Taís Koshino

Coral (Selo Piqui) que foi indicada como finalista do prêmio miolo(s) 2015, Topografias (Selo Piqui), Vida Difícil (Selo Piqui – online), Ideia de Prosa (Selo Piqui – online)

Deisy resolveu almoçar em outro lugar. Ali perto. Voltou umas duas horas depois para encontrar a Taís Koshino. Chegaram praticamente juntas. Ela lhe conta logo de prima que estará no FIQ: 2º Encontro Lady’s Comics! Urru!!

DM – Quer pedir um café? Suco?

TK – Hmm, um café coado sem açúcar, por favor.

DM –  (ao garçom) Oi. Traz dois coados pra gente, faz favor. (ele sinaliza positivamente) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

TK – Se desnecessárias por quê fazer?

DM – Pra desperdiçar nosso tempo, claro. Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? 

TK – Também não sei, haha. Brincadeira, em 2011, fiz uma oficina de quadrinhos com os editores da SAMBA, que na época era uma grande referência no cenário que era quase inexistente de hqs independentes. Depois dessa oficina, eu e a Livia Viganó achamos que seria muito legal também ter uma publicação em quadrinhos, então tipo, uma semana depois lançamos a zine Piquic’açúcar #1, viajamos para o Rio de Janeiro e fomos na Rio Comic Con. Foi engraçado, havia apenas uma fileira de mesa dos independentes. Tinha apenas duas mulheres por lá. Era um espaço bem menos acolhedor e super masculino, mais do que é hoje (dá pra acreditar?).

DM – Caceta, meu…

TK – Aí, depois disso não parei mais, na faculdade estudava Comunicação Social com habilitação em audiovisual, o que foi complementando a minha produção em quadrinhos e tamo aí, né, produzindo e editando.

DM – Pô, massa. Resistir é preciso. (o café é servido) E o que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (bebendo meu cafezinho coado)

TK – (pousando a xícara na mesa) O que me deixa mais animada com uma narrativa gráfica é quando os elementos estão ali porque eles têm que estar, são precisos e necessários, e a relação entre eles (ou da falta deles) gera toda uma experiência estética, cria uma narrativa. Particularmente amo desenhos feios e histórias bizarras ou nonsense como alguns costumam chamar, hehe. (bebendo)

DM – Sou suspeita pra falar. Bizarrices e nonsenses são a matéria prima da minha vida. E o que é mais broxante?

TK – Ah, aquele velho mais do mesmo, um quadrinho que não cria nada de novo, só fica usando aquela mesma narrativa tradicional com um desenho que pode até ser considerado tecnicamente bom, mas não diz nada, sabe?

DM – Só usar a narrativa tradicional para mim não é problema algum, nem o desenho tecnicamente bom. Agora, “nada” vezes o “nada”, aí não dá. A não ser que esse “nada” seja conceitual. Vixe! Mas, sério, vi hoje um vídeo de um performance empurrando um bloco de gelo pela cidade até a coisa se dissolver. O título era “Alguns Caminhos Não Levam a Lugar Algum” ou algo assim. Fui pulando partes, claro. Mas vi até o fim. Até o gelo se dissolver no asfalto.  Foi uma ação proposital do artista, de criar esse discurso, evidenciar isso sobre o “nada”. Agora, se uma história não diz nada porque não é sem propósito algum… aí é a merda. (bebendo seu café coado) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorais ou morrer tentando.

TK – Se as linguagens fossem uma grande família, com certeza os quadrinhos seriam aquele primo pobre, meio nerd e introspectivo, haha, mas elas não são. Eu acredito que nos quadrinhos, assim como no cinema, existem infinitas possibilidades a serem exploradas dentro da linguagem. Eu gostaria de ver algum trabalho do Yuichi Yokoyama, com aqueles enquadramentos estranhos e uma sonoplastia inventada a partir das onomatopeias que ele cria. (no café)

DM – Uma quadrinista foda e porquê? 

TK – Só uma? Tem tantas!

DM – Oche. Quanto quiser, amor.

TK – Eu gosto muito do trabalho da Mariana Paraizo (Mazô), da Puiupo, da Julia Balthazar, da Barbara Malagoli, da Lovelove6 e da Amanda Baeza (Portugal). 

DM – São firmeza demais! A Mazô, Puiupo e a Gabi tiveram na goma. Foi lindo. A Julia, já chamei, já. Tô esperando. A Amanda… pô, vou tentar chama-la. O foda é que vai difícil conciliar com uma vinda dela pra aqui… Talvez por Skype… Não sei.   Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. 

TK – Simmm, faço natação e amo muito o Gosto do Cloro, é tão lindo aquele quadrinho!

DM – É perfeito! Aquela cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o quê. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (virando a xícara)

TK – Bom, vou fazer um jabazinho.

DM – Hahaha! Manda.

TK – No Topografias (último lançamento do selo piqui) na história da Julia Balthazar tem um quadrinho, que é a menina saindo da água, que é tão lindo que me dá vontade de chorar, me emociona mesmo! (matando o café)

DM – Nossa, bem foda. E aquelas cores? Porra! Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

TK – Ai, não sei, gosto de ser quem eu sou, hehe, mas poder voar ou me teletransportar seria bem legal.

DM – Multiplicar a conta bancária também. (risos) Imagine que seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

TK – Sendo quadrinista e editora, o meu futuro já parece meio desesperador, hahah. Então, to fazendo o que posso agora, trabalhando e me esforçando para esse futuro ser mais legal.

DM – Última pergunta, Taís, e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera. Como foi para você ser abduzida? 

TK – Ah, foi bem tranquilo. Esse tipo de visita vem me acontecendo desde que eu sou bem pequena. Acho que eu tenho até um chip implantado no meu braço direito. Talvez eu até seja uma deles (aliens), hahaha.

DM – Hahahah, ainda bem que você falou. Já não aguentava mais. Esse silicone esquenta muito. (tirando a máscara, um rosto anfíbio se revela. Alguém aí assistiu aquele seriado V? Mesma coisa. Resta saber se aquela é mesmo a Deisy Mantovani ou não. Nunca saberemos…) Você não quer tirar o seu? O pessoal aqui já está acostumado. (observando o cardápio) Acho que a gente podia pedir uma sobremesa de… Hmm, não sei… Você quer pedir alguma coisa?

TK – (saindo do estado de choque) N-não, obrigada, não como doces.

tais-koshino 

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