Daniel Fontana

Fundador do site Formiga Elétrica.

           Antes de Fontana aparecer, Deisy perguntara sobre João. Ele não veio trabalhar no dia seguinte. Faz duas semanas. Sumiu sem aviso prévio. A moça do caixa não sabe o motivo. Nem o cozinheiro. Ninguém sabe seu paradeiro. Deisy tem um pressentimento ruim sobre isso. 

DM – E chamaram a polícia?

MULHER DO CAIXA – Vão investigar, né?

COZINHEIRO – Conversa! Já disseram pro Maurício (dono do bar) já. Caso como o dele não vai pra frente. Sem parente aqui, nem nada.  Já era.

DM – Nossa… Será que ele voltou pra Argentina?

COZINHEIRO – Quem vai saber?

DM – Tomara que ele esteja bem…

MULHER DO CAIXA – Vai querer tomar alguma coisa?

DM – (deixa o balcão) Um café. Obrigada. (escolhendo uma das mesas)

       O novo garçom é bem mais velho – um senhor na casa dos seus 60 anos. Ele ficou passando um pano com álcool em todas as mesas, alheio a toda conversa. Havia conseguido um emprego. Era só isso que lhe importava. Deisy começa a ler o quadrinho novo que pegou na Gibiteria. O senhor serve o café. Ela agradece com um sentimento de nostalgia. Um tempo depois, Daniel aparece. Beijo no rosto. Acabara de sair de uma cabine de imprensa do novo filme que irá estrear em breve. Tem feito bastante frio esses dias.

DM – Quer pedir um café? Suco?

DF – (aquecendo as mãos) Café puro! Sem açúcar ou adoçante.

DM – (ao garçom) O senhor pode ver mais dois cafés, por favor. (ele se retira) Obrigada. (ao Daniel) Meu, que diabos aconteceu com você para se interessar por quadrinhos?

DF – Minhas primeiras lembranças na infância têm gibis envolvidos. Antes de saber ler, já pegava os que meu irmão mais velho comprava. O estrago começou cedo.

DM – Queria um ter um irmão desses… E o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica?

DF – Verossimilhança, eu diria, embora o conceito seja relativo. Da forma como eu vejo, em níveis mais altos, é como se as páginas nos mostrassem algo que realmente aconteceu – ou acontece naquele momento –  em  outra dimensão acessível, impressão que o cinema também pode passar. Essa possibilidade de envolvimento é absolutamente excitante, independente do que trata o roteiro.

DM – Ponha outra dimensão nisso. E o que é mais broxante?

         O café é servido.

DF – Perceber que a cultura do(s) autor(es) foi forjada exclusivamente em  quadrinhos. Quando o cara não tem repertório, tudo fica com cara de pastiche e, normalmente, essas pessoas se acham melhores do que realmente são. (bebendo seu café)

DM – Putz, isso me mata também. Esse era um comentário do Miyazaki sobre a nova geração de animadores, deles buscarem referências dentro de outros animes criando personagens viciados, pobres e sem vida.

DF – É exatamente isso.

DM – O pior é ver o pessoal que assiste a esses animes acharem que é assim que se deve se comportar na vida real e ficarem imitando as reações dos desenhos. O tempo todo. Minha avó diria que é falta de couro. (risos) Uma quadrinista foda e porquê? (bebendo)

DF – Acho a Giovanna Casotto uma artista fantástica. Os desenhos são lindos e a narrativa funciona muito bem, embora seja preciso admitir que ela preocupa-se mais com o visual do que com o roteiro. Tudo bem, pois é possível sacar que a escolha é consciente. (cafezando também)

DM – É, eu sinto a mesma coisa. Por mais que a narrativa seja, pô, gostosa pra caralho, não é pra mim. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

DF – Ah, sim! Li recentemente um mangá chamado “O Cão Que Guarda As Estrelas”, cuja primeira parte é narrada pelo ponto de vista do cachorro, que perde o dono e fica sem rumo. Em um dos trechos, alguém  o acerta na cabeça com  um pedaço de pau e ele se afasta deixando um rastro de sangue.

DM – Meu, quem me falou desse mangá foi o Guilherme Kroll. (à câmera imaginária) Obrigado, Gui. É lindo! Lindo. E tem vários momentos ali.

DF – Tem mesmo.

DM – Bem, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

DF – Hahaha! Indecente mesmo. Para não desconfiarem da minha modéstia, deixo a escolha para meu amigo Raphael Topo, que há muito tempo pouco, jogando conversa fora, disse que eu seria o Questão, personagem da DC. Sei lá qual o motivo, mas…

DM – Ai como eu tô bandido! (risos) Pois imagine que você está na pele do Questão e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

DF – Surrar marginais – e alguns desafetos – para relaxar.

DM – Que violência… Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

DF – Deveras interessante! (cantarolando o refrão de S.O.S. – de Raul Seixas – neste momento)

E assim ele ficou até o fim dos dias.

 

danie-fontana

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s