Eduardo Damasceno

Quiral (Editora Mino), Bidu – Caminhos (Graphic MSP). Cosmonauta Cosmo (Editora Miguilim), Achados e Perdidos (Editora Miguilim), Quadrinhos Rasos (Independente)

 

Quer pedir um café? Suco?

Um café e uma água com gás. É isso.

Ótimo. (ao garçom que já estava ao lado) E… Ah, traz um café pra mim também, por favor. Obrigada. (ao Eduardo) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

Vou supor que você tá chamando elas de desnecessárias para que eu me sinta mais a vontade. Então sim, pode perguntar o que quiser e como quiser. E obrigado.

Hmmm, você é desses, hein? A-do-ro. Mas antes que você possa questionar “desses quem?”me diga que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

Até… pouco tempo eu estava pensando muito nisso. Aí desisti de pensar a respeito, faz mal tentar dar sentido para as coisas que são inevitáveis. (Deisy aponta o indicador como se marcasse um ponto) É lenha na fogueira da depressão. Mas já que você perguntou, vou tentar responder da melhor forma possível.

(Quase sussurrando) Thank you.

Acredito que todo mundo tem potencial pra fazer diferença, e acredito que o mundo precisa que exista essa consciência coletiva e essa vontade de mudar seja lá o que for. Mas isso não acontece se as pessoas não se comunicarem. O desenho foi o primeiro lugar onde eu senti essa possibilidade de colocar meu mundo interior na roda. Não interessa o que, conscientemente, eu penso, o que eu acho, o que eu já li ou deixei de ler, no desenho tá todo um mundo de coisas que estão em mim, mas não são necessariamente minhas e que através dele escapolem e chegam, não na consciência das pessoas, mas nesse lugar dentro delas que também estava com vontade de ouvir e ser ouvido. Com o desenho eu descobri a intersubjetividade. (Deisy está tendo sobressaltos) Não tenho uma boa memória (ela é um lixo na verdade). (o café é servido juntamente com a água. Ambos agradecem) Geralmente o que retenho das coisas (açucarando o bastante pra irritar os connaisseurs de café) com as quais tenho contato é só uma sensação ou um sentimento específico. E desenhar me dá isso, a chance de colocar essas coisas não palpáveis no espaço da comunicação, que eu acho, pessoalmente, o melhor lugar do mundo. (finalmente, deixando o açúcar de lado) Daí pra fazer quadrinhos foi um pulo. Ainda mais depois que conheci o Garrocho e a gente viu que o negócio era fazer esse trem juntos porque era bem mais divertido assim. (o primeiro gole)

Só agora percebemos que Deisy havia se transformado no emoticon da MIM (que eu chamo de chinesinha) e tem olhinhos apaixonados e pequenos corações pululando ao redor.

É esse restinho de esperança nas pessoas e no mundo que tá lá, embaixo de todo rancor, culpa, raiva e frustração envolvidos em fazer hqs. Mas geralmente eu penso só nessas outras coisas e aí a ansiedade vem pesado. (Deisy/MIM terrivelmente assustada, arrastando-se para trás como o gif, voltando sempre ao mesmo lugar) Lembro que não tem mais nada que eu saiba fazer, que talvez já seja tarde demais pra tentar uma vida com mais segurança, que independente do que eu faça vou continuar sem conseguir pagar as contas ou “vencer na vida”. Por isso parei de pensar nisso, de porque é que é faço quadrinhos. Pra cair no desespero é rapidinho e levantar dá mó trabalho. Então agora sigo com o Belchior e pronto. “Amar e mudar as coisas me interessa mais.”

(De volta a forma normal) Posso? Posso lhe dar um abraço? 

Hahahaah, claro, ué.

Prometo que vai ser “a coisa mais sincera desse programa”. (Em um longo abraço) É bom sentir algo físico também. (Eduardo olha de esguelha para a câmera imaginária) Sabe que, enquanto leitora, dá pra sacar quando há algo ali naquelas páginas, essas “coisas não palpáveis” (arroxando-o ainda mais) e quando é mera distração. Que quentinho… Aproveite a deixa e me diga o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Não usaria “excitar” pra definir nada do que vou responder, mas isso é porque sou chato.

