Rodrigo Rosa

Grande Sertão Veredas (Globo), Kardec (Leya/Barba Negra), O Cortiço (Ática), Dom Casmurro (Ática), vários, vários outros. Veja no site rodrigorosa.com. E editor da Figura Editora.

 

Quer pedir um café? Suco?

A essa hora, um café… e um tapa na cara, mas com afeto.

SPLASH!

Ai, desculpa, Rodrigo… Não sei o que deu em mim.

Não, tudo bem. (ajeitando os óculos)

Não sei o que… Deixa eu pedir o melhor café do mundo pra compensar isso. Deus, que vexame! 

Ei, Deisy, relaxa.

Não, cara. Isso não se faz. (o garçom se aproxima) João, você pode trazer aquele café ultra especial pra gente? Ele merece tomar um café decente. Eu só vou no embalo mesmo. Obrigada. (ao Rodrigo) Querido, vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Vou te dar umas respostas descabidas, ok?

Você tem todo direito, amor. Me diz que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

Não me lembro como começou, mas tive a sorte de desde muito pequeno estar totalmente convencido do que seria quando crescer: desenhista de quadrinhos. Sonhava com o meu nome naquela lista que aparecia nos gibis da Marvel dos anos 70, 80. Meu nome sempre abaixo do Stan Lee. Depois, com caras como o Miller surgindo, passei a riscar o Stanley dos créditos, e por aí foi. Às vezes penso “que diabos aconteceu que sigo nessa vida?” Mas vamos indo…

Sim, é como você falou uma vez: “HQ é uma demência, é um vício fodido”. (risos) 

É que no quadrinho, a única coisa que é garantida é a trabalheira insana que dá. Comparando com outras áreas das artes gráficas, é muito mais trampo do que ilustrar livros, e geralmente dá menos grana, também. Então acho que a única explicação é que os quadrinistas tem um amor irrefreável em contar histórias através do desenho. Só pode ser isso…

Só pode ser isso… (o café é servido) Ah, obrigada, João. (ao Rodrigo) Acho que você nunca provou um café como esse. 

Vamos ver. Pelo cheiro a coisa boa mesmo. (provando o café ultra especial versão exportação direto de São Manuel, vide Camilo Solano) Nossa, Deisy…

Eu sei. Agora, segura, segura isso e aproveite esse sentimento para me dizer o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (molhando os lábios no seu café ultra especial)

O grande barato é a narrativa, mesmo. Gosto quando ela é fluente, clara, que gere momentos de estranhamento, mas nunca seja confusa. E desconfio muito dessa coisa de final aberto, que muito se fala por aí. (Deisy engole a seco) Muito poucas vezes vi isso funcionar bem. A grande maioria só me parece que o cara não conseguiu acabar a história e aí passa a bola “pro leitor acabar na sua cabeça”. (Deisy solta uma risadinha tímida) Hmpf, nunca ninguém chegou pra mim e disse, “olha, sabe aquela hq que acabou assim sem mais nem menos, inventei meu próprio final”… Aí é igual a sexo sem orgasmo: pode até ser bom, mas faltou o ápice, né?

É, cara, sei muito bem como é isso.

Enfim, gosto das tramas redondas. Acho que ainda é o mais difícil de se alcançar e por isso valorizo muito. Se conseguir ainda ser original, inventiva e ter algum nível de profundidade na temática e nos personagens, então a coisa é mesmo genial. (voltando-se para o café, com gosto)

Sem querer cortar o barato, o que você acha que é mais broxante nos quadrinhos?

Olha, eu sou um desenhista de corpo e alma.

Ui!

(Risos) Não chego a ser daquele tipo de tarado que passa o dia desenhando, mas sou muuuito ligado ao desenho. Então eu tenho um bloqueio muito grande quando não gosto da arte da hq.

Eu te entendo. (dando tapinhas de compreensão na mão de Rodrigo)

Exemplo: eu nunca consegui ler Sandman porque eu acho que a arte não é bacana, ao menos naquelas primeiras hq´s, até onde me recordo, tinha ali uns desenhistas que tentavam fazer um desenho mais solto e só conseguiam ser toscos. (Deisy ri) E nem sequer era um tosco bacana, porque desse tipo eu gosto.

Meu… comigo aconteceu o mesmo. (risos) Assim, li vários, mas pulei um monte por causa do desenho. 

Enfim, é isso, é um bloqueio que tenho. A porta de entrada de um quadrinho para mim vai ser sempre a arte. Claro que, depois, o roteiro tem que ser bom, envolvente, pra que eu consiga seguir em frente… (bebendo do café)

Acho justo. Bem, uma vez o Rafa foi categórico e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acho que você pensa o mesmo… Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou MORRER tentando. (virando a xícara)

Realmente não é, mas acho que a linguagem do quadrinhos tá mais aparentada com o cinema que com a literatura, só pra ficar nessas comparações de sempre. Um quadrinho que daria um bom filme? Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia, seria épico. Ou Allack Sinner, de Muñoz e Sampayo. Não canso de adorar esses malditos argentinos. (liquidando a última gota do café ultra especial)

Maldição antiga, chefe. E continua até hoje. Conhece o Berliac? Pois é. Uma quadrinista foda e per qua?

