou uma estética e temas a respeito de povos oprimidos numa época que eu estava entrando na faculdade. Angel de la Calle mostrou toda uma paixão pela figura da Tina Modotti e pelo México, que me encantaram profundamente. Laerte em todas as fases pelas quais passou, seja nas tiras diárias, nas revistas Piratas do Tietê, ou na fase mais livre, sempre teve uma desenvoltura para tratar de diversos assuntos, que fico abismado como cabe tanta coisa dentro dela. Enfim, conteúdo. Pessoas que viveram muita coisa, que estudaram muita coisa, que pensaram muita coisa e que souberam transpor isso para os quadrinhos. Isso é o que faz minha cabeça. Além de Calvin e Haroldo, claro. Que é quadrinho no estado mais puro. (sorrindo por trás do copo novamente cheio)

Você quer acabar comigo, Dani? Você quase me levou às lágrimas agora… (fungando) Bem, vamos acabar com isso! E o que é mais broxante?

Histórias lindamente desenhadas de uma forma mais tradicional, mas que não me dizem nada. Brocho, pois penso em tantos roteiristas pelo mundão afora em busca de parceiros e aquele fulano ali desperdiçando o desenho bonito dele com uma história tão besta.

Hehehe, é uma tristeza mesmo. Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (bebendo)

Concordo com o Coutinho. Temos uma linguagem própria e tão antiga quanto o cinema. Não sou de ficar pensando muito nesse assunto, mas um que me veio a cabeça foi Balas Perdidas do David Lapham. Daria uma ótima série de TV bem violenta e numa pegada noir. Mas já que você falou em fazer nossos amiguinhos ganharem dinheiro, tantas obras brasileiras ótimas saíram nos últimos anos. Pensando aqui numa leva para o cinema: Cumbe do D’Salete, Morro da Favela do André Diniz, Yeshuah do Laudo (uma trilogia, hein!), Xampu do Roger Cruz, Tungstênio do Quintanilha… Os cineastas brasileiros tem um universo imenso de coisas a explorar. E de dinheiro a dar pros quadrinistas. Você tem o telefone de algum deles? (virando o copo)

Tenho! E acho que rola fácil pra eles, hein? Tomara! Agora me diga uma quadrinista foda e porquê? (trabalhando na cerveja)

De cara me vem a cabeça nomes como a Marjane Satrapi, ou a Alison Bechdel, mas citar quadrinistas estrangeiras seria duma injustiça enorme com o cenário fantástico das mulheres quadrinistas brasileiras.

Boa! (abrindo mais uma cerveja)

Então, vou citar dois nomes de quadrinistas brasileiras fodas: A Magra de Ruim (Sirlanney) e a Gabi LoveLove6. Ambas trazem uma sensibilidade e estilos muito próprios, uma forma de contar, temas muito próprios, cada uma dentro de uma linha, com uma pauta importantíssima, um humor cáustico e com muito a oferecer para o presente e futuro dos quadrinhos.

Essas duas são demais mesmo. Quem sabe um belo dia de outono essas duas não tomam um cafezinho comigo… Você já leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès?

Sim. Puta quadrinho. Aliás, que cores fantásticas, né? (mais um gole)

Aquela cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Para responder a essa pergunta me veio a cabeça o primeiro capítulo de Do Inferno. O Alan Moore constrói toda a história e personalidade do protagonista em umas 30 e tantas páginas. Você conhece o Dr. Gull em diversas dimensões de seu caráter, sua formação e família. Mas o capítulo é todo feito em câmera subjetiva. E ele só mostra o rosto do personagem na última página do primeiro capítulo, quando ele está operando Anne Crook para destituí-la de sua sanidade mental, no início de uma trama que envolve a família real e um monte de elementos, ligando-os ao Jack Estripador. Aquele momento que o rosto do protagonista é mostrado pela primeira vez é espantoso, uma cena de impacto.

Sim! Sim! Aquilo me deu arrepios quando li. (virando o copo)

Me veio outra cena, simples e belamente desenhada, agora num universo mais humorístico, do primeiro volume de Bone. O protagonista passa quase que o primeiro capítulo inteiro tentando sair da floresta, e é alertado quanto a chegada do Inverso. Que deveria sair de lá antes do inverno chegar. Quando ele senta para tomar um ar ao final do capítulo cai um pequeno floco de neve nele, anunciando o inverno. A próxima cena é um imenso bloco de neve, que toma todo o quadro, substituindo a paisagem para a chegada do inverno.

Hahaha, eu lembro disso. É sensacional!

Aproveitando que minha memória caótica me trouxe outra coisa à mente, só mais uma cena, do primeiro volume do Yeshuah. Quando Jesus (Yeshuah) encontra João Batista e é por ele batizado, e tem ali um despertar de forças místicas, espirituais. Há uma catarse, uma transcendência, tão bem representada pelo Laudo, através da narrativa visual e dos esplendorosos desenhos, que mesmo com todo meu ateísmo eu experimentei uma certa epifania ao ler. (enchendo os copos como um bom cavalheiro)

Amém… Vou aproveitar sua epifania e te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Eu tenho uma natureza muito enraizada, gosto muito dos lugares onde vivo, dos amigos e até mesmo das pessoas desconhecidas que fazem parte do meu cotidiano. Então se é para ser algum personagem, uma pessoa diferente, a escolha é em torno de um que eu admiro e que tem uma natureza muito diferente da minha. Adoraria ser o Ken Parker. Viajar por tantos cantos, conhecer tantas coisas, participar ativamente de tantas histórias…

Sabe, eu me sentia meio Ken Parker jogando Red Dead Redemption, cavalgando a esmo, sentindo o sol morrer as minhas costas. (olhando para o vazio por alguns segundos) Imagine que você está na pele do Ken e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Um jogo pra se sentir como Ken Parker? Olha… Acho que preciso me atualizar no assunto, então!

Por favor!

Se fosse Ken e estivesse todo cagado entraria numa bodega qualquer e encheria a cara. Faria alguns amigos, teria algum amor relâmpago e arrebatador. Só para depois cavalgar e fugir da cidade mais uma vez, para deixar tudo e todos para trás e conhecer gente nova noutras paragens. (bebendo)

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Dani. Como foi para você ser abduzido?

Achei o humor dos alienígenas um pouco estranho. Não entenderam nenhuma daquelas piadinhas de pontinhos coloridos, tampouco se entusiasmaram em tomar cerveja comigo. Pra piorar, pareceram não gostar de futebol, uma pena, pois já estava escalando em minha cabeça uma seleção mundial para enfrentá-los. A vantagem foi que curti a parte da sonda. Descobri novos prazeres!

Ai que tudo!! (risos) Obrigada pela entrevista, querido. Ia perguntar se você gostaria de pedir uma sobremesa, mas estamos bebendo e…

Outra cerveja! E um Dan top. Sabe? Aquele docinho com cobertura de chocolate vagabundo e marshmallow dentro.

Porra, o meu predileto. Na minha terra chamam de tetinha. João!

Enquanto o garçom se aproxima para atende-los, um Golden de pelos curtos desponta na entrada do bar.

Zapata, espera lá fora!

Então esse é o famoso Zapata?

O próprio.

Vem aqui, amigão! (o cachorro entra no bar timidamente) Vem, vem, vem. (ao garçom) Tudo bem, né, João?

Sem problema.

E tem aqueles Dan tops?

Sim.

Traz uma porção?

Sim.

Valeu. (ao Zapata) Ei, garoto! (afagando o pescoço dele) Que lindo, Dani…

daniel-esteves

 

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