(Solta-o) Só deixa eu voltar para o meu lugar antes que Lu comece a achar isso aqui um tanto estranho.

Foi mal. Gosto de narrativas que conversam comigo, que me convidam pra participar do que está ali dentro e não necessariamente me mostrem a saída. Eu não sabia colocar isso em palavras até ler o Miyazaki descrever os filmes dele assim e pra mim fez muito sentido.

Ah, Miyazaki é deus. (com a xícara de café nas mãos, bebe sem tirar os olhos de Damasceno)

Gosto quando as narrativas mostram as coisas mas não necessariamente explicam o que estão mostrando ou sugerindo e quanto menos texto melhor (mas não sou muito fã de quadrinho mudo também). Gosto muito de quadrinhos onde não acontece nada “extraordinário” e ao mesmo tempo gosto muito de Naruto. Sei lá, acho massa ver coisas acontecendo e conhecer os personagens bem o bastante para ter uma ideia do que eles estão pensando sobre aquilo sem que isso precise estar escrito. Ou de não conhecer os personagens mas percebê-los como figuras complexas de se compreender e ainda assim entender isso tudo só através de coisas que acontecem e não de recordatários, balões de pensamento, diálogos explicativos, cenas mirabolantes, essas coisas. (bebendo o café)

Apelar para o texto é mais fácil, não é? Mas quando atinge esse grau de refinamento na tradução de uma imagem é… porra, é mágico. Estive como Quintanilha esses dias lá em João Pessoa na Comic House do Manassés. E tava me devendo o Almas Públicas dele. Tem uma cena ali no… De Pinho! Cara, os jornalistas deixaram o jogador de futebol na comunidade dele e vazam, a poeira sobe. Ele pega a mala que estava no chão de terra. Olha para o lado, por onde o carro foi embora, como se despedisse de sua primeira e última “significação” no mundo (havia rolado uma entrevista com ele no carro sobre a vontade dele entrar para um time grande e tal). Com a mala na mão, ele dá o primeiro passo. De volta a realidade. Tudo isso sem qualquer bosta de recordatório. E o que é mais broxante? (voltando-se ao cafezinho)

Não gosto que me levem pela mão até o final e nem que façam questão de serem incompreensíveis. Acho importante a utilização de signos reconhecíveis num primeiro momento, antes que se possa subvertê-los, gosto de me sentir parte daquilo antes que tentem me confundir.

Se não virá baderna. (alguém buzina incessantemente lá fora) Uma vez o Rafa foi direto e reto, (observando a rua congestionada) disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. (voltando sua atenção ao Eduardo) Acredito que você compactue da coisa. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (a buzina cessa como passe de mágica)

Bem, acho complicado atribuir a qualquer forma de comunicação um sistema de valores que não sejam específicos para cada contexto. Quando a gente faz isso, estamos corroborando com uma ideia de alta cultura e baixa cultura que eu acho detestável. É como dizer que um entretenimento é tão bom que é uma “obra de arte”. Não vejo sentido em mudar uma coisa de lugar só para não me sentir mal em gostar daquilo. Tipo a estupidez do “guilty pleasure”. É cada coisa… Mas não foi isso que você perguntou, então vou deixar essa conversa pra outra hora porque ela é muito longa e já tem gente demais que me acha um porre. (matando o café)

Ah, cara, qué isso?! Danem-se eles. A gente todo o tempo do mundo. Talvez nem tanto assim… Você tem que terminar o Bidu, né? Mas concordo contigo. Qual o problema das coisas serem exatamente o que são? Fiz uma história de aventuras uma vez e classificaram como infanto-juvenil. E era isso mesmo. Acharam que eu fosse ficar chateada com isso. Pô, qual o problema de ser infanto-juvenil? Um dos melhores livros que li na vida é um livro infantil: “Fico à espera“. Não vou reconfigura-lo por causa disso como se houvesse algum demérito. É bobo isso. Mas… voltando a questão da cessão de direitos autorais…

Não faço questão de ver nenhum quadrinho que goste adaptado pro cinema na verdade. Acho legal que façam e se pá vou lá assistir, mas não fico imaginando nada do tipo. Agora, se esse é o jeito do pessoal que faz quadrinhos ganhar grana então bóra fazer filme e desenho de tudo.

