Agustin Graham Nakamura

Wonderland: Anthology (Pictus), Zero Point (Agua Negra, Ed. HQM), F.E.A.R (animation)

 

Quer pedir um café? Suco?

(Com um claro sotaque argentino e esforço de quem está aprendendo o português) Um café no jarrito, como se dice em Buenos Aires, seria bom.

Hmm, assim seja! (ao garçom) João, você tem como trazer o café nesses “jarritos”? Acho que é uma xícara um pouco maior…

GARÇOM: (ao Agustin) No hay nada como un corte de café en Jarrito el Petit Colón en la primera hora del día.

Oh, su español es muy bueno!

GARÇOM: Trabajé en el Petit Colón durante quince años. Aprendí un poquito, sí.

¡Que bien! (à Deisy) Mira.

Nossa, João, você sempre me surpreende…

GARÇOM: (sorrindo) Trago dois?

Sim, claro. Por favor.

GARÇOM: Con permiso.

Gracias! (ao convidado) Que legal. Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, Agustin, tudo bem?

Sin problemas.

Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

Ha ha ha! Desnecessárias mesmo! Nada, creo que como todos los quadrinistas gosto do formato desde criança. Mi padre lia muitos quadrinhos argentinos e europeus. Por minha madre li algo de manga japonês también. Hoy é um hobby más manejável y rápido que otros formatos dos que también gosto, como cine y la animación.

(Com aquela expressão de quem está forçando o entendimento, prefere não comentar por hora e partir para a próxima pergunta) Entendo. O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz, querido. Fique à vontade.

Y creo que el fato de ainda ter algumas cosas que no son 100% cerradas, (fechadas! isso) libres para interpretação. Contrário ao cinema onde el combo ya está pronto. También gosto que nos quadrinhos existe una mayor intimidad con el lector y e não existe a “urgência” para terminar de ver/entender y limpiar la sala de proyección a a seguinte turma. Você leva su propio tiempo. Isso, acho, es un poco más próximo de la literatura.

Sí, perfectamente. E o que é mais broxante?

O café no jarrito é servido.

Gracias, amigo. Piensa volver a Buenos Aires?

GARÇOM: Quien sabe un día.

Justo.

GARÇOM: Podrá saborear el café. (afastando-se educadamente)

Pela expressão de Deisy, nunca haviam servido um café daquela qualidade.
Eles esquecem um pouco do que estão fazendo ali.

Si, de nuevo a su pergunta. (com o café entre as mãos) Creo que é o “maneirismo”. Muita coisa copiada de otras e sin raciocínio prévio o justificación. Produtos directamente derivados de outros. Más esto también acontece em todas las áreas do entretenimento. Esto es muy perigoso para o género, acho. (bebendo seu cortado en jarrito)

Mas não para o mercado que segue empurrando a cópia, a derivação. A maioria não quer compreender um novo modelo narrativo. Não querem se dar ao trabalho. Espero estar enganada quanto a isso. Só para abrir um parênteses, recentemente, foi publicada uma pesquisa sobre os leitores brasileiros, não sei se você chegou a ver isso.

Não.

44% não lê absolutamente nada.  Propor algo que fuja ao “maneirismo” é um risco imenso financeiramente falando. Um risco necessário. (dando um gole do café)  Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorais ou morrer tentando.

Qual Rafa? Sanzio?

Hahahah, o Coutinho. Mas podia ser o Sanzio também.

Nesse ponto estamos de acuerdo. Creo que son muy diferentes y mundos no necesariamente compatíveis. Embora cuando um quadrinista consegue adaptar su trabajo no cinema seja considerado o máximo sucesso posible, os géneros em sí tiene orígenes, público, objetivos e fins bem distintos. Esto considerando que no estamos falando de franquias de super heróis, certo?

Sim.

Acho que gostaria de ver adaptado algún dia o “Corto Maltese” do Hugo Pratt ou “Alack Sinner” de Muños e Sampaio. Y certamente o “Bulldogma” de Wagner Willian!!