A Marjane Satrapi, que já é um clássico, e entra nessa categoria do desenho que tem algo de tosco mas que funciona bem pacas. Tem umas soluções gráficas muito bacanas e narra lindamente suas hq’s. A Marguerite Abouet, de Aya, também tem uma narrativa muito envolvente… Aqui temos a Lovelove6, acho um barato a Garota Siririca no que tem de libertário, experimental, estranho…

Gosto de todas. Agora, a Love parece sussurrar no meu ouvido. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…

Não li, mas tá na lista.

Tem um casal de personagens nadando na piscina. Em uma cena ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou em cheio. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

O último quadrinho que me lembro de ter me abismado em sua inventividade foi o já clássico Tungstênio, do Quintanilha, com suas mudanças de ritmo tão comentadas. Essa é uma hq que exemplifica o que eu falei antes, sobre ter fluência, clareza, inventividade, etc… É chover no molhado, mas o Marcello é foda!

Foda! E que homem. (à câmera imaginária, serrando os olhos, com uma expressão levemente embriada) Marcello… estou com saudades… (ao Rodrigo) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

O Corto Maltese, pelo que ele tem de humano e mítico, vive nesse paralelo entre o mundo real e o mágico. Afora que tem o superpoder de ter sempre a frase certa na hora exata.

(Sorri) Também tenho esse poder. Só que invertido. Mas causa impacto do mesmo jeito. Bem, imagine que você está na pele do Corto e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Finalmente achar um tesouro escondido, ajeitá-lo em meu barco e partir ao gosto dos ventos.

Vaya con dios. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Rô. Como foi para você ser abduzido?

Não vi muita coisa, tinha muita luz na minha cara. Porque essas naves são sempre tão iluminadas? Quem paga essa conta de energia?…Mas enfim, me prenderam em algo que parecia uma daquelas cadeiras de bebê de restaurantes (aquelas com um tampo na frente, sabe?)

Sei, sei! Eles tem muito disso.

E me passaram um teste de encaixar peças com formas geométricas nos devidos espaços. Só que eram formas bastante complexas e eu nunca fui bom em geometria, fora que me disperso facilmente. Acho que decepcionei os caras… Me desovaram da nave de uma altura razoável.

É, a educação anda mesmo em falta. Eu mesma não… (olhando para sua palma da mão) Desculpe o tapa mesmo. Não era eu. Querido, obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Não, mas outro café viria bem. Sem tapa na cara, dessa vez. Sua mão é pesada.

Com um beijo, pode?

Se tu for afetuosa no beijo como é no tapa… melhor deixamos assim. Hahahaha.

Hahahahah (totalmente constrangida, muda de assunto). E que coisa linda é aquela que você publicou do Sergio Toppi? Malditos italianos que não me canso de adorar também. A edição ficou foooooda! Sabe aquela pergunta bem Gabi para os íntimos? O que mais vem aí pela Figura Editora(apontando ao garçom mais dois cafés) João!

A Figura é uma editora que o que tem de sonhos não tem de grana, então a ideia é ir devagar e sempre. Temos uns projetos que estamos criando do zero e prefiro ainda não comentar. O próximo deve mesmo ser o segundo volume de Sharaz-De, do Toppi. Mas adoraria lançar coisas lindas que parece que nunca vão sair aqui, como foi o caso do Toppi, que fazia quase 40 anos que não o lançavam no Brasil.

(Com pequenos corações derramando-se de seus olhos) Só posso dizer uma coisa: Obrigada!! Pô, tenho mais uma perguntinha. E paro. Juro. Se não quiser responder também, fique à vontade. Como você já fez várias adaptações da literatura para os quadrinhos, tem algum livro que você NUNCA adaptaria?

Não sei te dizer nenhum livro especificamente, agora. Mas a primeira motivação para adaptar uma obra é que ela me instigue, me encha a cabeça de sequências narrativas que me deixem com vontade de desenhá-las. Sem dúvida não adaptaria um livro que não gostei, que abandonei antes do fim. Se bem que poderia ser uma adaptação com “final aberto”, né. Hahaha.

O café é servido. No exato momento em que Rodrigo toca o pires, uma espécie de fenda atemporal se abre. Em efeito tosco, câmera lenta, vemos um Rodrigo distorcido em queda livre dentro de um túnel escuro. Desova da nave? Provavelmente.

 

 

rodrigo-rosa-bulldogma

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