Cai um cifrão sobre a mesa. Mais um. Outro. Uma chuva de cifrões ao som de entradas na caixa registradora. 

(Limpa os cifrões da mesa) Não tá fácil, meu amigo (guardando um ou outro no bolso). Uma quadrinista foda e porquê? 

Lu Cafaggi. Sim, eu amo ela. Acho um privilégio de todo tamanho que eu possa conviver com alguém tão competente todos os dias. Nunca vi ninguém se colocar tanto nas coisas que faz, e ela faz isso respeitando cada vírgula que sente. Isso tudo ainda com uma metodologia jornalística. Ela investiga, corre atrás, confere tudo em múltiplas fontes. Tá sempre disposta a publicar o trabalho pro máximo de pessoas possível. Encara um quadrinho autoral e um trabalho sob encomenda com a mesma seriedade e com a mesma responsabilidade de saber que aquilo vai conversar com alguém. Sem falar que ainda acho Mixtape o melhor quadrinho nacional que já li e que ela é a melhor desenhista do mundo.

(Corre uma lágrima do olho de Deisy) Desculpa, cara… Acho tão precioso isso, essa cumplicidade de vocês. Acho bonito você dizer. Obrigada. Obrigada mesmo por, sei lá, se mostrar. (funga) Tá, ignore. Continue. Tem mais alguém que você acha…

Acho que a Gail Simone tava certinha quando falou pro pessoal ficar de olho no Brasil. Tem muita mulher produzindo material muito bom. Tem as meninas do Zinas, do Mandíbula, Estúdio Complementares. O quadrinho que a Bianca Pinheiro lançou no FIQ com o Greg, o Meu Pai é um Homem da Montanha eu acho sensacional. O trabalho da Giovana Medeiros eu gosto muito, o Diário de Virgínia, da Cátia Ana é muito bom também. As tirinhas da Polayumi. É muita coisa massa sendo feita. No FIQ 2015 fiquei conhecendo também o Lua Cheia, um quadrinho da Débora Santos que curti demais. Tenho certeza que ainda tem muita coisa pra descobrir e ler. Tô achando legal ter essa oportunidade.

É, tá um rolê massa demais. Gosto de dizer que é (com seriedade) inevitável. Bem, bem, bem, não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Tipo a cena do De Pinho. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Ah, tem muitas cenas legais mas eu geralmente lembro mais do “conjunto da obra”. Tenho dificuldade em analisar cenas isoladas. Yotsubato! por exemplo é um quadrinho que cada capítulo é um negócio deslumbrante, justamente porque tudo aquilo que acontece tá sendo apresentado do ponto de vista de alguém que viu muito pouco do mundo. Qualquer trabalho do Jiro Taniguchi me dá essa coisa boa de me sentir bem sendo parte do mundo. A mesma coisa com Portugal, do Cyril Pedrosa, leio aquele livro com um aperto danado no peito mas ao mesmo tempo parece que o livro tá ali porque vai ser melhor assim. E tem as cenas que tão tatuadas no cérebro porque são engraçadas demais pra saírem dali. One Piece tem uma piada com o poster de procurado do Sanji que eu rolava de rir sozinho em casa. Cowa, do Toriyama também é engraçado demais. As tirinhas da Kate Beaton feitas a partir de capas de livros. É muita coisa, mas vou continuar falando porque me empolguei e tô achando massa relembrar esses quadrinhos.

Hahaha, se quiser eu peço mais um café, quer?

Aham.