Hahhaha! Tava indo tão bem… (à câmera invisível na famosa quarta parede) Pessoal, isso tá cheirando a mutreta, né? Mas não tenho nada a ver com isso. E reitero o que disse aqui uma vez. Ainda estou esperando você me pagar aquela cerveja. Do contrário, irei processa-lo, Sr. WW. (ao Agustin) Fui entrevistada uma vez ao lado do WW pelo Lielson Espero que eles tenham se recuperado. Aconteceram coisas… Mas não vamos falar sobre isso. Agustin, indica uma quadrinista foda pra gente? (bebendo o cafezinho)

Opa, pergunta infelizmente difícil. Acho que conheço mais ilustradoras do que quadrinistas. Poso falar só das que conheço e gosto, mas son clásicos como Mary Blair ou Beatrix Potter. Se consideramos a época en que elas trabalharam es admirable en muchos aspectos..

São deusas pra mim. Todo dia acendo uma vela e rogo perdão pelos meus pecados. Mary Blair, Beatrix Potter. Obrigado por traze-las à tona. (Agustin desenha um gesto com a mão como se dissesse “não por isso” e bebe mais um pouco do café) Você já leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès?

Conheço mais não li, não.

Então, o casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Eu gosto desse tipo de recursos tambiém. Tem más disso en la literatura que nos quadrinhos, né?

Mucho más! Aquilo que não se revela por texto ou imagem, que não é explícito, que passa em um nível diferente do que está sendo mostrado, exige um esforço próprio da leitura de se interpretar e supor. Requer um leitor maduro e os quadrinhos atingiram a maturidade (se é que eu posso dizer isso) há pouquíssimo tempo. Tudo bem que os quadrinhos trabalham com suposições o tempo todo. Você tem que supor o tempo, o o movimento, o peso das coisas. Mas esse tipo de sugestão literária não é tão recorrente. Vai tudo pelo caminho mais óbvio. Claro que tem obras que despirocam demais e não significam nada. E nem precisam. Como Pollock ao falar sobre seu trabalho (nem sei se aquela entrevista é real ou só tem no filme). “Quando você está diante de um belo jardim, você se pergunta o motivo de todas aquelas cores e fotossínteses ou apenas aprecia o que está vendo?”Algo do tipo. Foi uma puta volta, mas ainda quero de você uma cena, Agustin. Uma cena que lhe foi marcante nos quadrinhos. (voltando ao café)

Acho que la persecução de “The Long Tomorrow” de Moebius estabelece para mí um patamar en el formato de secuencia de acción.

Perfecto. Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? 

Hmm, dessa vez deixa tomar un poco de mi jarrito y pensar un minuto …… (virando o jarrito)

Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro… Você sabe como são essas coisas.

Claro, perguntame.

Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

Opa! Pero eso y fácil! Mujer: Deunan Knute de “Appleseed” e Hombre: Bird do “Zero Point” (warning: advertising).

Hohoho, excelente!! Imagine que você está na pele de um desses personagens…

Qual dos dois?

Do Bird. E seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Bird: Na verdad o presente dele después del final de “Zero Point” es incerto. Quero decir, o personagem nunca volverá a ser el mismo después del final de los acontecimientos, ¿no es así? Pero, probablemente, estaria na cobertura de un prédio abandonado haciendo “voyeur” com mi rifle de mira telescópica en alguna persona importante para mí.

Uhhhhh. Eu também gostaria de ser o Bird às vezes, Agustin. Principalmente agora. Nós dois sabemos porquê. (matando o café) Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Agustin Graham Nakamura. Como foi para você ser abduzido?

Hmm, no posso hablar disso pelas cláusulas contractuales firmados con mis abdutores. O sólo puedo decir que el cara original ainda tá la encima e y yo soy el “bodysnatcher” dele. Mais para você ir pensando o qué hacer en su futuro próximo (como o personagem dos quadrinhos) Yo sólo posso decir que la invasión será daqui a poco, o você achou que la crisis es pura coincidencia?

Trouxe o seu equipamento?

Sí. (mostrando a comprida maleta de couro que estava a seus pés)

Então, vamos? (levantando-se com o mesmo tipo de maleta)

¿La cuenta?

Já está paga.

agustin-nakamura

 

Anúncios

Um comentário sobre “Agustin Graham Nakamura

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s