João! (indicando mais dois cafés)

Ping Pong, do Matsumoto Taiyo, a hq toda é um negócio meio absurdo de incrível. Agora tô lendo o Sunny, dele também e, de novo, não é uma cena, mas o jeito que ele constrói a história toda de forma que exista um “sentimento daquele mundo” que permeia tudo e você meio que entende um tanto de coisa ali sem ninguém precisar te explicar nada, e faz isso tudo sem exalar pretensão, o que é muito difícil mas que acho que consegue porque ele não tá jogando nada na nossa cara, tá só contando a história daquelas crianças e pronto. Muito legal. Tem todas as lutas do Shikamaru em Naruto que são demais. O clima noir de Pluto, do Naoki Urasawa. A menina dando oi pra Patti Smith gigante em Mixtape. Ah! Tem Fullmetal Alchemist da Hiromi Arakawa, o jeito que ela trabalha com as relações pessoais dentro desse universo do shonen é massa. Dá pra ficar falando aqui pra sempre. (o café é servido)

Com cafezinho então? Obrigada, João.

Mais recentemente (enchendo a xícara de açúcar novamente) li o Shut up and Listen do Daniel Bretas e são umas histórias curtas com um desenho super competente e as histórias não necessariamente se resolvem, mas te deixam boiando num lugar legal. Ele faz o Starmind, junto com o Ricardo Tokumoto, que também é um quadrinho absurdo de bom. E o Tokumoto fez o Pequeno Song que tá bem no topo dos meus quadrinhos infantis favoritos. (batendo a colherinha na borda da xícara para cair o último grão de açúcar) Juro que tô tentando parar… Isso porque a gente tá falando de cenas (você, eu nem tanto) e nem comecei a falar sobre edições. (cafezando)

Se quiser a gente vira a noite aqui (bebendo seu cafezinho também, lembrando que os frilas estão mesmo em baixa).

Tem tanto quadrinho que me ganha na edição mas aí já é papo pra outra hora.

Tá bom. Vou te fazer uma pergunta indecente. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria?

Seria o sujeito que passeia pelo Japão enchendo a pança em Gourmet, do Jiro Taniguchi. Porque ele passa os dias enchendo a pança de comida boa.

Hahahah, foi a melhor escolha até agora. Você é foda! Gourmet é incrível. E aquela sobrecapa? Na verdade a capa mesmo, da foto. Lindo, lindo. Acho que eu nem preciso perguntar o que você faria se seu futuro, por algum motivo, parecesse desesperador, você estando na pele dele. 

Encher a pança.

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Du. Como foi para você ser abduzido?

Vai demorar pra eu entender a experiência completamente. Só a confirmação da existência de alguma coisa além do universo conhecido já é bastante pra digerir. A sensação é de que eu tô prestes a explodir, sair da casca. Existe essa vontade infinita de finalmente entender o que está acontecendo. E, ao mesmo tempo, sabendo que não é só isso aqui, ainda não é o suficiente. Fico engasgado e o ar vai embora. É uma ansiedade tão grande saber e não saber, confirmar mas não conhecer. A resposta parece estar sempre em outro lugar e não sei se tenho disposição pra me manter correndo atrás dela. Então eu olho pra dentro e tento entender o que viram de interessante aqui. Estavam estudando os efeitos da ansiedade crônica no corpo humano? Queriam entender o que é “um gordo”? (Deisy sorri) Ou seria alguma coisa mais subjetiva? Talvez quisessem compreender o que acontece com um ser humano que ama sem medida e se desespera porque mede todo o resto. Talvez não tenha acontecido de verdade. Mas acho que a ideia é um substituto bom o bastante pra memória.

A entrevista não chegou ao fim. Vieram as noites, os dias, Deisy Mantovani e Eduardo Damasceno continuaram ao sabor da boa conversa, ignorando telefonemas, trabalhos pendentes. Lu Cafaggi apareceu um dia para ver se estava tudo bem. Tomou um café com eles e retornou para BH mais tranquila. Até Belchior apareceu por lá. Aquele ponto específico do bar/cafeteria havia se transformado em um gif interminável. O que me faz lembrar que deixei meu café no fogo…

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